Opinião | Precisamos de um amplo movimento de cristãos progressistas


“[Nós, evangélicos progressistas,] Não fazemos parte de um movimento isolado, sem uma história de lutas, mas de uma ampla estrutura que vem se consolidando.”


Por Johnny Bernardo*

Johnny Bernardo. Foto própria editada.

Não é segredo para ninguém que passamos por um período de extrema polarização no Brasil. Tal polarização é anterior ao impedimento da presidenta Dilma Rousseff e a recente prisão do presidente Lula: ela começa a ganhar contornos no começo dos anos 1960. Movimentos e partidos progressistas se viam diante do crescimento de grupos conservadores e adeptos do intervencionismo militar. A Marcha da Família Com Deus pela Liberdade foi uma das grandes manifestações de conservadores contra o governo progressista de João Goulart. Composta por vários grupos, membros do clero romano, empresários e políticos, a Marcha levou às ruas do Brasil mais de um milhão de pessoas contra Goulart. A primeira, realizada no dia 19 de março de 1964, concentrou entre 300 e 500 mil pessoas em São Paulo. Ao todo, entre os dias 19 de março e 8 de junho de 1964, pelo menos um milhão de pessoas marcharam contra o presidente.

Antes do término das manifestações os militares já haviam tomado o poder. O Golpe de 64 foi o resultado da junção de forças militares e civis, razão pela a qual historiadores preferem denominar de civil-militar. Por trás da derrubada de Goulart estavam os grandes produtores rurais, a burguesia industrial paulista, grande parte da classe média brasileira e os setores conservadores e anticomunistas. Por quase vinte anos o Brasil foi governado por generais, sendo a partir de 1968, com a instituição do Ato Institucional Número 5 (o AI 5), que o regime apertou o cerco contra jornalistas, movimentos e lideranças de esquerda. Meios de comunicação, peças teatrais e intelectuais passaram a sofrer forte censura por parte do governo federal. Também ocorriam com frequência prisões arbitrárias, tortura e desaparecimento de lideranças de movimentos e guerrilhas de esquerda. Foi, portanto, um período caracterizado por amplas e profundas arbitrariedades.

Os evangélicos apoiaram as reformas progressistas de João Goulart

Desenvolvida nos anos 1930, a Confederação Evangélica do Brasil foi, segundo a doutora Magali do Nascimento Cunha, em entrevista publicada pelo blog Somos Progressistas, uma das primeiras manifestações do progressismo dentro do universo evangélico brasileiro. A realização da IV Conferência Cristo e o Processo Revolucionário, entre os dias 22 e 29 de junho de 1962, em Recife, demonstrou o apoio das igrejas que compunham as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) ao projeto reformista do presidente João Goulart. Em 1967, em decorrência da IV Conferência, foi fundada a ONG Diaconia, que no próximo dia 28 de junho completa 50 anos de existência. Com o apoio de igrejas protestantes históricas e ONGs internacionais, como o Exército de Salvação, a ONG desenvolve projetos de sustentabilidade e agroecologia em três estados do Nordeste, além de desenvolver fóruns de justiça de gênero.

É da relação com teólogos progressistas católicos, como Leonardo Boff e Frei Betto, que líderes e pastores evangélicos passaram a desenvolver a chamada Teologia da Missão Integral (TMI). Teve papel central na formação deste novo campo teológico o pastor e escritor Rubem Alves. De fato, Alves foi um marco no desenvolvimento da TMI no Brasil, e hoje tem uma de suas principais representações na Escola Livre de Teologia em Missão Integral. Compõe o quadro docente da instituição nada menos que pastores como Ariovaldo Ramos, Ed. René Kivitz, Ricardo Bitum, Analzira Nascimento, Clemir Fernandes, etc. É a TMI que vai ter, portanto, uma maior penetração no protestantismo histórico brasileiro e latino-americano. Também em decorrência das reflexões da TMI vão surgir igrejas progressistas, como a Igreja Cristã Ipanema, a Rede Internacional de Amigos, a Comunidade Redenção, o Abrigo, do Rio Grande do Sul e outras pequenas comunidades.

