Johnny Bernardo | Entrevista com Osmar Carvalho, do Ativismo Protestante


“As redes sociais foram o meio que encontramos para expressar nossas ideias, depois de sofremos forte perseguição e tentativa de censura dentro de nossas igrejas.”

Osmar Carvalho. Foto própria.

A comunicação faz parte da humanidade desde os tempos primitivos. Na pré-história, a forma encontrada pelo homem para passar seu conhecimento adiante, ou preparar-se para uma caça bem-sucedida, foi a de registrar imagens, ícones, ou signos dentro de cavernas ou pedras. Era então a primeira forma de comunicação desenvolvida pelo homem. Desde então a humanidade vem criando outras maneiras de transmissão do conhecimento, das tradições, dos fatos corriqueiros. O alfabeto foi desenvolvido pelos fenícios, e coube aos gregos dar maior dimensão – filosófica – ao processo comunicativo. A criação, em 1450, pelo alemão Johannes Gutemberg, da máquina de impressão em tipos móveis possibilitou a publicação de inúmeros livros, começando pela Bíblia. A partir de então foi possível a publicação, em escala maior que a feita por copistas profissionais, de inúmeros livros, textos e jornais. A imprensa desenvolveu-se de uma forma extraordinária, sem precedentes. Revolucionou.

A grande revolução comunicativa aconteceria, no entanto, com a invenção da mídia audiovisual, que é um processo que começa a se desenvolver no final do século XIX, com contribuições de cientistas como Alexander Bain, que em 1842 surpreendeu o mundo ao enviar uma imagem por meio de um telegrafo, e a comprovação, trinta anos depois, da teoria do também cientista Willoughby Smith, de que a substância química selênio seria capaz de converter energia luminosa em energia elétrica, o que tornaria possível a criação do primeiro aparelho televisivo. Foi no sótão da casa do engenheiro John Logie Baird, em 2 de outubro de 1925, que ocorreu a primeira transmissão de uma imagem – a da cabeça de um ventríloquo, chamado Bill. Dois antes o russo Wladmir Zworykin havia desenvolvido o primeiro modelo de tubo, chamado de Iconoscópio. A partir de 1935 a televisão passou a ser uma realidade. Desde então o mundo passou a contar com mais uma inovação tecnológica, posterior ao rádio. Logo, porém, a mídia audiovisual passou a ser usada por formadores de opinião e religiosos.

O conceito mais tarde discutido em centros acadêmicos, nos EUA e na Europa, da influência de pastores por meio de programas audiovisuais, passou a ser também uma realidade no Brasil, com o monopólio exercido por líderes neopentecostais e pentecostais. Com a presença cada vez maior de igrejas evangélicas em canais de televisão e rádio surge uma forma semelhante de coronelismo, comum no interior do Brasil, local este em que lideranças políticas e famílias dominam o cenário político e econômico por meio do monopólio de redes de comunicação. Basta ver a influência da família Collor de Mello em Alagoas. É com a universalização da Internet que observamos, no entanto, um maior aprofundamento da influência exercida por grupos oligopólicos, ao mesmo tempo em que ocorre uma maior democratização no acesso e produção de conteúdos.

Dentro deste contexto surge o que o ativista evangélico Osmar Carvalho chama de “mídia alternativa”. Pentecostal, Carvalho é um dos fundadores do site Ativismo Protestante (AP), “canal de comunicação progressista criado com o objetivo de fazer um contrapeso aos meios de comunicação conservadores”. Nesta entrevista vamos conhecer um pouco sobre o trabalho desenvolvido pelo engenheiro assembleiano, bem como discutir temas relacionados ao monopólio exercido por famílias e políticos e temas caros, como o aborto. Leia.

