Uma lição platônico-socrática contra a política do medo e do ódio de Bolsonaro


“Bolsonaro só é possível num contexto onde a ignorância e a violência são a regra, no jogo político.”

14/09/2016- Brasília- DF, Brasil: Deputado Jair Bolsonaro discute com a deputada Maria do Rosário durante comissão geral, no plenário da Câmara. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil (editada).

Estamos vivendo, no país, um momento de profundo entorpecimento e obscurantismo. A ignorância, a violência, as injustiças, o fanatismo e a mentira têm sido uma constante. Têm sido, inclusive, o programa de muitos políticos, como no caso do presidenciável Jair Bolsonaro, que usa da ofensa, agressão e mentira como plataforma para se destacar no ambiente político. Diante desse contexto, trago uma lição dada por Sócrates/Platão e pela filosofia grega.

Sócrates dissera que o que há de mais precioso no ser humano é sua alma racional e que, graças a sua razão, o ser humano pode ser justo e praticar a virtude. O contrário disso, a irracionalidade e a ignorância, são expressões e causas da violência. O filósofo grego examina e identifica dois tipos de violências.

Para Sócrates, o primeiro tipo de violência é aquela que o ser humano comete contra si mesmo, deixando-se levar pela busca irrefletida e imoderada dos prazeres; emoções impensadas, irracionais, que nos arrastam para direções contrárias e nos deixam sem saber o que fazer. Crescem por si mesmas e tomam conta de todo nosso ser.

Qual violência há no poderio irracional das paixões? A violência que contraria nossa razão, que vai contra ela, a razão, que é nossa melhor parte.

Quando não deixamos nossa parte superior (a razão) se desenvolver, nos tornamos vítimas de nossa própria ignorância; somos dominados e governados pelos objetos de nossos desejos e apetites. Além disso, fazemos também violência aos outros, pois a paixão quer possuir sozinha tudo que lhe traga prazer e luta contra os demais por essa posse.

A paixão nos torna tirânicos, fazendo-nos desejar impor nossa vontade e opinião aos demais, encontrando prazer em os dominar e submeter. Somos injustos com o outro porque nos deixamos levar pela ignorância, pela desrazão.

As paixões também nos fazem ser heterônomos – somos governados pelas coisas que desejamos – e nos fazem querer que os outros sejam heterônomos – sejam governados por nossa vontade. Elas são um tonel furado que nunca pode ser enchido; e o conflito dos prazeres é violência contra si mesmo e contra os outros.

O segundo tipo de violência, segundo Sócrates, é a violência que os seres humanos praticam entre si, como na política, na guerra, na religião e na educação. Em todos esses casos, é a autonomia, a liberdade e, sobretudo, a independência para julgar que estão comprometidas. Desordem e conflito, falta de proporção, equilíbrio e medida constituem a violência recíproca.

Violência e injustiça são realizadas, principalmente, por meio de dois instrumentos: pela força física e das armas e pela palavra. E é particularmente esta última que interessa a Platão/Sócrates: o combate à violência e à injustiça, realizado por Platão, começa pelo combate à mentira, isto é, à linguagem que deliberadamente diz o falso, por meio de ilusões, simulações e dissimulações, conseguidas com palavras belas e astutas.

A ignorância, na filosofia platônico-socrática, é a raiz das injustiças e das formas de violências existentes na sociedade. E, de fato, é isto que temos observado: quanto mais a ignorância (expressas no fanatismo religioso-politico, nas fake news, no fundamentalismo, nos julgamentos com base em convicções, nos discursos de ódio) cresce, mais a violência cresce como consequência.

A proposta de Platão/Sócrates parece simples: acabar com a ignorância a partir da busca do saber, a partir da investigação filosófica. Apenas parece simples, mas não é: a investigação filosófica exige, primeiramente, que o ser humano reconheça sua própria ignorância, seus preconceitos, seus pré-juizos. É quase impossível que o ser humano se dê conta dessas coisas. Ele vive agarrado à presunção de que a sua opinião (fundamentada na ignorância) é a única verdade possível. E a presunção do saber é um obstáculo para o conhecimento; e as pessoas, particularmente nas redes sociais, estão cheias dela.

O fascismo é fruto dessa tirania de quem quer impor suas convicções, opiniões, “certezas”, como verdades a todos. Não há outro modo de convencer alguém do erro e da mentira, a não ser através da violência.

Bolsonaro só é possível num contexto onde a ignorância e a violência são a regra, no jogo político. Inclusive, não é nenhuma coincidência ele ter crescido nas pesquisas exatamente quando o fascismo, a violência, as fake news e o ódio, também cresceram. Bolsonaro representa o contrário do que é o governante ideal, para Platão.

Segundo Platão, especificamente, o único governante viável é o amante do saber, aquele que supera a ignorância e as paixões, o ser humano virtuoso, que não se deixa corromper e, tampouco, deixa que os outros se corrompam; o filósofo (o que ama a sabedoria), por excelência, que tem o dever de envolver a sociedade na experiência da verdade.

Que as reflexões política e social sejam pautadas no respeito, na tolerância, na busca do conhecimento, na investigação e averiguação das fontes; que não se deixem levar por opiniões, convicções (cegas), certezas inspiradas no ódio. Que cada vez mais o ataque seja às ideias, não às pessoas. E um ataque sem o ódio e a ignorância como pano de fundo, mas um ataque bem fundamentado. As únicas coisas intoleráveis são o fascismo e a tirania – estes devem ser combatidos. Por uma política mais racional e menos emocional!


Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura indígena, LGBT; apoia e coordena grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre, onde serve como missionário.

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