A crucificação dos corpos: A Páscoa dos excluídos


*Por Marcos Aurélio


“A Páscoa é o povo em saída, é a celebração da luta de um povo que se levanta com resistência para lutar por sua liberdade, pelo direito à terra, pela comunhão, de um ajuntamento para partilha do pão e defesa da vida de todos.”

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Entrada da Catedral da Sé em São Paulo. Foto: Ativismo Protestante.

Urge repensar nosso velho conceito do que é a Páscoa, do seu significado bíblico-histórico, a partir de uma nova lente. Certamente transcende um entendimento reducionista-dicotômico de que a morte e a ressurreição de Jesus se limitou a remissão do pecado pessoal sem levar em conta sua caminhada de libertação e amor entre os pobres e excluídos do seu tempo. Em meio a um contexto sócio-político, o homem da Galileia foi vítima do sistema opressor de seu tempo. Jesus foi morto por se opor ao templo e tudo que ele representava; foi julgado por tribunais religiosos e políticos. Fez oposição ao estado romano, operador da opressão, foi vítima dos mecanismos perversos reservados aos inimigos políticos dos romanos e dos religiosos fundamentalistas, o que lhe custou prisão, tortura e morte de cruz.

A páscoa, no livro do Êxodo, nos conta sobre a libertação do povo de Deus, que por quatrocentos anos esteve sob opressão no Egito – um período marcado pela escravidão, sofrimento e dor (Êxodo 12). A Páscoa é o povo em saída, é a celebração da luta de um povo que se levanta com resistência para lutar por sua liberdade, pelo direito à terra, pela comunhão, de um ajuntamento para partilha do pão e defesa da vida de todos. O Deus Javé desce para caminhar com o seu povo, que em meio a dor se reveste de amor e esperança para prosseguir na caminhada libertária.

Em uma ligação profunda e concreta com a crucificação e ressurreição do cristo, há muitos crucificados pelo mundo hoje. Os que são crucificados todos os dias, vítimas da exclusão e opressão de um sistema excludente. Corpos vitimados por um sistema injusto, corpos crucificados sob o silêncio das “pessoas de bem”. Um silêncio que legitima a morte de negros, de LGBTs, de crianças pobres, de favelados, de moradores das periferias, de mulheres, de líderes que lutam pela terra e moradia, de indígenas e de imigrantes. Milhões de crucificados sob aplausos de uma classe média alienada. O sangue das vítimas clama nas calçadas, nas vielas, nas partes baixas, em uma resposta ao silêncio dos justiceiros.

Páscoa é amor libertário, é vida em abundância, é comunhão e vida comunitária, é paixão. Todos somos chamados à fraternidade em uma demonstração concreta de amor pelos excluídos, não de palavras em meio a discursos vazios, mas no fazer. A ressurreição dos corpos manchados de sangue emerge de maneira forte e simbólica nas falas e ações daqueles que decidiram lutar pela libertação dos pobres, ressurreição que deve se concretizar na vida, no dia a dia de cada um de nós.


Sobre o autor desse artigo

*Marcos Aurélio dos Santos é Teólogo, facilitador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito (FEED) no Rio Grande do Norte e Coordenador do Espaço Comunitário Pé no Chão. Escreve como colunista do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI) e do Ativismo Protestante.

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