Johnny Bernardo . Em outubro de 2017 uma pesquisa desenvolvida pelas ONGs Repórteres Sem Fronteiras e Intervozes revelou algo que pesquisadores de todo o País vem discutindo há décadas: que os meios de comunicação são controlados por famílias, por oligopólios. É um problema que surge com o estabelecimento dos primeiros jornais impressos no Brasil. Segundo as ONGs, pelo menos cinco famílias controlam metade dos principais meios de comunicação do Brasil. Na sua opinião, em que este monopólio prejudica o País? Ainda: como poderemos superar esta barreira midiática oligopólica?

Osmar Carvalho. Pelo visto esse é um problema que perdura até os dias de hoje no Brasil, e não só com grupos de mídia corporativa daqui, como também com grupos de novas formas de comunicação de outros países, como as redes sociais. Haja vista o poder que o Facebook tem de formar bolhas e opiniões, a ponto de interferir diretamente em um processo eleitoral.

Recentemente o jornal Folha de S. Paulo anunciou sua saída do Facebook, pois parece que de alguma forma a rede social estava prejudicando sua hegemonia “familiar”, embora sua alegação seja a de que falta transparência nas mudanças do algoritmo de Mark Zuckerberg, o que iria favorecer a divulgação de fake news, em detrimento do jornalismo “profissional”.

Ao utilizar o adjetivo “profissional”, a Folha deixa claro que há uma meia dúzia de famílias que fazem o “verdadeiro jornalismo”, ao passo que os outros seriam desprezíveis, ou seja, há uma tentativa de criminalizar todos os meios de comunicação que não sejam grandes conglomerados midiáticos, que não são feitos com muito dinheiro, como as novas mídias alternativas, que são financiadas coletivamente. Podemos citar entre as novas mídias alternativas os “Jornalistas Livres”, a “Mídia Ninja” e o próprio site “Ativismo Protestante (AP)”.

Em Brasília, na última sexta-feira (2), os coletivos Intervozes e Repórteres Sem Fronteiras lançaram um estudo apontando que uma minoria de empresários, políticos e famílias brasileiras controlam mais de cinquenta grupos de comunicação no Brasil. Os dados estão disponíveis na plataforma quemcontrolaamidia.org.br. Os dados são alarmantes, como era esperado. Segundo o MOM-Brasil, que mapeou os 50 veículos ou redes de comunicação no Brasil, em quatro segmentos – 11 redes de TV (aberta e por assinatura), 12 redes de rádio, 17 veículos de mídia impressa (jornais de circulação diária e revistas de circulação semanal) e 10 veículos online (portais de notícias), há grupos que possuem interesses econômicos, políticos e/ou religiosos. Enquanto os interesses econômicos vão de negócios nos setores de educação, saúde, imobiliário, financeiro, de energia e agrário, os interesses religiosos são praticamente todos voltados à propagação de uma única fé. Isso se torna um problema para a liberdade religiosa, já que dos 50 veículos pesquisados, 9 são de propriedade de líderes cristãos.

Como poderemos superar esta barreira midiática? Tal conflito e monopolização foi previsto na teoria de Karl Marx sobre a luta de classes e a economia política. Marx usa a ideia de “alienação do trabalho” para explicar isso, segundo a qual o desenvolvimento alienante dos capitalistas produz instituições que eles mesmos não conseguem depois controlar, como se fossem monstros irracionais e iracundos que se voltam contra eles. O mercado capitalista é um bom exemplo disso, já que nele os próprios capitalistas mais fortes devoram os mais fracos, e todos estão sujeitos à falência. Com o advento da internet no papel desse monstro capitalista incontrolável, parece que estamos diante de tal cenário e precisamos saber fazer uma leitura correta, pois, segundo o próprio Marx, aí estaria a solução. Em seu prefácio à “Contribuição à Crítica da Economia Política”, Marx nos mostra como se dá o surgimento de uma força que pode superar o antagonismo produzido em um meio social (nesse caso, midiático):

“Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que elas contém, e jamais aparecem relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para a sua existência.”

