Jonas e a lógica do fundamentalismo religioso


“Jonas se irrita com a misericórdia de Deus, pois sabe (ou descobre) que Deus não é um juiz que exige castigo igual ao crime (lei de talião).”

Os deputados Marco Feliciano e Jair Bolsonaro já provocaram muita revolta por discursos considerados intolerantes. Imagem reprodução editada.

“A palavra do Senhor foi dirigida a Jonas pela segunda vez: ‘Levanta-te, vai a Nínive, a grande cidade, e anuncia-lhe a mensagem que eu te disser’. Jonas levantou-se e foi a Nínive, conforme a palavra do Senhor. Nínive era uma cidade muito grande: eram necessários três dias para percorrê-la. Jonas entrou na cidade e a percorreu durante um dia. Pregou, então, dizendo: ‘Ainda quarenta dias e Nínive será destruída’. Os moradores de Nínive creram em Deus, proclamaram um jejum e vestiram-se de roupas de saco, desde o maior até o menor. Deus viu suas obras, como eles se converteram de seu caminho perverso, e se arrependeu do mal que lhes ameaçara fazer, e não o fez. Mas isto trouxe grande desgosto a Jonas, e ele ficou indignado”.
(Jn 3,1-5.10-4,1)

O livro de Jonas é uma espécie de novela escrita na Palestina, por volta do século V a.C., quando os judeus ainda estavam se recuperando do exílio babilônico, uma séria ameaça a sua existência. Nessa época, o povo começou a assumir um nacionalismo radical. Com isso, cresceram o ódio e o desprezo a outras nações. O pior de tudo isso, o mais trágico, é que Deus acabou sendo enquadrado nesse esquema, como se ele apoiasse e sustentasse esse nacionalismo exclusivista (muito semelhante ao que muitos cristãos fundamentalistas fazem hoje).

O autor do livro de Jonas monta sua história em oposição a essa atitude exclusivista, arrebentando com esse esquema fechado, mostrando que Deus se preocupa também com o destino de outras nações e de outros povos. Nínive, a cidade para qual Jonas foi enviado, representa o que existe de mais detestável e odioso para o judeu daquela época, pois é a capital da Assíria, símbolo da nação-tipo do poder opressor. É por isso que Jonas procura fugir de Deus, pois ele não admite a possibilidade de que Nínive, símbolo do imperialismo, receba a atenção do Senhor (cf. 1,3a). Se os judeus odeiam essa cidade, por que Deus deveria se interessar por ela?

Os versículos acima vêm depois do famoso episódio do livrinho, em que Jonas é vomitado na praia pelo peixe (o peixe não consegue digerir tamanha mesquinhez!). Dessa vez, o “profeta” obedece à ordem de Deus e vai proclamar a mensagem de Deus à cidade de Nínive. A descrição de Nínive como uma cidade excessivamente grande, sendo necessário três dias para percorrê-la, exemplifica uma técnica fundamental no livro todo – o exagero. É aí que Jonas anuncia: “Ainda quarenta dias e Nínive será destruída” (v.4). Porém, bastou apenas um terço do tempo, um dia de anúncio, para que a cidade inteira se convertesse, proclamando o jejum e vestindo roupas de penitência, obtendo assim, o perdão de Deus. Essa é a primeira surpresa apresentada no livro. A segunda é esta: a cidade tinha o prazo de quarenta dias para se converter, a fim de não ser destruída. Mas já no primeiro dia de anúncio, todos se converteram a Deus.

O contraste que percorre todo o livrinho está na comparação entre a cidade pagã de Nínive e o povo de Deus: Israel sempre teve profetas e sacerdotes que sempre lhes apresentaram o projeto de Deus. Apesar disso, nunca se converteram. Ao passo que os ninivitas mudam rapidamente suas ações, após um dia de pregação de um profeta estrangeiro, e passam a confiar em Deus. Aqui reside mais uma ironia apresentada pelo autor do livrinho: os ninivitas crêem como Abraão acreditou (cf. Gn 15,6), e se convertem; ao passo que o povo de Deus jamais foi capaz de gesto semelhante. Eles são mais abertos ao projeto de Deus que os israelitas, mais solícitos, abertos, espontâneos e amigos de Deus que o povo resgatado pelo Senhor.

Jonas se irrita com a misericórdia de Deus, pois sabe (ou descobre) que Deus não é um juiz que exige castigo igual ao crime (lei de talião), mas que é um Deus misericordioso, que se arrepende de sua ira. Jonas também experimenta essa misericórdia (quase sem o perceber): poderia ser castigado por Deus porque fugiu, por sua profecia desleixada e desanimada, por sua falta de misericórdia. Porém, Deus lida com Jonas como se ele fosse uma criança, que não sabe sequer distinguir a mão direita da esquerda. Dá uma lição a Jonas: faz nascer para ele uma planta que lhe dá alegria e sombra. No dia seguinte, Deus deixa que um verme destrua a planta; isso irrita Jonas. Então Deus envia um vento oriente tão quente que Jonas deseja a morte. É o coração do capítulo: a misericórdia Divina não conhece fronteiras. Deus é misericordioso até mesmo com o profeta reclamão, fujão e sem misericórdia.

O livro termina com uma pergunta que desafia o público do tempo do autor e todos os seus leitores futuros. Deus pergunta: “E eu não deveria ter pena de Nínive?” (4,11a). Deus é livre? Ou deve agir, como Jonas pensa, segundo as estreitas limitações da justiça humana? É uma pergunta que é dirigida aos cristãos de hoje: Deus deve agir de acordo com a teologia (enlatada) de muitos cristãos fundamentalistas? Ou ele é transcendente a qualquer ideia ou formulação teológica que se possa fazer?

Como Jonas, existem hoje muitos cristãos que desconhecem a misericórdia de Deus. Para eles, Deus não pode e não deve amar quem é diferente deles. Deus só pode amar, abençoar, proteger quem frequenta suas igrejas, segue sua teologia, partilha de suas doutrinas, se comporta como eles, quem se veste como eles se vestem. Deus não ama os LGBTs; Deus não ama quem não frequenta as institucionais igrejas; Deus não ama quem tem uma experiência diferente da fé; Deus não ama quem curte uma cervejinha no fim de semana; Deus não ama quem usa brinco ou tatuagem; Deus não ama o ateu. Para eles, todos aqueles que forem diferentes, Deus não ama. Deus é o Deus somente deles, não pode haver outro. Conforme seu duro coração é o seu Deus. Como disse Feuerbach: a teologia deles é, na verdade, uma antropologia invertida; e são eles os criadores de Deus – criam Deus a sua imagem e semelhança; e usam Deus como um instrumento para constranger, humilhar, excluir todo aquele que é diferente. Como fez com Jonas, o Senhor da vida faz com que esses cristãos quebrem a cara, quando apresenta à eles o poder de sua infinita misericórdia e seu infinito amor.


Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura indígena, LGBT; apoia e coordena grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre, onde serve como missionário.

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