Johnny Bernardo | Entrevista com Rebecca Maciel: “Marielle era um sinal de esperança na política”


“Marielle era um sinal de esperança, de renovo na política”, declara Rebecca Maciel.


Por Johnny Bernardo*

Rebecca Maciel (na primeira fileira, a segunda da esquerda à direita com um echarpe) em evento com o coletivo de Feministas Cristãs Rio de Janeiro. Reprodução editada.

Passados 30 dias da morte da vereadora e defensora dos direitos humanos Marielle Franco (PSOL), o Brasil e o mundo ainda não obtiveram uma resposta conclusiva sobre o porquê de seu brutal assassinato, e de seu motorista Anderson. Por que Marielle? Quem a matou? São respostas que ainda carecem de um maior aprofundamento. Tanto órgãos nacionais, como a Procuradoria Geral da República, quanto entidades internacionais, têm feito cada vez mais pressão pelo esclarecimento deste triste episódio de nossa história. O que sabemos da biografia desta jovem militante do PSOL é que ela havia sido eleita vereadora após uma difícil campanha, e que teve no Complexo da Maré – que é um conjunto de comunidades localizadas na Zona Norte da capital fluminense – sua base de atuação. Mesmo não acreditando na possibilidade de sua eleição, Marielle Franco foi a quinta mais votada. Eleita, passou a fazer duras críticas a presença de militares nas comunidades, a forma como a população pobre era tratada. Antes de sua morte, havia dedicado especial atenção ao 41º Batalhão da Polícia Militar, considerado o mais letal do Estado do Rio de Janeiro. O referido batalhão é o responsável pelo policiamento da comunidade do Acari. Foi este mesmo batalhão que, dias antes da morte de Marielle Franco, matou o jovem Matheus Melo, que estava saindo de uma igreja evangélica.

Marielle fez duras críticas a mais este assassinato por forças policiais. Segundo o site Ponte – Direitos Humanos, justiça, segurança pública, “ameaças aterrorizam ativistas que denunciam violência policial em Acari”. A morte de Marielle deveu-se, quase certamente, à forma aberta e incansável como ela denunciava diversos abusos praticados por policiais. Não é um fato isolado, porém. Na história recente do Brasil inúmeros outros ativistas de Direitos Humanos e ambientalistas têm sido vítimas de emboscadas, torturas e assassinatos. Chico Mendes e a Freira Doroty Stang, na região amazônica, são dois dos principais exemplos de lideranças que foram vítimas do ódio e da truculência de pessoas que desprezam o bem-estar público, o respeito ao meio ambiente e as comunidades pobres. Marielle entraria para a lista como mais uma militante a ser assassinada por forças contrárias ao progresso. “Marielle era um sinal de esperança, de renovo na política”, observa a psicóloga e feminista cristã, Rebecca Maciel. Membro do coletivo Feministas Cristãs do Rio de Janeiro, Maciel congrega atualmente na Igreja Cristã Carioca, mas teve passagem por uma igreja presbiteriana, onde estagiou e foi seminarista. Assim como suas colegas do Coletivo, ficou profundamenta abalada com a morte da vereadora Marielle Franco. Na entrevista a seguir, Maciel fala sobre o impacto da morte de Marielle, sua importância enquanto militante dos Direitos Humanos, da causa feminista, LGBTI. Acompanhe.

Johnny Bernardo. Dia 14 de março de 2018. Após participar de um debate promovido pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), na Casa das Pretas, a vereadora Marielle Franco, sua assessora e o motorista Anderson, deixaram o local para regressarem a suas casas. Marielle era aguardada por sua companheira, Mônica Teresa Benício; Anderson, por sua esposa e filho. Cada qual com destinos diferentes, tiveram um fim semelhante. Perseguidos por um Cobalt com placa de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, o carro conduzido pelo motorista Anderson foi alvejado por pelo menos treze disparos. Marielle foi atingida por três tiros na cabeça e um no pescoço; Anderson com três tiros nas costas. Ambos morreram no mesmo local. Somente a assessora permaneceu viva. O Brasil e o mundo foram surpreendidos com a morte de Marielle e Anderson. Milhares de manifestantes ocuparam a praça da Cinelândia para protestar. A pergunta, repetida à exaustão, ainda continua: Por que Marielle Franco?