Ao meu ver, o desaparecimento dos jornais impressos e a queda da audiência televisiva e das rádios mostram que esses meios corporativos de comunicação alcançaram seu apogeu, e agora definham, como previra Karl Marx. Por outro lado, as mídias alternativas ou independentes nasceram e maturaram dentro ou a partir da própria mídia tradicional, com a ajuda da internet, e já são uma realidade com todas as condições materiais de existência, pois não precisam de dinheiro nem de outra coisa da velha elite midiática para atuarem. Não há dúvida de que estamos diante de um grande salto de qualidade, como também prevê a dialética marxista. Se soubermos fazer essa leitura e agir com sabedoria, temos tudo para ocupar, se não tudo, uma grande parte dos espaços midiáticos.

Johnny Bernardo. É no interior do Brasil – principalmente nas regiões Norte e Nordeste – que a associação mídia-política-coronelismo sintetiza a forma como grupos políticos e oligarquias dominam a sociedade. É do jurista Victor Nunes Leal (1914-1985) uma das principais contribuições para a compreensão deste fenômeno há muito explorado por produtores cinematográficos. No livro Coronelismo, Enxada e Voto (1948), Nunes Leal disseca o funcionamento do coronelismo no Brasil. Na sua percepção, o coronelismo também pode ser observado nas igrejas evangélicas brasileiras?

Osmar Carvalho. Essa tríade também está presente de maneira forte na região Sudeste. Basta observarmos a hegemonia neopentecostal em programas televisivos. Na política esse predomínio se reflete pois essas igrejas também têm forte presença e influência por meio da bancada evangélica, na qual as Assembleias de Deus têm o maior número de deputados. Nas igrejas temos a mesma cultura coronelista, tanto que denunciamos isso algumas vezes no AP. Algumas igrejas são familiares, como as neopentecostais Universal, Deus é Amor e as Assembleias de Deus.

Recentemente escrevi um artigo de opinião no AP, denunciando o nepotismo praticado pela Igreja Assembleia de Deus Ministério do Belém, intitulado “O nepotismo da família Costa na Assembleia de Deus”. Essa oligarquia acaba ditando os rumos políticos e sociais para os seus fiéis; como consequência, temos votos de currais evangélicos e criminalização de temas importantes, como o uso recreativo da maconha e o aborto.

Johnny Bernardo. Por falar em igrejas evangélicas, desde pelo menos a segunda metade do século XX figuras de destaque no cenário evangélico nacional vem galgando espaços nos meios de comunicação – sendo o pastor Silas Malafaia um dos principais formadores de opinião através de seu programa “Vitória em Cristo”. Há também um movimento perceptível pela articulação dos deputados evangélicos na Constituinte de 1987, de lobby pela concessão de canais para igrejas evangélicas. Outro problema é o aluguel de redes de TV por igrejas. Não há um dilema ético e legal nestas transações?

Osmar Carvalho. Do ponto de vista da lógica de mercado está tudo correto, pois as emissoras de televisão vendem os espaços e as igrejas pagam para fazer uso deles. Porém, do ponto de vista legal, parece haver um problema nisso, já que, em certo horário da noite e de finais de semana, quase todos os canais estão passando programas evangélicos.

Que dizer de outras religiões, a exemplo do candomblé? Não podem ter acesso aos meios de comunicação por falta de dinheiro? Tal hegemonia cria um dilema legal, uma vez que dificulta a difusão da diversidade religiosa brasileira, em benefício do puro mercado dos evangélicos. Não há uma regulação justa desses espaços midiáticos de massa, o que reforça o preconceito e a discriminação contra algumas religiões que não exploram a fé, e por isso não têm tanto poder aquisitivo para estarem ali.

Outro problema é o uso de dízimos e ofertas na propaganda televisiva. Não acho isso justo também, pois cria uma disputa de narrativas religiosas desigual, na qual quem tem mais grana é mais abençoado, logo, segue o “deus certo”.

Do ponto de vista ético, questionamos se as igrejas estão corretas ao investir milhões pelo uso destes espaços, quando poderiam usar o dinheiro em obras sociais; e se é certo os donos dos canais aceitarem esse dinheiro.

