Opinião | Entrevista com um zumbi evangélico


“Meu trabalho foi decodificar a truculência do zumbi gospel. Eles seriam o futuro? Dizem que sim. Espero que não. Na verdade, eles são parte do hoje. Participam e se alimentam de um público gospel de pretensa liberdade, mas assumem a mesma castração do passado médio.”


Por Fábio Py*

Fábio Py. Imagem própria editada.

Às vezes me surpreendo com as mensagens que recebo na internet. Não as de ódio, polarização, descontrole. Essas, com o passar dos anos tornam-se ‘normais’. Banalizaram-se. Por elas, parece que a internet atrai tanto ódio que deve ser usada a conta-gotas, ou apenas, seletivamente. Porque absolutamente o ódio sobe a cabeça. A surpresa de um amigo, que foi aluno e que hoje é pastor de uma grande agremiação religiosa neopentecostal, escrever pedindo um encontro “para falarmos de religião” – celebrei o convite.

Afinal, como se sabe, amigos são amigos e negócios à parte. No encontro, amigos e famílias em comum dão o tom do inicio da conversa. Somos próximos nos conhecemos desde adolescência. Lembramos das famílias, nossos pais, mães, primos, primas e amigos em geral. Queria saber da igreja, questões e problemas. Ele, preocupado com minha pertença mais fluida no seguimento – o que me mantém vivo diante de tantos engodos. Está quase uma década à frente de uma igreja neopentecostal que atende à alta classe média de Niterói e no Brasil. Agora, desde os apertos de mão, logo percebi algumas diferenças no seu rosto, no cabelo. Sim, porque me lembro que entre o rosto e o pescoço tinha uma cicatriz de adolescência e o cabelo já estava desfalcado da metade da testa, pois já estava nos quarenta e muitos anos – sofrendo o efeito dos hormônios. Tenho liberdade, pergunto pelos ‘truques’. Sem pestear diz que fez um procedimento utilizando uma espécie de um tecido sintético para preencher na parte da cicatriz. Nos EUA fez outro procedimento de retirada da parte do tecido capilar e colocaram na parte da frente, onde estava caindo. Falou também de algumas aplicações de botox que faz no rosto esporadicamente. Já tinha percebido um rosto um tanto andrógeno. Repetiu – fez isso porque que seu publico ‘pedia’.

Logo, entramos no assunto dos filhos: ele tem duas lindas crianças e sabe que não sou agraciado. Falou algo que me chamou atenção. Algumas lideranças evangélicas do sul dos EUA apoiavam uma espécie de manipulação genética. Para ele, esse era o futuro, pois poderiam ‘produzir humanos ‘melhores’, ‘mais aptos’. Escolhendo melhores genes, ou até, de acordo com a vontade dos pais, a cor dos olhos, o cabelo e a possibilidade do comportamento dos filhos. Filhos efetivamente ‘escolhidos’, ‘eleitos’ pelos pais. Diante das falas empolgadas, não me contive. Perguntei pelo sexo, porque estávamos falando de manipulação genética. Com empolgação, o pastor me disse que as pessoas nem precisariam se preocupar com isso. A idéia é que os laboratórios fariam todos os procedimentos genéticos para reprodução. Explicou que assim seria extirpado o grande ‘pecado’ da humanidade. Segundo, sexo e prazer só trazia problemas para o homem e mulher. Eu incomodado (principalmente) pelo risco à sexualidade, manipulação genética e o conjunto das plásticas que fez, perguntei se há mais pessoas partilhando desse conjunto de ações e processos. Disse que de seis em seis meses, ele e a liderança da igreja iam ao cinturão conservador no sul dos EUA, com ‘fome’ de conhecimento de um líder-pensador.

