Racismo e o silêncio das igrejas evangélicas

20/11/2017- Rio de Janeiro – Em comemoração ao Dia da Consciência Negra, feriado municipal e estadual. grupos fazem homenagens junto ao Monumento a Zumbi dos Palmares, na região central da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil, editada. Fotos Públicas.

Por que o racismo interessa à igreja evangélica brasileira? Basta olharmos para um pouco da nossa história. Isto diz respeito a nós! Aliás, com exortações ao retorno à profecia e ao arrependimento. O Jesus apresentado e pregado na história do contexto evangélico é branco, de vestes brancas, elitizado, de cabelos loiros e olhos azuis. Não é o Jesus dos pobres e negros da favela, marginalizados e excluídos aos quais ele fez opção. Está claro nos evangelhos. A história não nega os fatos. Então, é preciso perguntar: Quantos negros e negas ocupam lugares de lideranças nas grandes denominações tradicionais evangélicas? Quantas revistas de escola bíblica dominical e seminários de formação teológica abordaram a temática do racismo, em pelo menos uma de suas lições e disciplinas? Mas isto ainda não é o bastante para buscarmos o arrependimento.

Temos muito a dizer também sobre o racismo religioso. Nosso preconceito com as religiões de matriz africana, quer por arrogância, ignorância ou ódio, nos faz ser capazes de demonizar, excluir, julgar, usar de violência verbal; e, em alguns casos mais grosseiros, depredar, incendiar e destruir o lugar de adoração e culto dos nossos irmãos negros, que nesses casos caracteriza-se crime contra a liberdade religiosa. A dívida é alta. Lamentavelmente as últimas estatísticas mostram que nossa atitude diante dessa realidade não mudou. Poucos evangélicos querem falar sobre o tema, e, há um aumento significativo quanto à violência em centros e terreiros. Reafirmo que não há outro caminho se não for o arrependimento.

Sou de descendência afro-brasileira. Meus avós eram negros, meus tios, tias, primos e primas são negros. Até hoje vivem em uma pequena comunidade rural há mais de 60 anos; é uma grande família de pretos que vêm de uma descendência mista de índios e negros. Tenho orgulho deles pois suas histórias foram de luta e resistência, que atravessaram décadas. Sofreram a opressão dos coronéis, andavam léguas em busca de água, moravam em casas de taipa e viviam da pesca e do cultivo que plantavam no roçado. Participei muito disso na minha infância até a juventude. Essa experiência nos ajuda hoje a ter fé, coragem e esperança na luta pela libertação e caminhada comunitária.

Também, certo dia em um encontro ecumênico que participei, vi de perto a dor de um jovem vítima de preconceito racial-religioso. Suas lágrimas e sua fala denunciavam o quanto nós evangélicos precisamos pedir perdão pelo preconceito histórico e pela exclusão de séculos. Perdão por não acolher, por não abraçar, por não partilhar, por não ouvir, por não imitar o Jesus de Nazaré, por não ler a bíblia em conexão com a história do nosso povo negro, olhando para o seu sofrimento, resistência e luta pela liberdade.

É preciso retornar em amor. Arrependimento, confissão, respeito, libertação, esperança, conversão. Não podemos generalizar, tem muita gente evangélica na luta, partilhando de maneira significativa uma nova consciência com resistência e luta ao lado do povo preto; gente que acredita no Jesus dos pobres e negros, no Jesus da favela, no Jesus da Galileia. É tempo de profecia, de denunciar de forma subversiva. Urge trazer para a vida de cada um de nós a frase de nosso irmão Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.”


Sobre o autor desse artigo

Marcos Aurélio dos Santos é Teólogo, facilitador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito (FEED) no Rio Grande do Norte e Coordenador do Espaço Comunitário Pé no Chão. Escreve como colunista do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI) e do Ativismo Protestante.

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