Johnny Bernardo. Na cartilha de Propostas de Políticas Públicas do Movimento Brasil Livre, no tópico Economia, o referido movimento sai em defesa da ampliação da participação de capital estrangeiro em veículos de imprensa: “Acabar com o limite de 30% de participação de capital estrangeiro em veículos de imprensa”. Coube à Proposta de Emenda ao artigo 222 estabelecer o teto de 30% para grupos estrangeiros. Na mesma cartilha o MBL defende a ampliação da presença de empresas estrangeiras em setores como saúde. Na sua visão, quais são as reais intenções da proposta?

Osmar Carvalho. Tudo o que provém do MBL é duvidoso. Antes se diziam “apartidários”, mas apoiaram inúmeros políticos e alguns de seus membros filiaram-se a partidos. Ao mesmo tempo em que defendem uma agenda liberal, pregam intervenção do Estado em questões morais, como controle da nudez em exposições. Não vejo eles fazendo o mesmo escarcéu quando o assunto é casamento, por exemplo. Por que não privatizar essa instituição pública matrimonial? Por que precisamos da chancela do Estado para nos unirmos a outras pessoas? Não seria mais justo e lógico deixar para o setor privado isso? Pensemos nos benefícios desta civilidade: ninguém mais cuidaria da vida privada de ninguém, já que cada um pagaria por seu próprio casamento. As questões relacionadas ao casamento homossexual seriam superadas.

Enfim, o MBL parece se preocupar mais com questões morais e com o bolso deles do que com questões mercadológicas de fato, porque isso rende muitos votos e doações em uma sociedade preconceituosa, moralista e conservadora como a nossa. E vender a saúde não me parece uma boa intenção em um país em desenvolvimento como o nosso, onde tal serviço é caro e poucos podem pagar.

Johnny Bernardo. Um movimento que vem sendo observado por pesquisadores dos meios de comunicação é uma aparente mudança editorial de veículos como a revista Veja e a TV Globo. Há pelo menos dois anos os referidos meios de comunicação vêm introduzindo em seu programa editorial pautas que outrara eram avessos. Na revista Veja, o novo diretor-executivo André Petri fez uma série de mudanças no quadro de colunistas, tendo demitido polemistas como Rodrigo Constantino. Na Globo observamos algo semelhante. Qual é sua percepção com relação a estas e outras mudanças editoriais?

Osmar Carvalho. Eu mesmo já compartilhei vários artigos da revista Veja e do G1 nas páginas nas redes sociais. Vejo com bons olhos as mudanças editoriais da revista Veja e TV Globo – afinal não é o que queremos, ou seja, termos o apoio destes dois veiculos de comunicação? A condição ideal seria aquela em que todas as narrativas estivessem representadas, mas tendo mais de uma já é um avanço, ainda mais por meio destes meios de comunicação.

Na TV Globo os evangélicos estão conseguindo cada vez mais espaço, em novelas e festivais de música gospel, embora eu seja receoso em relação a esse mercado. É um grande avanço, mas não devemos nos esquecer de que há um interesse capitalista por trás da abertura da mídia aos evangélicos. Estes canais perceberam que o número de evangélicos teve um grande crescimento, e que, consequentemente, tornaram-se grandes consumidores.

Johnny Bernardo. A quase universalização da Internet e das redes sociais vêm possibilitando o surgimento de novos movimentos sociais, de grupos ou nichos de interesse comum. Foi do uso de plataformas como o Facebook que mídias livres e independentes conseguiram desenvolver grupos específicos de influência, sendo o direitismo um dos que mais têm ampliado sua presença na sociedade graças a capacidade de alcance do Facebook. Movimentos progressistas também têm se beneficiado de likes,curtidas e compartilhamentos. O Ativismo Protestante (AP) surge também neste contexto?