Rebecca Maciel. Primeiro gostaria de agradecer o convite para participar desta entrevista. Eu e o coletivo de Feministas Cristãs do Rio de Janeiro estamos profundamente chocadas com a morte da vereadora Marielle Franco. Existem muitas teorias sobre o porquê do assassinato da Marielle, mas, infelizmente, um mês após sua morte não foi feita sequer uma investigação completa, e por motivos igualmente nebulosos. Quem supõe que Marielle foi morta por uma facção criminosa não conhece a trajetória política desta mulher. Marielle jamais se envolveu com o tráfico de drogas, e há muito tempo vinha criticando a presença de forças armadas no Rio de Janeiro, começando pela invasão na Maré, em 2014. O exército recebeu milhões do Estado do Rio de Janeiro – que já naquela época começava a entrar em processo de falência – e realizou uma medida paliativa, desaprovada entre os moradores do complexo. Na época eu fazia estágio em um grupo de análise vocacional, e um dos núcleos tinha base na Maré. Vivenciamos uma situação de guerra terrível. Esse era o chão de Marielle, sua realidade.

A partir do momento que Marielle passa a compor uma comissão de fiscalização da intervenção militar no Rio de Janeiro, e denunciar o que estava acontecendo na favela do Acari, o exército torna-se um dos suspeitos. O uso de munições de propriedade da Polícia Federal também gerou desconfiança. Sabemos que diversos outros políticos do PSOL também fazem críticas a intervenção militar e são ameaçados constantemente. Por diversas vezes o deputado Marcelo Freixo foi ameaçado por milícias. No entanto, Marielle Franco era redatora de uma comissão parlamentar responsável pela fiscalização da intervenção militar. Além disso, sabemos que a execução de pretos, pobres e favelados normalmente não causam a mesma comoção do que um político branco e rico. Acredito que eles apostaram nessa questão quando assassinaram Marielle. Foram ingênuos, porque Marielle construiu uma das maiores campanhas políticas no Rio de Janeiro, e reuniu milhares de militantes e seguidores.

Johnny Bernardo. A repercussão da morte de Marielle alcançou outros países, com manifestações de repúdio e pedidos de investigações. O partido Podemos, da Espanha, atuou em duas principais frentes: primeiro enviou uma carta para a Comissão Europeia pedindo que o bloco condenasse o assassinato de Marielle Franco, e que os representantes da União Europeia suspendessem as negociações comerciais com o Mercosul. Segundo, parlamentares do Podemos fizeram um ato de repúdio no Parlamento Europeu, reverberando o conteúdo da carta enviada pelo partido à Comissão Europeia. A Organização das Nações Unidas (ONU) também se manifestou, assim como a Organização dos Estados Americanos (OEA). A mídia internacional também repercutiu a morte da vereadora carióca, trazendo como pano de fundo a intervenção federal no Rio de Janeiro. Não por acaso. Fazia pouco menos de um mês de intervenção federal quando Marielle foi assassinada. Acredita que a morte de Marielle será tomada como um exemplo de luta internacional pela defesa dos Direitos Humanos?

Rebecca Maciel. Figuras públicas do mundo inteiro estão citando Marielle Franco e sua história. Porém, mais do que isso, o fenômeno que eu acho mais interessante é como Marielle Franco está se tornando um exemplo de luta dentro do nosso país. A maioria das pessoas que percebem este fenômeno não são do Rio de Janeiro, e também não a conheciam. Durante as manifestações não havia somente eleitores de Marielle, mas sim pessoas que admiravam seu trabalho e exemplo de luta. É interessante porque, apesar de sermos o país que mais mata militantes de Direitos Humanos, acho que este fato despertou um sentimento que, para mim, é mais potente do que a visão internacional. A visão internacional possui duas vantagens: afastamento territorial para uma análise menos “apaixonada”, e um ar de “neutralidade política” no discurso da morte de Marielle Franco. Infelizmente sabemos que no Brasil pressões internacionais não são acatadas, ou quando são atendem a interesses da elite brasileira.

