Editorial | Precisamos romper com a heteronormatividade


As principais vítimas do modelo heteronormativo são as pessoas LGBTs, que têm sua singularidade violentada, sua sexualidade criminalizada, sua dignidade de pessoa humana negada, questionada, vilipendiada.


Por Felipe Catão*

Manifestante segura bandeira símbolo da população LGBT, na Av. Paulista – SP. Foto: Ativismo Protestante.
Gostaria de iniciar meu texto fazendo uma substituição (crítica) da ideia tradicional de sujeito – o sujeito que se encontra dentro do domínio de uma suposta natureza humana – por uma nova ideia/visão: a ideia de uma subjetividade de natureza industrial, essencialmente fabricada, modelada – uma subjetividade maquínica. Do mesmo modo que se fabrica o leite sob a forma de leite condensado, são injetadas representações nas crianças, nas mães, nos pais, como parte do processo de subjetivação. Há uma espécie de formação permanente: tudo que chega pela linguagem, pela família e pelos equipamentos que nos rodeiam fazem parte de um sistema de conexão direta entre as grandes máquinas produtivas, as grandes máquinas de controle social e instâncias psíquicas, que definem a maneira de ser dos indivíduos e de perceber o mundo. É dentro desse contexto que quero situar a heteronormatividade.
A heteronormatividade é um conjunto de ações, situações e relações praticadas entre pessoas do sexo oposto, tomadas como fundamentais, naturais e normais dentro do universo social. Ela localiza o ser humano dentro de duas categorias distintas e complementares: o macho e a fêmea (como sinônimos de homem e mulher). Desse modo, sexo físico, identidade de gênero e papel social de gênero deveriam enquadrar qualquer pessoa dentro das normas masculinas e femininas, e heterossexualidade é considerada como única orientação sexual normal. É desse modo que se cria um discurso (e uma visão) do sujeito como possuidor de uma natureza humana intrínseca, e é assim que se cria um padrão comportamental aceitos como correto e natural, e outro incorreto e antinatural. É correto e natural, por exemplo, ver um casal homossexual se beijando, é errado, abominável e antinatural, por outro lado, ver um casal homossexual se beijando, por exemplo; são definidos gostos que são essencialmente femininos e que são incorretos para os homens e vice-versa.
Como consequência, esse modelo heteronormativo produz “pessoas margens” (marginais), que são vítimas de uma segregação, cada vez mais controladas, vigiadas, assistidas na sociedade. Tudo que não entra nas normas dominantes é enquadrado, classificado em pequenas prateleiras e colocado em espaços particulares, longe do centro do convívio social. Diante do modelo tradicional de família, não existe espaço para que dois homens ou duas mulheres possam constituir uma, pois não é o amor (na visão tradicional) que constitui uma família, mas sim a necessidade de procriar. Na visão tradicional (e fundamentalista) cristã, não existe espaço para expressão do amor e da afetividade entre pessoas com uma orientação sexual diferente, pois, de acordo com o modelo cristão, Deus criou o homem e a mulher para se relacionar, sendo a homossexualidade, bissexualidade, transexualidade, abominação e pecado.
As principais vítimas do modelo heteronormativo são as pessoas LGBTs, que têm sua singularidade violentada, sua sexualidade criminalizada, sua dignidade de pessoa humana negada, questionada, vilipendiada. Os LGBTs são colocados à margem da sociedade, onde a violência é endêmica. Alguns dados permitem traçar um mapa da violência contra essa população. Segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), de 2016 a 2017, a violência contra LGBTs cresceu cerca de 30%. Em 2016 foram registradas 343 mortes por causas violentas contra LGBTs no Brasil; em 2017, 445. É possível concluir que a cada 19h um LGBT é assassinado ou se suicida vítima da LGBTfobia no país, o que faz do Brasil o campeão nesse tipo de crime, superando, inclusive, 13 países do Oriente e África, onde existe pena de morte contra LGBTs. Das 445 mortes registradas em 2017, 194 eram gays (43,6%), 191 trans (42,9%), 43 lésbicas (9,7%), 5 bissexuais (1,1%) e 12 heterossexuais (2,7%). As vítimas heterossexuais incluídas no relatório tinham envolvimento no universo LGBT, seja defendendo as pautas e lutas LGBTs, seja por estarem nos espaços de predominância gay ou serem amantes de travestis. Neste relatório foram incluídos também os suicídios, pois a taxa de suicídios, principalmente entre os jovens, é 8,5 vezes maior entre os LGBTs rejeitados pelas suas famílias e amigos. Foram registrados, em 2017, pela GGB 58 suicídios, sendo 33 gays, 15 lésbicas, 7 trans e 3 bissexuais, na faixa etária de 14-36 anos, sendo a taxa maior entre jovens que estão na faixa etária de 14-19 anos, totalizando 13 suicídios. Nosso Estado, o Amazonas, está entre os principais Estados do país que lideram o ranking de violência contra LGBTs. Foram registradas 58 mortes no Amazonas, o que faz dele o Estado com maior número de crimes contra LGBTs da região norte. Desse total, 25 mortes foram registradas só em Manaus, que lidera o ranking absoluto de assassinatos contra LGBTs, entre as capitais, seguida de Salvador (17) e São Paulo (13). A grande maioria dos crimes registrados ficam impunes.

De acordo com o relatório do site “Quem a homotransfobia matou hoje”, 99% dos homicídios contra LGBTs têm como agravante a homofobia individual – quando o assassino tem mal resolvida a própria sexualidade; a homofobia cultural, que pratica bullying contra gays e lésbicas e expulsa os travestis para as margens da sociedade, onde a violência é endêmica; a violência institucional, quando os governos não garantem segurança dos espaços frequentados pela comunidade LGBT ou vetam projetos que visam a criminalização da homofobia.

Esses dados são alarmantes e revelam que a vida e a dignidade da pessoa humana estão sendo violadas. Afinal, perseguir alguém com base no sua orientação sexual ou identidade de gênero é um crime contra a humanidade. Quando os LGBTs são tratados como párias sociais, também são afastados do convívio social, das comunidades e igrejas (que deveriam ser espaços de inclusão e acolhimento), são levados a questionar sobre sua própria pertença à família humana, são levados a questionar se são filhos amados de Deus. Culpar o próximo pelo que ele é: isto é o mais próximo que se chega da blasfêmia absoluta.

É possível, contudo, mudar essa realidade criando um novo modelo comportamental. O grande problema da homofobia no Brasil está na conscientização, na formação e na construção de um novo indivíduo ainda quando criança, com um plano pedagógico que mostre que a sociedade não se divide a partir da orientação sexual; que não há nada de errado em ser menino e ter gostos e vontades femininas; que não há nada de errado em uma mulher amar outra mulher; que aquilo que prevalece entre todos os casais é o amor que há entre eles. Desse modo, estaremos reinventando um novo modelo social, onde a diversidade é aceita e respeitada; onde os LGBTs não serão mais eliminados pelo recrutador em uma entrevista de emprego; onde os pais não coloquem os filhos para fora de casa, porque este assumiu sua homossexualidade ou bissexualidade ou transexualidade.

É preciso romper definitivamente com o modelo heteronormativo!


Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura indígena, LGBT; apoia e coordena grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre, onde serve como missionário.

Acompanhe nossos Editoriais!

Um comentário

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s