Francisco de Assis: um modelo de humanidade livre


“Francisco de Assis é o grande modelo de humanidade a ser imitado, e que pode nos ajudar na humanização do Evangelho e evangelização do humano.”

Por Felipe Catão*

Bonaventura Berlinghieri : São Francisco de Assis e cenas de sua vida. Domínio público, editada.

Francisco de Assis é um dos arquétipos da humanidade reconciliada, é uma figura seminal, quer dizer – é uma semente -, está na raiz. Ele pode ser tomado como um modelo de humanidade. Através dele, é possível nutrir a esperança de que é possível para o ser humano se reconciliar com todas as coisas e antecipar a utopia do Reino de Deus que habita em cada um de nós, que rompe para fora, como utopia e realização histórica.

Francisco era uma pessoa fraterna, aberta, que aprendia com todos, até com o “infiel”, pois não é o infiel que está ali – é um irmão. Esta é a raíz de toda a antropologia franciscana: a categoria de irmão, em latim, frater. Talvez a maior descoberta mística e espiritual feita por Francisco de Assis é a da fraternidade universal. Para ele, Deus não é o juiz, não é o rei quase tirano, é Abba; é mais que pai, é o papaizinho da linguagem das crianças. E nós somos todos seus filhos e filhas, portanto, irmãos. Jesus é o Filho por excelência e nós somos filhos no Filho. Se somos filhos de Deus não podemos tratar mal os filhos de Deus (nossos irmãos), nem lhes fazer violências. É a paz, como não-violência, anunciada por Cristo no sermão da montanha.

O ambiente em que Francisco nasceu e viveu é marcado pela violência. Dentro dos muros de sua cidade, Assis, na Itália, trava-se uma luta entre os “maiores”, a nobreza, e os “menores”, da propriedade do dinheiro, a chamada burguesia. que se desenvolvia nessa época. Cada um desejoso de uma parte do poder. Eram comuns as trocas de palavras ásperas, os desentendimentos, a intervenção da autoridade civil e religiosa para acalmar os ânimos. Mesmo entre o prefeito (representante máximo do poder civil) e o bispo (representante do poder da Igreja) haviam pendências a serem resolvidas, que o próprio Francisco se sentiu no dever de intermediar.

Havia também a insatisfação reinante na classe pobre, sob o peso dos ricos que lhe exploravam o trabalho braçal e lhe arrancavam todos os produtos da terra, reduzindo-os à miséria e à fome, quando não os obrigando a migrações dolorosas. Era duro a constatação de sempre: muito nas mãos de poucos e pouco nas mãos de muitos. Ainda havia a disparidade nas leis: uma para os nobres, outra para os burgueses e outra para os mais pobres. O ser humano se sentia um joguete de interesses e ambiçoes, sem grandes esperanças; a angustia e a revolta estavam à tona da realidade e, constantemente, irrompiam, aqui e acolá, como pequenas fogueiras que se juntavam e produziam dolorosas catastrofes. Eram as armas e a violência que ditavam o processo da humanidade e tentavam embasar os relacionamentos.

Francisco de Assis se deu conta desta situação e do anormal dela. Ele sabia que o ser humano foi criado para degustar a mais preciosa felicidade, que estava sendo tolhida por aqueles que deveriam administrar a cidade. Apenas uma coisa lhe pareceu sensata naquela altura: pregar a paz. E começou daí. Segiu o conselho do Cristo: “Em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro: A paz esteja nesta casa” (Lc 10,5a), e ensinou aos frades que, onde quer que estes fossem, deveriam saudar a todos com paz e bem. Paz como tranquilidade interior, ausência de ódio, como presença de amor, aceitação do outro, desejo de conviver com ele e com ele caminhar. Paz como expressão exterior: ausência de exércitos, de porte de armas, de desejos de vingança; não é a espada que intermedia a contenda, mas o diálogo.

O ser humano deveria buscar ser pacífico, que é uma forma de sentir-se irmão. Sendo pacifico, derrama sobre si essa atmosfera e se torna, também, pacificador. A paz global é produto da paz individual. Francisco proibia expressamente que seus seguidores portassem armas, que tornam o ser humano convencido e prepotente. Francisco aconselheva seus frades que, para atingir seus objetivos, era preciso adquirir um olhar purificado sobre as pessoas: não ver defeito nelas, não se escandalizar com o seu modo de vestir, de se alimentar, não cobrar comportamentos, não invejar, não querer ter mais, não agir com truculência, não roubar, não falar mal do outro, não descobrir seus defeitos, confiar nele. Numa frase: deixar o outro livre, de modo que ele não se oriente pelo que pensamos ou diríamos dele.

A paz, vivida pelo santo humilde, não é apenas o cessar de rufar os tambores, estouros de granadas, envio de mísseis e armas nucleares, mas é todo um procedimento que de dentro do ser humano se espalha por todo o exterior, invadindo as instituições e todas as atividades humanas. É por isso que Francisco de Assis usava da poesia e do canto para espalhar e semear a paz. Cantava às multidões seu “Cântico do irmão sol”, que numa de suas estrofes bendiz os pacíficos, especificamente àqueles que perdoam. Uma das oraçoes mais cantadas e rezadas, em nossos dias ainda, é atribuída a ele, a chamada “Oração de São Francisco de Assis”: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz…”

Talvez esta seja a mais bela definiçãode Francisco de Assis: instrumento da paz… espalhador da paz. Com este título, também cabe-lhe ainda outro: apostolo da não-violência. Assim, todos os movimentos que se dedicam à promoção da paz têm em Francisco de Assis sua inspiração. Grandes homens, como Gandhi, que deu sua vida pela não-violência, tinham em Francisco um modelo inspirador.

Aqui temos alguns tópicos biográficos que revelam como o frade católicovivia, e da imagem de ser humano que ele elaborou e na qual se transformou: um homem misericordioso, compassivo, alegre, livre, serviçal, menor, pacificador e irmão universal. Essa imagem e modelo de ser humano, elaborada por ele, tem muito a ver com a sua imagem de Deus. O Deus de Francisco não está distante, acima das nuvens, mas está próximo. É um Deus que se fez criança, que chora, que necessita ser protegido. Um Deus pequenino e fraco, que não tem condições de ajudar ninguém. Mas é um Deus que assumiu nossa condição, mostrando a grandeza da condição humana. Para ele, Deus não é onipotente porque pode fazer céus e terras, ou mover montanhas, mas Deus é onipotente porque pode ser pequenino como nós, pode aguentar todo o sofrimento humano, incluindo o desamparo, e pode ser nosso companheiro na nossa humanidade.

Francisco de Assis é o grande modelo de humanidade a ser imitado, e que pode nos ajudar na humanização do Evangelho e evangelização do humano; pode nos ajudar a atravessar a crise civilizacional que atravessamos, oferecendo um novo modelo de humanidade reconciliada.


Sobre o autor desse artigo

*Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura indígena, LGBT; apoia e coordena grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre, onde serve como missionário.

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