Johnny Bernardo. No Brasil, manifestações dias após a morte de Marielle cobravam punição aos assassinos. O mundo político – não apenas do campo de esquerda, do qual Marielle fazia parte – veio a público manifestar condolências à família da vereadora, e igualmente clamar por “justiça”. Organizações não Governamentais com atuação no país, como a Anistia Internacional, contextualizaram a morte de Marielle dentro de um quadro geral de assassinatos de lideranças políticas e sociais, que lutam por Direitos Humanos. O governo federal, na fígura do secretário da pasta Extraordinária de Segurança Pública, Raul Jungmann, não apenas condenou a morte, mas também passou a justificar a presença de tropas federais no Estado, com o objetivo de “trazer tranquilidade” e “garantia de segurança aos cidadãos”. Inconformado, Marcelo Freixo passou a acusar o governo federal de se apropriar da morte de Marielle com objetivos eleitoreiros. Em sua opinião, a imagem de Marielle não tem sido demasiadamente usada também por lideranças e movimentos de esquerda?

Rebecca Maciel. Há duas questões que precisam serem diferenciadas. Marielle era uma mulher de esquerda, militante do PSOL, dirigente do partido e extrema crítica à intervenção militar no Rio de Janeiro. Não há como separar a figura de Marielle do que ela defendeu. Usar sua morte para defender pontos que ela não propôs é, sim, errado. Marielle Franco era uma gigante política e deveria ter sido vista como tal mesmo antes de sua morte. A minha questão – que deve ser diferenciada do fato de Marielle ser de esquerda – é que realmente existem pessoas que usam suas manifestações contra a intervenção militar no Rio de Janeiro para ser palanque de outras coisas. Ai sim temos um desrespeito. No entanto, no geral não acredito que a esquerda tem usado a imagem de Marielle de forma demasiada.

Johnny Bernardo. Segundo uma reportagem da BBC Brasil, antes de Marielle Franco apenas duas outras mulheres negras e vindas de comunidades haviam sido eleitas vereadoras nos últimos 35 anos, dentre elas a hoje deputada federal pelo PT, Benedita da Silva. Assim como Marielle, a petista foi alçada ao universo político dentro de um contexto de exclusão social e desigualdade de gêneros. Com 75 anos, Benedita da Silva foi eleita vereadora em 1982. À época moradora do Morro do Chapéu, Benedita trabalhou como camelô, doméstica, vendedora de doces e pastel, dentre outras ocupações. Inesperadamente, conseguiu romper décadas de predominância masculina e branca, sendo eleita com ampla margem de votos. Depois dela, a próxima a ocupar uma cadeira na Câmara foi a professora e também petista, Andaraí Jurema Batista. Marielle franco foi a terceira na lista de vereadoras eleitas dentro do mesmo contexto de pobreza e violência que marca o Rio de Janeiro há décadas. A forma brutal como foi assassinada e a comoção gerada poderá impulsionar o surgimento de novas lideranças?

Rebecca Maciel. Essa é uma especulação possível, mas eu tenho algumas dúvidas. O surgimento de novas lideranças vem de caminhos diversos. Por exemplo, você citou as mulheres negras. Hoje no Brasil temos três deputadas federais negras na Câmara dos Deputados: Benedita da Silva (PT), Tia Eron (PRB) e Rosangela Gomes (PRB). Tenho uma amiga de mestrado que estudou a trajetória política de cada uma destas lideranças e é interessante que nos três casos o interesse político proveio de estímulos religiosos. No caso da deputada Benedita da Silva, ela nasceu numa família de religião afro-brasileira, mas ela interessou-se pela Teologia da Libertação e aprendeu a militar nas CEBs, tornando-se posteriormente evangélica. Tia Eron e Rosangela Gomes desenvoveram gosto pela oratória e pelo trabalho social na Igreja Universal. As duas últimas são de direita e a primeira de esquerda. No caso da geração da Marielle, temos a eleição da Talíria (PSOL) em Niterói, uma mulher negra e feminista.