Osmar Carvalho. Sim. As redes sociais foram o meio que encontramos para expressar nossas ideias, depois de sofremos forte perseguição e tentativa de censura dentro de nossas igrejas. Eu sofri muitas perseguições na Assembleia de Deus Belém. Nunca me chamaram para um diálogo decente lá, desde que comecei a expressar meu posicionamento político progressista nas redes sociais. As vezes que me chamaram para conversar foi para me intimidar e me calar. Não há diálogo com fundamentalistas.

As ADs apoiaram o golpe de 2016, que culminou no impedimento da presidenta eleita democraticamente, Dilma Rousseff, e apoiou o ex-deputado Eduardo Cunha. Nascemos dessa ruptura da ordem democrática, como está declarado em nosso Manifesto. Ao mesmo tempo, percebi que havia esse domínio dos espaços virtuais por veículos gospel de direita. Desde então o Ativismo Protestante passou a ter como objetivo fazer um contrapeso a esses veículos, como um canal de comunicação progressista.

Johnny Bernardo. Não há dúvida quanto ao fato de que as redes sociais trouxeram consigo inúmeras possibilidades de democratização de acesso e de uso de suas ferramentas, mas recentes decisões de páginas como o Facebook têm despertado muitas críticas. Frequentemente posts de imagens e textos são excluídos após denúncias de usuários que se dizem “ofendidos”. Também ocorre de donos de páginas serem excluídos ou suspensos da plataforma. Nos EUA, a mesma rede social é acusada de ter colaborado com a eleição de Trump. O Facebook ainda é uma ferramenta confiável?

Osmar Carvalho. Após ser bloqueado pelo Facebook, por postar uma imagem de um quadro do Michelangelo, tratei um pouco disso, em dois artigos no AP intitulados “Exclusões do Facebook são parciais e questionáveis”, no qual fiz um pequeno teste e comprovei a imparcialidade, a falta de justiça e a ausência de transparência nessas ações arbitrárias da rede social; e “Meus 3 dias como um excluído e censurado pelo Facebook, por postar uma obra de Michelangelo”, no qual tratei das consequências psicológicas que eu sofri diante da censura. Concluí que as decisões do microblog são questionáveis. Seria interessante o leitor ler esses dois artigos para tirar suas próprias conclusões.

Outros fatos colocam a confiabilidade do Facebook em dúvida, como a saída da Folha de S. Paulo, alegando falta de transparência, e a recente ameaça da Unilever de retirar suas propagandas, por causa da falta de pró-atividade da rede social em criar um ambiente seguro e livre de conteúdo extremista e ilegal.

Johnny Bernardo. No dia 11 de dezembro de 2017 o Ativismo Protestante publicou um editorial em que apresenta uma breve retrospectiva de seu primeiro ano de funcionamento. No referido editorial é feita uma referência ao slogan “Liberdade de expressão e senso crítico”, e aos direitos humanos – elementos estes que o criador do site declara não ter encontrado em sua igreja. O que o editorial descreve de forma resumida é o que centenas de cristãos progressistas vêm declarando nas redes sociais e em artigos. Igualmente fala-se da dificuldade de envolvimento de outros irmãos com pautas progressistas, de defesa dos direitos humanos. Acredita ser possível avançar neste ano de 2018?

Osmar Carvalho. Não somente acredito, como também entendo ser de extrema necessidade avançarmos no alcance desse público evangélico que ainda vê o movimento progressista como uma representação do mal, e a direita do bem. Temos dificuldades em manter um diálogo civilizado e honesto com o público evangélico mais conservador, porque seus líderes incutiram em suas mentes que ser progressista é coisa do diabo e ser de direita é de Deus. É um trabalho árduo, sentimos isso no dia-a-dia em nossa atuação nas redes sociais. Temos trabalhado o diálogo de forma indireta, através de artigos e entrevistas, mostrando que não somos esse mal que construíram. Estamos no mesmo barco e temos o mesmo objetivo, que é fazer o bem aos mais necessitados, e pregar o Evangelho.

