Editorial | Somente pessoas inescrupulosas e cruéis seriam a favor da “ideologia de Gênesis”


A ideologia de Gênesis” pode ser considerada um marco no processo social de coisificação, submissão e consequente desvalorização da mulher e de seu corpo.”

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São Paulo – 21ª Parada do Orgulho LGBT, com o tema Independente de nossas crenças, nenhuma religião é lei. Todas e todos por um Estado laico, na Avenida Paulista (Rovena Rosa/Agência Brasil). Imagem editada

A nova mentira cruel dos religiosos fundamentalistas e dos conservadores inescrupulosos alude à criação bíblica da humanidade, quando Deus teria trazido à existência o homem e a mulher, chamados por Ele Adão e Eva, depois que comeram o fruto proibido da árvore do conhecimento. Trata-se da “ideologia de Gênesis”.

O termo é, na verdade, uma farsa para contrapor outra farsa, também inventada por conservadores e religiosos fundamentalistas: a “ideologia de gênero”. É uma espécie de contraponto à ideia de que a defensores da “ideologia de gênero” querem doutrinar crianças e jovens, ensinando a eles que ninguém nasce menino ou menina, homem ou mulher; cada um poderia escolher o que quer ser.

Porém, a “ideologia de Gênesis” pode ser considerada um marco no processo social de coisificação, submissão e consequente desvalorização da mulher e de seu corpo.

“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a dor da tua concepção; em dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.

E ao homem disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei dizendo: Não comerás dela; maldita é a terra por tua causa; em fadiga comerás dela todos os dias da tua vida.

Ela te produzirá espinhos e abrolhos; e comerás das ervas do campo.

Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó, e ao pó tornarás.”

(Gênesis 3: 16-19)

Como Adão detinha agora o conhecimento, Deus lhe dá a capacidade de criação das coisas. Embora tivesse que se esforçar para tal, seu castigo não foi dos piores. Já Eva, com a mesma capacidade criadora, foi relegada à eterna submissão de seu marido, além de ter que sofrer as dores de parto.

Seu castigo seria legado a toda mulher, pois parece que levaram, propositalmente, ao pé da letra o “e disse Deus à mulher”. Estava justificada toda forma de opressão contra as mulheres. Em algumas sociedades, em determinadas épocas, a mulher foi considerada um ser sem alma.

Talvez a face mais cruel dessa herança maldita tenha se dado após a formação da sociedade privada, justamente com o advento da ideia de herança. Como ter certeza de que o filho gerado na relação era mesmo do marido? Como não havia exames que pudessem comprovar a paternidade – o que colocaria em dúvida o direito de herdar -, outros mecanismos e formas de controle do corpo da mulher foram criados, como a necessidade de casar virgem. No caso de a mulher não ser mais “pura”, poderia ser devolvida à família por desonra e infâmia, e o marido era ressarcido financeiramente.

Esse controle social ainda age violentamente sobre a liberdade da mulher e de seu corpo, nos dias de hoje. Haja vista que não há o mesmo rigor moral no julgamento da sexualidade masculina, quando comparado a da feminina. O homem ainda é admirado por ter várias parceiras sexuais, enquanto a mulher é subjugada.

Ao contrário do que dizem os religiosos e conservadores, a finalidade de levar a discussão sobre gênero às escolas é refletir – com crianças, adolescentes e jovens – sobre questões relacionadas a diferenças sexuais, criando neles uma consciência que os torne cidadãos esclarecidos sobre a importância de respeito ao próximo, assim como a tolerância à diversidade.

Esse esclarecimento, ainda na infância e na juventude, ajudaria a evitar que tivéssemos casos de bullying com jovens que se descobrissem e se assumissem homossexuais na escola, por exemplo. Talvez nossas crianças compreendessem que menino gostar de rosa e menina de futebol são coisas naturais, não motivos de piadinhas maldosas. Além disso, o auto-conhecimento de que uma sexualidade diferente não é um desvio moral, algo a ser suprimido dentro do próprio corpo, livraria muitos jovens da dor e do medo de ser rejeitado, tanto pela família quanto pela sociedade.

Teríamos menos cidadãos preconceituosos, homofóbicos e machistas.

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