Johnny Bernardo. Quinta vereadora mais votada em 2016, Marielle vinha ocupando, desde então, uma posição de destaque no cenário político carioca. Ex-assessora do deputado estadual Marcelo Freixo, e agora vereadora, Marielle foi escolhida como relatora da comissão encarregada de acompanhar a intervenção federal no Rio de Janeiro. Cria da Maré, Marielle ganhava cada vez mais espaço entre intelectuais, artistas, defensores da causa LGBTI, dentre outros movimentos e lideranças. Na entrevista que concedeu recentemente à BBC Brasil, Benedita da Silva disse que Marielle tinha potencial para ser deputada, senadora, presidente da República. Exemplo de sua ascensão na política estadual, Marielle era cotada como vice na chapa encabeçada por Tarcísio Motta ao governo do Estado. Como feminista e carioca, obviamente você acompanhava de perto a trajetória política de Marielle e pode nos responder com propriedade: ela estava prestes a alçar novos voos no cenário nacional?

Rebecca Maciel. Provavelmente sim. A campanha da Marielle Franco para vereadora foi uma das mais bonitas que já acompanhei. Muito engajamento de base e simpatia do povo. Ela recebeu votos em todas as urnas da cidade do Rio de Janeiro. Seria uma competente co-governante com o Tarciso Motta, mas acredito que ela iria mais longe e também seria uma excelente deputada federal. Ela tinha futuro.

Johnny Bernardo. A relação de Marielle Franco com a Comunidade da Maré era umbilical. Foi lá que ela presenciou a morte de uma amiga, e cuja perda a impulsionou a envolver-se com a política. Marielle queria ocupar espaços de poder, ser uma voz contra os desmandos das polícias, do governo do Estado. Para Marielle, a Comunidade da Maré seria de fato um laboratório de experiêcias, de formulação de políticas públicas. Escolheu o PSOL como partido e base de atuação parlamentar. Eleita em 2016, desde então passou a condenar a atuação do 41º Batalhão da Política Militar, que cometia diversos abusos e assassinatos de jovens. Não obstante sua histórica relação com os moradores da Maré, como explicar o fato de que Marielle recebeu menos votos na comunidade do que em outras regiões da cidade? Apesar de vítimas da pobreza e da repressão policial, há uma resistência a pautas de Direitos Humanos? A atuação de igrejas evangélicas – principalmente pentecostais e neopentecostais nas comunidades – têm conseguido afastar os moradores de candidatos do campo mais à esquerda?

Rebecca Maciel. Há vários fatores a serem considerados aqui. Primeiro, a Comunidade da Maré é um complexo de favelas. É um mundo, e é impossível dizer que todos conheciam e estavam engajados na eleição. Outro detalhe importante é que a Marielle era filiada ao PSOL. O referido partido tem setoriais de favelas, mas no geral não é visto com bons olhos pelas comunidades. O fenômeno do fake news, a falta de base ampla do PSOL e também a questão da animosidade com a religião foram determinantes para, por exemplo, a derrota de Freixo no pleito passado. Na eleição Freixo (PSOL) x Crivella (PRB), Freixo somente recebeu votos da Zona Sul (rica/média) e de parte da Zona Norte (média). Interessante notar duas coisas: são zonas onde o índice de religiosidade é baixo e onde não há atuação de milícias. Em outras regiões da cidade do Rio de Janeiro, fatores como baixo engajamento de base, fake news, dificuldade com o tema da religião e a relação milícia/tráfico foram dificuldades enfrentadas por Freixo. Marielle conhecia o coletivo de Feministas Cristãs; a encontrei em diversos eventos de esquerda cristã, e no setorial “Se A Cidade Fosse Nossa – Liberdade Religiosa”. Enfim, ela tinha presença em diversos setores e comunidades, e recebeu votos de todas as urnas. Teve um excelente desempenho.

