Editorial | Reputados como ovelhas para o matadouro


“Os coronéis da fé e vendilhões do templo, Crivella, Malafaia e companhia, matariam Jesus hoje. Eles não controlam a fé da irmã Dorothy, de Francisco de Assis, de Chico Mendes, de Teresa de Ávila, de Martir Luther King, de Marielle Franco, de João Batista, de Jesus de Nazaré. Eles não controlam  esse povo preto, esse povo pobre, que usa o nome de Jesus para promover o amor e a graça.”

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Pastor Henrique Vieira. Reprodução editada.

O caso da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e do seu motorista, Anderson Gomes, assassinados a tiros no Rio de Janeiro no dia 14 de março, trouxe uma figura pouco conhecida do mundo protestante à luz de todos, trata-se do pastor Henrique Vieira – da Igreja Batista do Caminho, também do Rio. Durante um ato inter-religioso em memória das vítimas, o discurso inflamado do pastor Vieira levou a multidão que acompanhava o evento a um êxtase espiritual e militante, uma mistura de dor, esperança e sede de justiça – diante do luto que comoveu o país e o mundo. A multidão o reputou como um arauto de Deus, mas seu discurso o reputou como uma ovelha para o matadouro, tanto para Cristo, quanto para os homens maus – disso não podemos duvidar.

O discurso de Vieira (assista abaixo) é uma declaração direta contra as várias faces de um submundo intolerante e mau, que mantém ou colabora, direita ou indiretamente, com um governo paralelo extremista no Rio. Extremismo esse que envolve envolve criminosos que criam e executam suas próprias leis, políticos corrompidos moralmente e fiéis doutrinados por ensinamentos bíblicos deturpados. É como se reputar apto para o martírio iminente.

Que criminosos e maus políticos são capazes de todo tipo de maldade já sabemos de há muito tempo, mas a violência praticada em nome de uma pseudo fé cristã é um fenômeno recente, porém não menos cruel e perigoso. Vimos do que mentes criminosas cauterizadas pela religiosidade fanática são capazes: até mesmo de matar. Vieira sabe disso, não por acaso ele lista nomes de vários líderes, religiosos ou não, também executados por sua luta por justiça. Sua admoestação é consciente, sóbria e contundente.

“A cruz não foi capaz de silenciar a voz de Jesus, e aqueles tiros não vão silenciar a voz de Marielle. Eu quero afirmar, com todo amor e respeito, que os coronéis da fé e vendilhões do templo, Crivella, Malafaia e companhia, matariam Jesus hoje. Eles não controlam a fé da irmã Dorothy, de Francisco de Assis, de Chico Mendes, de Teresa de Ávila, de Martin Luther King, de Marielle Franco, de João Batista, de Jesus de Nazaré. Eles não controlam  esse povo preto, esse povo pobre, que usa o nome de Jesus para promover o amor e a graça.”

Por que Vieira corre perigo? Cabem aqui algumas conjecturas.

Primeira: Por se expor como de esquerda, ele só deve esperar o pior dos evangélicos;

Segunda: Ele deve se preparar, pois o apedrejamento com certeza virá, não tardará e será impiedoso;

Terceira: Há um agravante, ele virou um tipo de consultor da Globo, um jogo duplamente perigoso, que provoca dois extremos ao mesmo tempo: da esquerda e da direita; além de provocar poderosos;

Quarta: Ele corre um sério, real e alto risco ainda mais por estar no Rio de Janeiro, onde já vimos do que extremistas religiosos, criminosos e políticos perversos são capazes para silenciar aqueles que os atacam;

Quinta: Ao contrário do que se pensa, Deus não costuma livrar seus mártires da hora final.

A última conjectura requer uma análise mais fundamentada, pois parece contrariar o senso comum, tanto de bandidos, quanto de religiosos, já que ambos sempre recorrem a Deus para livrá-los na hora da morte.

A iminência desse momento parece um prenúncio de que cumprimos nossa obra; um tipo de apogeu que Paulo vivenciou: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”. Ele mesmo prenunciou sua morte.

E qual certeza daríamos àquele que nos pedisse uma? Simples: crentes incompletos, imperfeitos, corrompidos, não podem falar da forma, sem medo, e com a vivacidade com que o pastor falou. É preciso um grau elevado de espiritualidade, autoridade divina, tempo de intimidade com Cristo e a certeza de que Ele existe. Tal postura é a maturidade quase plena do emissário; é quando nos deixamos levar para o matadouro voluntariamente, por amor a Deus, a sua palavra e ao próximo. É quando lançamos fora todo o medo. Já alcançamos o verdadeiro amor.

Jesus disse que nada é maior do que isso, do que esse amor, dar a vida por alguém: não há estágio mais avançado a se alcançar. Como Deus poderia livrar da honraria máxima que Ele mesmo determinou para os seus arautos? É a completude do nosso tempo como servos de Cristo. Em nosso coração, temos a certeza desse tempo; como Estevão teve ao ser apedrejado; como Luther King, Dorothy Stang, o apóstolo Paulo e tantos outros irmãos tiveram.

Reputar é ter em consideração, dar a alguém um bom nome, tornar muito conhecido por ter um bom conceito. Daí surgem os mártires. Ao contrário dos “vendilhões da fé”, quando Deus nos reputa como ovelhas para o matadouro, ou seja, quando alcançamos a graça e bem aventurança de sermos dignos de morrer pelo Evangelho dos oprimidos e das minorias, viver ou morrer não é uma opção.

Como disse o apóstolo Paulo: “Por amor de ti, somos entregues à morte todos os dias”.

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