Alain Oliveira | Precisamos falar sobre racismo nas igrejas


“Não se pede que o negro seja melhor, mas que as oportunidades sejam iguais para todos.”

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Alain Oliveira. Imagem própria.

Esse artigo é endereçado aos que durante essa semana questionaram o artigo do nosso colunista Marcos Aurélio (Racismo e o silêncio das igrejas evangélicas) ou todos os outros textos e/ou imagens sobre a temática racial já postadas nessa página, tentando refutar tudo sob os mesmos argumentos de sempre, de que racismo não existe, que é tudo ‘mimimi’ e que somos todos e todas iguais.

Até acredito que somos iguais, e que em “Cristo não há judeus, nem gregos”, como muitos gostam de mencionar. Confesso até que se eu pudesse acrescentaria que não há negros, nem brancos, somos todos iguais. Mas iguais mesmos para Jesus de Nazaré, pois na prática vemos diferenças.

Mas antes de prosseguir e sabendo da nossa pobreza mediante as leituras, tomo a ousadia de indicar duas grandes obras literárias; para quem sabe após a leitura (espero que você leia) sua mente mude e você passe a enxergar que o racismo de fato existe e faz vítimas diariamente, sendo algumas fatais.

O primeiro dos livros, lançado no Brasil pela Editora Zahar conta a história daquele que se tornou o maior ícone do protestantismo na luta pela igualdade racial, o Pastor Batista Martin Luther King Jr. A obra intitulada “A Autobiografia de Martin Luther King” é fruto do trabalho de Clayborne Carson, historiador e Presidente do Instituto Martin Luther King Jr de Educação, que conseguiu através de diários, filmagens e diversos outros escritos, todos em primeira pessoa, mostrar ao leitor quem foi King e o que ele até hoje representa não só para os negros e negras norte-americanos, mas para todos negros e negras espelhados pelo mundo, sejam protestantes ou não.

A obra trás relatos importantes sobre as ações de King e aqueles que lutaram ao seu lado a favor dos direitos civis. Assim como relatos das prisões que ao longo dos anos King teve de enfrentar. Como bem sabemos, King tinha no pacifismo a sua arma.

Já a nossa segunda indicação vem do Brasil e tem por título “A religião mais negra do Brasil”, escrito por Marcos Davi de Oliveira e lançado pela Mundo Cristão. Na obra, Marcos provoca seus leitores sobre o grande número de negros e negras que compõe a igreja evangélica brasileira, em especial as de linhagem pentecostal, seguimento com o maior número adeptos dentro do evangelicalismo brasileiro. Marcos mostra ainda que, ao contrário do que se pensa, existem mais negros na igreja evangélica do que nas religiões de matriz africana, por exemplo. Um dado no mínimo curioso e que trás questionamentos quanto aos ataques que partem de evangélicos aos centros e terreiros de religiões de matrizes africanas, conforme o nosso colunista Marcos Aurélio tratou em seu artigo. Valem a pena as três leituras!

Recomendações feitas, vamos ao que nos motivou a escrever sobre esse assunto. É perceptível que o racismo está dentro das nossas igrejas. Certamente que de uma maneira velada, como costumamos falar, porém tão maléfico quanto se fosse explícito, como nos dias de King.

Conheço de perto cristãos e relatos sobre estes envolvendo racismo. Para me resguardar, prefiro evitar adentrar no assunto de forma direta. Mas reconheço que chegar às respostas sobre o que leva cristãos a agirem assim é algo complexo e de longa data, fruto de uma construção histórica e que não iremos conseguir abordar de forma abrangente aqui.

O que se pode trazer a reflexão é o fato do evangelicalismo brasileiro ter recebido grande influência norte-americana, que nos deixaram como herança o ideal do branco sendo a falta de pecado e o preto a cor do pecado (vide o famoso livro ‘Sem palavras’ – introduzido no Brasil pela APEC, organização missionária surgida nos EUA), além de um Jesus Branco e europeu, nos fazendo desejar ainda que de forma sutil o embranquecimento como o ideal para as nossas vidas.

Isso tudo pode não parecer estranho a você, ou quem sabe parecer exagero e até quem sabe ‘mimimi’, mas tudo isso perpetua imagens e trazem associações indevidas ao enegrecimento, consequentemente gerando o racismo.

O texto de Marcos Aurélio e os livros citados acima, embora escritos em épocas distintas, falam da mesma coisa e expõem essa parcela de membros racistas dentro das nossas Igrejas. Poucas são as comunidades que abordam o assunto de forma consciente; menor ainda o número de lideranças que enxergam a seriedade do tema.

Em nosso meio ainda faltam ações afirmativas que trabalhem a identidade negra do povo evangélico e lhes dê empoderamento, assim como faltam leituras Bíblicas aprofundadas sobre a presença do negro na Bíblia e a justiça contida no Evangelho. Tudo isso serviria para contribuir na luta contra o racismo, dentro e fora das nossas comunidades, mas não é o que tem acontecido.

Quem corrobora com tudo isso é Gil Santos, que em Maceió coordena a Pastoral da Negritude da Igreja Batista do Pinheiro, uma das poucas comunidades de fé no Brasil que discutem o tema.

Numa rápida conversa com Gil, falamos sobre esse ministério que há mais de 10 anos faz leituras a partir da presença do negro na Bíblia e da resistência desde os tempos de escravatura até os nossos dias, fazendo uma ligação Bíblia-vidas, em específico vidas negras.

Gil trás algumas provocações sobre a nossa sociedade racista, que influência seus atores, que estão dentro das nossas comunidades, a pensarem que não é necessário ter um ministério voltado à negritude, levando, assim, à resistência na abordagem da temática. Outro agravante é a falta de disposição das pessoas para discutirem o tema, além do preconceito que demoniza tudo o que está ligado ao afrocentrismo.

Por outro lado, Gil nos conta que há uma procura por parte de outras comunidades brasileiras que se interessam pela temática e desejam implantar um ministério semelhante. Isso pode ser o começo daquilo que almejamos: o dia em que de fato estaremos engajados nessa causa – como Igreja -, fazendo de fato a diferença na vida, por exemplo, do pequenino que tem vergonha da sua cor. Parafraseando Luther King, se isso afeta essa criança de forma direta, deve afetar a todos nós.

A barreira que continua se mostrando densa haverá de ser vencida. Quando? Não sei. Mas sei que a reparação histórica para com os negros, dentro e fora da igreja, deve acontecer. Não se pede que o negro seja melhor, mas que as oportunidades sejam iguais para todos.

Penso que enquanto não vencermos essas barreiras, artigos como o de Marcos Aurélio, o livro de Marcos Davi, a vida de Luther King e a ação daqueles e daquelas que hoje lutam dentro de uma igreja evangélica contra o racismo vão continuar sofrendo ataques, resta saber se você será o que ataca ou o que resiste.


Sobre o autor desse artigo:

Alain Oliveira é casado com Wanessa; estudante de geografia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL); estudante de teologia no Seminário Teológico Batista de Alagoas (Setbal); membro da Primeira Igreja Batista em Tabuleiro (Maceió/AL) e seminarista pela mesma igreja. Trabalhou durante três anos com população de rua, conhece bem as injustiças cometidas com essas pessoas.

Acompanhe nossa Coluna Negros!

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