Johnny Bernardo. Um dia após o assassinato de Marielle, movimentos de direita buscaram relativizar sua morte. O Movimento Brasil Livre (MBL) e o Revoltados OnLine foram dois dos principais grupos direitistas que publicaram notas com o objetivo de mostrar que Marielle não foi a primeira vereadora assassinada. Outros procuram desqualificar a importância simbólica da morte da vereadora, argumentando que ao dar demasiada atenção a uma pessoa vítima de assassinato, e esquecer-se de tantos outros assassinatos que são cometidos todos os dias contra negros e negras no Rio de Janeiro, é um grande desrespeito e contradição. O mais preocupante é que não houve, por parte dos movimentos acima citados, qualquer manifestação de repúdio ao assassinato de Marielle. Os movimentos progressistas erram ao dar demasiada atenção ao assassinato de Marielle? Qual é o objetivo do MBL e do Revoltados OnLine ao declararem que o assassinato de Marielle Franco não foi um caso isolado?

Rebecca Maciel. Como comentei anteriormente, não. O assassinato de Marielle e de outros defensores dos Direitos Humanos devem estar presentes em nossa memória. O objetivo destes movimentos da nova direita é sempre, de qualquer modo, demonizar a esquerda, propagando fake news. Se observarmos atentamente os argumentos destes grupos encontraremos falhas teóricas, de coerência. Como sabemos, Marielle Franco apoiava – como fazia desde a época em que era assessora de Freixo – famílias de policiais. Isso além da contradição que já foi indicada. A única coisa que permanece no discurso desta “nova direita” é a demonização da esquerda, dos movimentos sociais e progressistas.

Johnny Bernardo. Xosé Hermida, em seu artigo “O segundo assassinato de Marielle”, observa que no Brasil estão crescendo como um vírus infeccioso grupos que se empenham em romper com normas básicas de civilização. Tais movimentos dizem falar em nome da moral, de valores cristãos e do liberalismo, e, ao mesmo, suas falas são carregadas por um profundo ódio. Um exemplo da manifestação do vírus infeccioso de que fala Hermida foi a declaração da desembargadora Maria de Castro. Segundo ela, Marielle Franco teria sido assassinada devido a um suposto envolvimento com o tráfico de drogas. Apesar do imediato repúdio ao posicionamento da magistrada, como explicar o fato de que, algumas semanas depois, o pastor e deputado federal Marco Feliciano diria, em um programa da Jovem Pan, que “esquerdista demora para morrer por que a bala não acha o cérebro”? A Bíblia que Feliciano e que os mais de 40 milhões de evangélicos dizem seguir, não prega o amor ao próximo?

Rebecca Maciel. Temos que entender que as interpretações da Bíblia são um espaço de disputa. Disputas que perpassam, principalmente, por poder, dinheiro e controle social. A Bíblia, sem base hermenêutica, pode dizer qualquer coisa. Em um país com um grande número de analfabetos funcionais e uma relação política oligárquica, a religião se torna um mecanismo de manipulação. Costumo dizer que a Bíblia em si não prega nada. Na minha pesquisa de mestrado, que ainda não foi publicada, entrevistei 266 mulheres evangélicas. Na pesquisa, perguntamos no que elas criam. A maioria cria mais na Bíblia do que no Espírito Santo e Jesus. Pode parecer incoerente, mas isso explica o porquê de pessoas usarem textos do AT como se este fosse maior que o evangelho do Cristo. Jesus é a régua que mede toda a Bíblia e, nesse sentido, esbarra na lei máxima do amor ao próximo. Mas quem disse que os cristãos são cristocêntricos? Quem disse que, por exemplo, no Rio de Janeiro, capital da Universal e que elegeu um prefeito desta igreja, vão falar do mesmo evangelho que eu e você?