Seguiam as indicações dadas nos encontros traduzindo para o Brasil – ao que indicava. Estava estarrecido com a conversa. Deixei seguir até o fim com as despedidas. Só um detalhe. Quando foi embora, percebi que estava andando torto – capenga. Responde em alto som que retirou uma costela recentemente para ajudar no esporte e diminuir barriga. Estou boquiaberto até hoje. Pensei mesmo que fosse brincadeira a conversa. Uma pegadinha. Mesmo não sendo adepto das séries da TV americana, de cenários apocalípticos de zumbis, vampiros, tornou-se impossível não lembrar das recentes intervenções de Slavoj Zizek (2014) sobre o tema do cenário do aprofundamento do capitalismo. Lembrei dos zumbis quando o vi saindo manco e com o rosto modificado. Questionei: “esse sujeito não seria uma espécie de zumbi moderno? Um homem-zumbi-sintético…?”. Ora, possui aparência artificial, cheio de cortes (milimetricamente disfarçados), intervenções, retocado com carnes em diferentes locais, todo remendado na busca da perfeição estética e, por isso, fez-se estranho. Zumbi evangélico, alimentado prioritariamente como os primeiros zumbis televisionados, de cérebros, por isso, visita regularmente os EUA para receber ordens. Para dar sentido à existência. Enquanto isso mantém uma dieta provisória dos corpos e cérebros dos fiéis, fartando-se semanalmente de suas necessidades.

Seu andar torto é fruto do processo de transformação pelo qual passa. Suas idéia seguem a lógica da liderança. Forma uma massa morta/viva, com pedaços humanos e outras sintéticas. Dizem nada com nada: repetindo ordens, idéias que lhes impõe. Balbuciam palavras, sigmas de ordens, na busca de mais e mais pessoas e carnes para alimentar e contaminar seu estado. Mais parecem ser superzumbis modernos, maquiados. Todo enfeitado, sem nada por dentro. Um detalhe. Quando o ouvia ia negando tudo o que dizia numa reza interna. Não gostaria que tamanha doença contaminasse pessoas. Até porque, diante dessa vida tétrica, medíocre, sexo é oásis. O gozo, o prazer é o que nos resta diante mesmo de tamanha superficialidade religiosa maquiada.

As falas do pastor-zumbi, inspirado no cordão conservador americano, têm a razão da lógica castradora de corpos de seu reformador preferido, João Calvino. Ele mesmo que, quando no governo em Genebra, legislou para os moradores não terem cortinas, a fim de que soubessem o feito nas suas casas. Por fim, não acho que tive um encontro que tive com o zumbi-evangélico. Não mesmo. Pareceu mais uma entrevista com perguntas e respostas. Meu trabalho foi decodificar a truculência do zumbi gospel. Eles seriam o futuro? Dizem que sim. Espero que não. Na verdade, eles são parte do hoje. Participam e se alimentam de um público gospel de pretensa liberdade, mas assumem a mesma castração do passado médio. Maquiam, disfarçam, mas seguem a linha do sinalizado na década de 1970 por Rubem Alves – o protestantismo está implicado com repressão. Melhor, a repressão alimenta os signos protestantes, mesmo hoje, num tom de cult evangelical. Não se enganem. Todos são consumidores no deserto do ‘hell’. O ‘hell’ brasileiro vem se formando aos poucos, com golpes evangélicos e bancadas conservadoras, selecionadas com os políticos mais corruptos brasileiros – nata da nata da zumbilândia evangélica.

Bibliografia:
ALVES, Rubem. Protestantismo e repressão. São Paulo: Edições Loyola, 1977.
ZIZEK, Slavoj. Problema no paraíso. Do fim da história ao fim do capitalismo. São Paulo: Zahar, 2014.


Sobre o autor desse artigo

*Fábio Py – Doutor em Teologia pela PUC-RIO, ênfase História da Igreja/Fé e Política. Professor colaborador no Programa de Pós-Graduação Politicas Sociais na UENF. Membro da CPT do Norte Fluminense (RJ) e do Coletivo Casa Comum.


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