O movimento evangélico progressista cresce a um ritmo crescente

No começo dos anos 1990 surge o Movimento Evangélico Progressista (MEP) e tem início uma nova fase de aproximação com movimentos sociais, de luta por justiça e democracia. Uma das principais lideranças do MEP foi o Bispo Robinson Cavalcanti, que morreria de forma trágica, vítima de assassinato, em 26 de fevereiro de 2012, junto com sua esposa Mirian Nunes Machado. A morte de Cavalcante abalou profundamente as estruturas do MEP, e, embora ainda desenvolva algumas atividades, não tem mais a mesma energia e capilaridade da época em que era acompanhada pelo bispo. Não obstante, a atuação do ex-bispo anglicano inspiraria o surgimento de outros movimentos progressistas, como a Frente Evangélica pelo Estado Democrático de Direito e os Cristãos Progressistas. Paralelamente, Ricardo Gondim, Hermes Fernandes, Marco Oliveira – este último autor do livro A Religião Mais Negra do Brasil e Henrique Vieira são algumas das lideranças que atuam em áreas diferentes, porém com foco em justiça social.

Não fazemos parte de um movimento isolado, sem uma história de lutas, mas de uma ampla estrutura que vem se consolidando desde a fundação da Confederação Evangélica do Brasil, passando pela atuação do Movimento Evangélico Progressista, e, mais recentemente, por meio da Frente de Evangélicos Pelo Estado Democrático de Direito e por movimentos e páginas que surgem por meio das redes sociais, como os Cristãos Progressistas, Ativismo Protestante e Evangélicas pela Igualdade de Gênero. Também, a existência de igrejas ou comunidades que desenvolvem suas atividades e estudo a partir das reflexões da Teologia da Missão Integral demonstram que o movimento possui várias ramificações. Apesar do crescimento e da amplitude do progressismo evangélico, temos pela frente uma dura luta contra a presença de figuras como a do deputado Jair Bolsonaro nas igrejas. Pautas como porte de armas, submissão das minorias, homofobia, são abertamente defendidas por seguidores de Bolsonaro.

Sabedores do crescimento da intolerância e arrefecimento ideológico no Brasil, e da penetração de pautas bolsonaristas dentro de igrejas evangélicas pentecostais e algumas históricas, temos que atuar no sentido de desenvolvermos uma frente ampla de evangélicos progressistas. É somente pela união dos diversos movimentos, coletivos, ciberativistas, parlamentares e lideranças pastorais que conseguiremos conter ou barrar o crescimento de ideologias conservadoras e destrutivas nas nossas igrejas. O evangelho pregado por Jesus foi o evangelho do amor ao próximo, do respeito ao contraditório, da não agressão e porte de armas. Não há nada nos evangelhos que demonstre que Jesus incentivou o ódio contra samaritanos, fariseus e romanos; pelo contrário: em todo o momento Jesus pregou o amor ao outro. Mulheres, crianças e enfermos eram tratados por Jesus com o devido respeito.

Tais características progressistas de Jesus têm que ser apresentadas aos milhares de evangélicos brasileiros, seja por meio de publicações em redes sociais, em colunas escritas em meios de comunicação seculares ou denominacionais, em discussões ou seminários, panfletagem na porta de igrejas, etc., temos que envolver nossos irmãos com a mensagem progressista de Jesus, e, ao mesmo tempo, mostrar os males do extremismo e fascismo de candidatos como Jair Bolsonaro. Novamente: somente pela união dos diversos movimentos, igrejas e lideranças progressistas que conseguiremos ampliar nossa presença no universo evangélico brasileiro. Não podemos permitir que pessoas simples, nas igrejas pentecostais, sejam envolvidas pelo ódio. Inclusive muitos dos evangélicos pentecostais foram beneficiados pelos programas sociais das gestões petistas, dos presidentes Lula e Dilma.


Sobre o autor dessa entrevista

*Johnny Bernardo é Cientista Social e colaborador no blog Somos Progressitas.


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2 comentários

  1. Sou cristão com convicções políticas mais a esquerda e sem ser extremado. Bom, isto já é motivo para ser marginalizado nos círculos cristãos conservadores e fico muito triste ao verificar que o ódio e a intolerância está invadindo as igrejas . Saí das redes sociais ao ver cristãos debochando e fazendo comentários agressivos para pessoas como eu que apenas defendo a justiça social e contra a opressão política como a ditadura que vivemos neste País e penso que isto nada mais é que um mandamento bíblico. Graças a Deus tenho esta página onde posso me sentir seguro em expor minhas opiniões sem me jogarem pedras como nas igrejas conservadoras.Ótimo artigo e Deus abençoe a todos. Abs.

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