Johnny Bernardo. Mesmo antes de ser eleita vereadora pela cidade do Rio de Janeiro, Marielle Franco já tecia diversas críticas à presença militar nas comunidades, e especialmente na comunidade da Maré, local onde passou a atuar politicamente. Dias antes de sua morte, a vereadora concedeu uma entrevista ao site Pavio.org sobre a intervenção federal, e foi enfática: “A democracia está ameaçada”. Segundo ela, “o processo de democratização está ameaçado por causa do que está colocado: servidor, saúde, caos em várias áreas e intervenção na segurança, o que ajuda a controlar ainda mais o que já vinha sendo controlado antes”. Na entrevista, Marielle menciona ainda os 14 meses de incursão militar nas comunidades: “não só da PM, mas da Força Nacional, do Exército”, e destaca que o recente decreto de intervenção no Rio de Janeiro se deu a partir de um discurso de medo. A democracia, como expõe a vereadora, está de fato ameaçada? Há um recorrente uso do medo como justificativa para a imposição de medidas repressivas? Como você avalia as declarações da vereadora Marielle Franco ao Pavio.org?

Rebecca Maciel. O discurso do medo é sem dúvida a maior forma de controle social. Apesar do Rio de Janeiro não constar da lista dos cinco municípios mais violentos do Brasil, o discurso do medo foi fundamental para a implementação da intervenção militar como modelo passível a ser replicado no resto do país. Porém, a democracia está capenga desde sua existência. Ela é instável, não representa de fato a população e serve apenas aos interesses das elites. Entendo o que Marielle Franco quis apontar, mas acredito que a intervenção militar é apenas o ápice da fragilidade democrática que observamos.

Johnny Bernardo. Segundo a monografia “Tráfico de drogas no Rio de Janeiro”, apresentada em 1999 por Leonardo Freire Marino, no Departamento de Geografia da UERJ, é possível verificar a presença de drogas nas ruas do Rio de Janeiro desde o começo do século XX. Na década de 80 do referido século há uma maior intensidade no tráfico de drogas, sendo a maconha a de maior circulação. É nas favelas do Rio de Janeiro que, segundo Marino, que o tráfico de drogas iria se estabelecer, mas associado a todo um contexto de pobreza, violência, falta de cidadania e de lazer. Duas figuras de peso no cenário político nacional, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-secretário de segurança pública e idealizador das Unidades de Polícia Pacificadora, José Eduardo Beltrame, são unânimes ao defender que as drogas devem ser tratadas como problemas de saúde pública, e não de repressão policial. Beltrame vai mais além ao defender a humanização dos presídios e a desmilitarização da PM. Em sua entrevista ao site Pavio.org, Marielle defendeu que é preciso rediscutir a política de combate às drogas. Na sua opinião, a legalização das drogas é uma proposta adequada?

Rebecca Maciel. Sim, afinal isso já vem ocorrendo em vários países. Dentro do PSOL, esse debate já é antigo e é encabeçado principalmente pelo vereador Renato Cinco. Na rede pública, nas CAPS-AD, os profissionais já estão trabalhando a questão da droga como um problema de saúde pública, e tem sido exemplar nessa luta. A grande questão, pelo menos no Brasil, é a inadequda associação do debate da legalização das drogas com a moralidade pública – o mesmo acontece com relação ao debate da legalização do aborto. Sobre as drogas, por mais que a legalização seja viável, precisamos avançar mais neste debate – vide o excelente trabalho desenvolvido pelo governo uruguaio, em relação à maconha.