O artigo em comemoração ao primeiro ano do AP celebra a possibilidade de avançarmos entre os evangélicos de modo geral, mostrando o crescimento da página em relação a nossa expectativa. Tivemos uma grande surpresa ao constatar o grande número de evangélicos progressistas. Recebemos inúmeras mensagens inbox, onde tiramos dúvidas e explicamos nossas ideias. Outra coisa: recebemos muitas mensagens de agradecimento por parte dos evangélicos progressistas, que tiveram coragem de manifestar sua ideologia após encontrar a página, e de outros que achavam estar sozinhos e se sentiram acolhidos. Desde que foi criado, o AP tem experimentado um grande e amplo crescimento.

Johnny Bernardo. Desde a publicação do primeiro editorial, em janeiro de 2017, o Ativismo Protestante vem pautando temas que são foco de intensas discussões. Foram foco de análise temas como defesa do Estado laico, casamento gay, porte de armas, racismo, desigualdade, casos de censura e aborto. Com relação ao editorial “É possível ser cristão e a favor do aborto” (3/12), você menciona o caso da jovem Rebeca, que teve seu pedido de autorização de aborto negado pelo STF e da sua dificuldade, como cristão, de concordância com a ação movida pelo PSOL. Pode comentar a respeito?

Osmar Carvalho. Atualmente nossa legislação prevê o direito de abortar em casos de estupro, de anencefalia e de risco de vida para mãe. O caso da jovem Rebeca rompe com essas condições específicas, uma vez que ela reivindica o direito de abortar uma gestação sadia, fruto de uma relação sexual consensual. É uma liberdade extrema, com a qual nem os países mais adeptos do libertarismo estão 100% de acordo. Naturalmente, um rompimento brusco desse com o que já está estabelecido e tido como aceitável meche com a nossa estrutura social, pessoal e espiritual.

Publicamos o editorial com o objetivo de oferecermos uma resposta, ou apontarmos um caminho para o entendimento de um tema que creio ser do interesse de muitas pessoas, que as afeta diretamente.. Contudo, o mais importante foi deixar claro que esse é um conflito moral e religioso, ou seja, nada que impeça a liberação legal do aborto.

O artigo induz nesse sentido, de que somos favoráveis à liberação do aborto em qualquer situação, mesmo que isso contrarie nossas questões morais e religiosas, mesmo que nós o condenemos moral e religiosamente. Nesse caso, acredito ser o mais correto deixar a mulher decidir.

Johnny Bernardo. O mais recente editorial do Ativismo Protestante oferece aos leitores um manual prático de sobrevivência para páginas progressistas. Nele o AP menciona os constantes ataques de que é alvo por parte de seguidores de Bolsonaro e cristãos radicais, e de censuras impostas por meio de denúncias. A elaboração deste manual certamente será de grande valia para páginas que também são constantemente vítimas de ataques de radicais. Ao mesmo tempo, o referido manual poderia abrir caminho para uma maior aproximação entre páginas e movimentos progressistas com vistas a criarem uma frente de atuação e defesa. É este um dos objetivos do projeto editorial do AP, de aglutinação?

Osmar Carvalho. Sim. Ao tratarmos de pautas progressistas variáveis, estamos dizendo: “olha, a gente quer apoiar o movimento negro, o feminismo e a teologia progressista, ao mesmo tempo em que queremos ser apoiados por vocês também”. Buscamos parcerias, porém ainda há resistência por parte dos próprios grupos evangélicos progressistas em estabelecer essa união.

Recentemente tentamos uma colaboração por parte de um coletivo de evangélicas feministas, para publicar alguns artigos seus, mas na reta final houve resistência por parte delas e a tentativa não prosperou. Nossa coluna Feminismo segue sem nenhum artigo, porque não é fácil encontrar evangélicas feministas que escrevam sobre Feminismo. Não obstante, temos estabelecido outras parcerias reconfortantes.


Sobre o autor dessa entrevista

Johnny Bernardo é Cientista Social e colaborador no blog Somos Progressitas.

Acompanhe nossas Entrevistas!

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