Editorial | Lula e Sócrates: duas vítimas de um julgamento iníquo


“A cicuta de Curitiba não mata tão apressadamente quanto seus juízes condenam. A morte é lenta, na cela fria e solitária; medieval e bárbara. Lula e Sócrates, ambos vítimas de juízes sedentos por maldade, iracundos.”

07/04/2018 – São Bernardo do Campo, SP. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva depois da missa, nos braços do povo do sindicato dos Metalurgicos do ABC. Foto Paulo Pinto/FotosPublicas.

A pressa dos tribunais e juízes da Lava-Jato, para condenar Lula, já foi usada pelos tribunais atenienses há cerca dois mil anos, quando aceleram de forma não usual e suspeita o julgamento do filósofo Sócrates. Isso dificultou muito sua defesa, já naquela época, pois não teve tempo hábil para desfazer as calúnias que levantaram contra ele, a saber: corromper a juventude, negar os deuses gregos e ensinar heresias, instituindo novos cultos às divindades. O processo que condenou Sócrates em muito se assemelha ao de Lula, apesar de separados por dois milênios, tanto nas falas do pensador, quanto nas acusações contra ele. A “Apologia (defesa) de Sócrates” foi registrada por seu aluno Platão.

Assim como Lula, em sua defesa diante do tribunal que o condenou à morte, Sócrates reclamou da rapidez com que foi julgado e sentenciado – um dia -, o que prejudicou sua direito à ampla defesa diante de grandes calúnias levantadas contra ele:

“Ao contrário, talvez vos pareça que eu, ainda falando disso, o faça com arrogância, pouco mais ou menos como quando falava da consideração e dos rogos; mas não é assim, cidadãos atenienses, antes é deste modo: estou persuadido de que não ofendo ninguém por minha vontade, mas não vos posso persuadir também disto, porque o tempo em que estamos raciocinando juntos é brevíssimo; e eu creio que, se as vossas leis, como as de outros povos, não decidissem um juízo capital em um dia, mas em muitos, vos persuadiria: ora, não é fácil, em pouco tempo, destruir grandes calúnias.”

Sócrates também estava certo de que se fosse condenado, seria pelo ódio e insídia das pessoas contra ele, não pelas falsas denúncias de seus acusadores:

“Aquilo, pois, que eu dizia no princípio, que há muito ódio contra mim, e muito acumulado, bem sabeis que é verdade. E isso é o que me vai perder, se eu me perder … e não Meleto, ou Anito, mas, a calúnia e a insídia do povo: pela mesma razão se perderam muitos outros homens virtuosos, e outros ainda, creio, serão perdidos […]”

Se o ex-presidente apelou para seus familiares, como sua falecida esposa e sobrinhos, o professor de Platão também usou o apelo à emoção, ao invocar seus filhos diante dos juízes e de seus carrascos:

“Também eu, meu caro, tenho uma família, e bem posso, como em Homero, dizer que não nasci: “de um carvalho nem de um rochedo”, pois eu também tenho parentes e filhinhos, ó cidadãos atenienses: três, um já jovenzinho e duas meninas; mas contudo, não farei vir aqui nenhum deles para vos rogar a minha absolvição.”

Por fim, Sócrates foi convidado a propor sua própria pena, como era parte do processo. Ele poderia facilmente pagar uma multa, ser encarcerado ou exilado, devido aos votos apertados a favor de sua condenação. Poderia até mesmo fugir, como lhe fora sugerido; poderia se exilar em outro país, como foi sugerido a Lula. Mas aceitar qualquer pena que fosse, seria assumir sua culpa. Ele então, convicto de sua inocência e com a consciência tranquila, impõe um ultimato aos juízes: ou absolve-lo, ou alimentá-lo no Pritaneu, como um herói ou deus. Ou seja, ele escolheu morrer pela sabedoria.

Sócrates e Lula, Lula e Sócrates. Dois sapos barbudos, de idades semelhantes, na casa dos setenta anos. Dois homens simples, do povo. Sócrates disse que se aproximava dos atenienses como um pai ou irmão mais velho; Lula tem o mesmo carisma entre os pobres. Sócrates condenado à morte por envenenamento; Lula, por sua idade, também condenado a uma pena de morte. A cicuta de Curitiba não mata tão apressadamente quanto seus juízes condenam. A morte é lenta, na cela fria e solitária; medieval e bárbara. Lula e Sócrates, ambos vítimas de juízes sedentos por maldade, iracundos.

Como vimos, lágrima de pobre não comove juiz nem jurado. A injustiça não tem época nem distingue entre figurões e figurinhas. Basta afrontar os poderosos, como o fez Sócrates, ao convocar o povo à reflexão e ao questionamento; como o fez Lula, ao chamar os pobres à classe média.

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