Johnny Bernardo. No artigo “Marielle pode ser o pavio que reacenderá a rua”, Josias de Souza declara que é cedo para dizer se 2018 repetirá 2013, mas destaca que o fuzilamento da vereadora Marielle Franco e do motorista dela, Anderson Gomes, retirou um pedaço da opinião pública de casa. A reação de auxiliares de Michel Temer aos primeiros movimentos de contestação a morte de Marielle foi de espanto. “Temer e seus operadores políticos assustaram-se com a quantidade de pessoas que foram às ruas por Marielle. Surpreenderam-se também com o tamanho da repercussão internacional do episódio”, observa Souza. Pelo o que acompanhamos nas redes sociais nas primeiras horas após o assassinato de Marielle, havia uma clara preocupação quanto ao impacto de sua morte. O coletivo de feministas que você faz parte teve participação nos primeiros protestos após a morte de Marielle. Passados mais de 30 dias do assassinato da vereadora, podemos dizer que “Marielle pode ser o pavio que reacenderá a rua”, ou corremos o risco de o crime não ser desvendado e ela acabar esquecida?

Rebecca Maciel. O fenômeno de 2013 foi anômalo e de improvável replicabilidade. Na época, era valoroso o discurso do “não pertenço a nenhum partido, pertenço ao Brasil”, lutando ao lado da esquerda. Hoje isso é inimaginável. Sim, a morte de Marielle Franco transformou-se em uma bandeira de luta e trouxe consigo um novo vigor à esquerda, como foi o caso da prisão do Rafael Braga. No caso da Marielle, como já citei, ela possuia uma relação próxima com movimentos feministas, de mulheres pretas, LGBTI, que são grupos mais engajados nos movimentos sociais – daí a união nas ruas. Não acredito que Marielle será esquecida, até porque sua morte causou um grande impacto na política nacional. Não como nas Jornadas de Junho de 2013, mas como algo novo e propriamente da esquerda.

Johnny Bernardo. Em outra análise sobre o aspecto simbólico da morte de Marielle Franco, há uma associação de sua morte com o contexto conturbado em que vivemos, de desmonte de políticas públicas pelo atual governo federal. Em “A morte de Marielle é um sinal ao qual devemos estar atentos”, Rodrigo Nunes faz alguns apontamentos sobre a importância da contribuição política da parlamentar carioca, ao destacar que Marielle encapsulava um futuro possível para o Brasil: “mais mulheres na política, mais negros na universidade, mais visibilidade para a população LGBT, mais igualdade de oportunidades e acesso a direitos para todos”. Nunes finaliza o artigo com a esperança de que “oxalá um dia olhemos para o assassinato de Marielle como um ponto de inflexão: o momento em que o país viu aonde o caminho tomado levava e optou por corrigir o rumo”. Como parte das Feministas Cristãs e conhecedora do caminho de desmonte que o Brasil tomou nos últimos dois anos, como você resume o aspecto simbólico da militância de Marielle e como ela será vista no futuro?

Rebecca Maciel. Na Bíblia é comum vermos que, quando um ente querido falecia, as mulheres choravam, enquanto os homens se dispersavam. Isso aconteceu na morte de Jesus, por exemplo. Quando Marielle foi morta, nós choramos, sentimos muita dor, e não só porque votamos nela, mas porque ela era um sinal de esperança, de renovo na política. Mais do que isso, era uma de nós. Uma flecha atravessou todas as mulheres: pretas, faveladas, lésbicas, bissexuais, todo mundo. É como se o desmonte criasse uma pessoalidade, tivesse destruído uma parte de você. Quando é uma companheira de chão, de rua, de eventos, você sente mais na pele e isso gera um sentimento ambíguo de tristeza. Nós, das Feministas Cristãs do Rio de Janeiro, continuamos profundamente abaladas. Eu não era a mais próxima da Marielle e, infelizmente, não pude estar na rua com o Coletivo, nas manifestações, mas considero a Marielle um símbolo de uma luta que tem que continuar. Sobre o futuro, desejo que Marielle Franco continue sendo lembrada pelo o que ela foi – uma de nós, e não apenas um mártir.


Sobre o autor dessa entrevista

*Johnny Bernardo é Cientista Social e colaborador no blog Somos Progressitas.

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