Morte e vida mariella


“Somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte

Marielle Franco. Reprodução editada.

Em se tratando do ocorrido na última quinta-feira à noite (14) – no centro do Rio -, quando a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e o seu motorista Anderson Gomes foram mortos, após saírem de um evento de cunho social na Lapa, percebemos não apenas um, mas vários tipos de ódio presentes na ação. Esses sentimentos torpes vão além da disputa política entre esquerda e direita, pois manda o seu recado aqueles que lutam por Direitos Humanos, no país que mais mata esses ativistas na América Latina.

‘Cria’ da comunidade da Maré, Marielle foi mãe aos 17 anos, quando ainda fazia um cursinho pré-vestibular direcionado aos adolescentes e jovens da comunidade. Foi nessa época que perdeu uma amiga vítima de bala perdida, durante um tiroteio entre policiais e traficantes. Marielle também precisou deixar aquele curso pré-vestibular para se dedicar aos cuidados com sua filha, e pouco tempo depois conseguiu ingressar no curso de Ciências Sociais da PUC-Rio. Só pôde ir adiante porque sua filha ficava em tempo integral em uma creche mantida pela Prefeitura, direito esse que mais tarde ela defenderia no legislativo municipal, para que outras mães pudessem tê-lo também.

Isso foi apenas o início de sua caminhada acadêmica, que contava também com o título de mestra pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e de doutora em Ciências Sociais pela PUC-Rio. Passos largos para uma mulher negra brasileira periférica, mas conquistados com muita luta.

Ainda sobre a sua militância, já nos anos 2000 atuava dentro da comunidade, onde começou a ganhar notoriedade por seus serviços prestados. Também trabalhou em ONGs e chegou a coordenar a comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa Do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), ao lado do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ).

Em um vídeo produzindo durante a campanha para a Câmara Municipal – em 2016 -, que desde ontem voltou à tona nas redes sociais, Marielle defende a sua futura legislatura baseada numa tríade de defesa de gênero, raça e cidade. (Assista ao vídeo abaixo)

Mas toda essa atuação incomodou aqueles que são contrários à vida e ao progresso de todos que Mariela representava. E a resposta a tudo isso foi a mais cruel possível: a execução sumária de Marielle.

Afirmações diante de casos como esses são perigosas, mas não há como não pensar que o alvo era somente Marielle, e que Anderson, o motorista, foi morto apenas por queima de arquivo.

Todas as denúncias feitas, principalmente as últimas – que dão conta das ações da Polícia Militar do Rio (PMERJ) dentro das comunidades do Acari e Jacarezinho, e toda a oposição de Marielle à intervenção militar que o Rio de Janeiro tem passado nos últimos dias – foram o estopim para que isso acontecesse. Mas não foi apenas isso que motivou a sua morte. Os vários tipos de ódio contra Marielle eram também pelo fato de ser mulher, negra, feminista, defensora dos Direitos Humanos e ter vindo da favela. Todas as brechas que o sistema sempre quer, eles tiveram.

Nas inúmeras tentativas de calar aqueles que denunciam a podridão do sistema, Marcelo Freixo, já citado nesse artigo e José Padilha, diretor do filme ‘Tropa de elite’, entre outros homens, já foram ameaçados de morte. Poderiam ter sido assassinados? Sim. Basta o sistema querer que infelizmente eles conseguem, mesmo que os que foram ameaçados andem com segurança particular, como é o caso do Freixo – que conta com policiais civis fazendo sua escolta.

O defensor público do Estado de Alagoas, Othoniel Pinheiro Neto, através de uma rede social, chamou a atenção para o retrocesso que esse caso expõe, quando incide de forma direta contra o extermínio da população da periferia, contra o combate ao racismo e à misoginia, além de ser um atentado contra a democracia. Pinheiro diz ainda que acredita que o assassinato de Marielle tenha sido também recado a Freixo, visto que ambos, além de próximos, lutam contra as milícias dentro da PMERJ.

Mas a pergunta que continua nos intrigando é por que em tão pouco tempo de visibilidade, pela sua militância política, Marielle foi assassinada? Havia alguma informação sobre ameaças que ela estava sofrendo? Não quero aqui afirmar que homens militantes não são assassinados, mas a indagação que faço é pela rapidez como isso tudo aconteceu. Ao que parece, é mais fácil quando se trata de uma mulher que atrapalha o caminho de homens (em sua maioria brancos) e poderosos que lucram com o poder. Estes têm em suas mãos a força capaz de calar vozes como a de Mariele, assim como calaram a voz da juíza Patrícia Acioli. Mas não conseguirão calar a voz de um povo todo.

Não vão porque para uma Marielle morta, existem milhares e milhares de mulheres negras, brancas, feministas, intelectuais, lésbicas, trans, faveladas, etc., que sempre irão ecoar a voz de indignação e da revolta por este e por outros casos. Juntos a elas, muitos homens negros, brancos, gays, intelectuais, trans, favelados, etc. Juntos e juntas lutando por justiça.

Para esse momento, faz-se necessário algo além de notas e textos. Certo da importância dos mesmos, como forma de homenagens e denúncias, o que precisamos de fato é sair às ruas e transformar o luto em luta, pelo fim desse sistema que tenta calar todas as vozes dissoantes. Morrer de emboscada é um risco que quem se arrisca corre, como escreveu o poeta João Cabral de Melo Neto, no clássico ‘Morte e vida Severina’:

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).


Sobre o autor desse artigo:

Alain Oliveira é casado com Wanessa; estudante de geografia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL); estudante de teologia no Seminário Teológico Batista de Alagoas (Setbal); membro da Primeira Igreja Batista em Tabuleiro (Maceió/AL) e seminarista pela mesma igreja. Trabalhou durante três anos com população de rua, conhece bem as injustiças cometidas com essas pessoas.

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