A concentração de riquezas é abominação aos olhos de Deus


“Como devemos nos posicionar diante de uma sociedade onde os 5% mais ricos detém a mesma riqueza que os outros 95% da população?”

Reprodução da internet, editada.

“Agora, ricos, escutai: chorai e gemei por causa das desgraças que virão sobre vós. Vossas riquezas estão podres e as roupas estão sendo devoradas pelas traças. O ouro e a prata enferrujaram, e a ferrugem dará testemunho contra vós e devorará vossas carnes como fogo. Ajuntastes tesouros para os últimos dias. O salário dos trabalhadores, que colheram as vossas plantações foi retido por vós! Ele grita, e os gritos dos trabalhadores chegaram até os ouvidos do Senhor todo-poderoso. Vivestes no luxo sobre a terra, entregues a devassidão, e engordastes o coração para o dia da matança. Condenastes e assassinastes o justo, e ele não vos resistiu”.
(Tg 5,1-6)

Este trecho da carta de Tiago é a mais severa condenação dos ricos encontrada no Novo Testamento. Na carta de Tiago, os ricos são considerados ímpios, isto é, praticantes de injustiça, em contraste com os pobres, que temem a Deus. Porém, essa não é uma simples justaposição entre duas classes. A carta mostra por que há pobres, e quem é a causa da miséria dessa gente.

A carta de Tiago tem como objetivo, não só denunciar as injustiças, mas mostrar a origem da pobreza e miséria de tantos. E a raiz dessa situação é a ganância dos ricos, pertencentes ou não a comunidade cristã.

Por que a carta de Tiago condena de maneira tão severa os ricos? Em primeiro, porque o acúmulo de riquezas gera a dependência e submissão de seres humanos. Os ricos condenados pela carta são os grandes latifundiários que que enriquecem à custa da retenção dos salários dos trabalhadores (v.4). Sua riqueza é iníqua e abominável aos olhos do Senhor da vida, porque é feita com o suor dos pobres explorados e indefesos. Ela esconde grave injustiça. Sequer levam em consideração as leis e normas que protegiam os assalariados, na época (cf. Dt 24,14; Jr 22,13).

Pior: são assassinos, corruptos, burlam a lei, compram os juízes para que estes protejam sua causa, levando os assalariados à morte sem apelação e sem defesa (v.6). São insensatos porque desfrutam das riquezas injustas; e ,quando o dia do Senhor se aproxima (v.5), são condenados, porque confiaram nas riquezas como segurança absoluta para suas vidas.

E Deus? Não toma providências? De que lado se posiciona? A carta foi escrita crendo que o dia do Senhor estaria chegando: quando a opressão chega ao máximo, Deus intervém para fazer justiça. Como o sangue derramado de Abel (cf. Gn 4,10), o salário dos trabalhadores clama ao céu, provocando a intervenção do Senhor da vida: ele vai intervir e tomar posição.

Os grandes latifundiários gananciosos (produtores da pobreza, miséria, injustiça, desigualdade, morte) são comparados ao boi gordo, pronto para a matança (v.3). Sua riqueza não os o salvará, pois a traça – inseto bem pequeno – é capaz de roer suas roupas finas, enquanto a ferrugem consome suas riquezas (vv. 2-3). Deus não é isento, ele escolhe um lado; ele intervém porque é o Deus dos pobres e oprimidos, que clamam, sem ter quem os defenda. E quem oprimiu (e oprime) os aliados do Senhor é inimigo de Deus, com quem deverão acertar contas.

Dentro do contexto no qual foi escrita, a carta previa uma intervenção iminente de Deus. Cabe perguntar: será que Tiago se enganou? Se nós aguardarmos passivamente a intervenção divina – a vinda do Senhor -, milhares de seres humanos continuarão morrendo por causa da ganância dos poderosos, vítimas da fome, dos julgamentos injustos, de perseguições, execuções. Os poderosos conhecem não somente como burlar as leis, mas até forçam e pressionam a aprovação de leis que defendam seus interesses, como temos visto: reforma trabalhista, reforma do ensino médio, reforma da previdência e etc.

Diante da realidade que vivemos e à luz da carta de Tiago, como devemos nos posicionar diante de uma sociedade onde os 5% mais ricos detém a mesma riqueza que os outros 95% da população? À base de denúncias somente? Não será, talvez, mediante a mobilização reivindicação, organização dos pobres e oprimidos, sem-terra, sem-teto, sem saúde, sem educação, sem salário condizente? Dentro das igrejas e comunidades cristãs, o que fazer para não empurrar pra debaixo do tapete a maior condenação que o Novo Testamento faz do latifúndio?

O teólogo e pastor luterano, que se opôs ao nazismo (em sua época) e por isso foi morto, Dietrich Bonhoeffer, disse: “Creio que o Deus de tudo, mesmo do mal, pode e quer fazer surgir o que é bom. Para isso Ele precisa de homens que façam o melhor uso de todas as coisas”. É um convite é um chamado feito a todo cristão: ajudar na construção e manutenção de uma sociedade mais fraterna, igualitária, sem classes, sem opressão, a efetivar o Reino de Deus na Terra.


Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura indígena, LGBT; apoia e coordena grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre, onde serve como missionário.

Acompanhe nossa Coluna Teologia

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s