Teologia | Fé, salvação e amor libertário

“De fato, não há Evangelho se a igreja não buscar um engajamento verdadeiro na opção pelos pobres.”

Manifestações no Largo da Batata, em SãoPaulo. Foto: Ativismo Protestante.

“Aos cristãos, sempre se ensinou que Jesus Cristo veio para nos salvar. Ele é o Salvador.

Mas qual é o conteúdo desta confissão de fé?

As palavras se repetem ao longo dos séculos, mas a carga semântica não foi sempre a mesma. Houve períodos longos nos quais em nome da salvação e de Jesus Salvador educaram-se os cristãos à passividade diante de uma ordem estabelecida, evidentemente injusta. Os cristãos ocultaram e ocultaram-se ao autêntico rosto de Deus, transformando-o em força conservadora de realidades sociais opressivas. E mais: do renascimento até os últimos anos, todos os movimentos progressistas e revolucionários tiveram a igreja como adversária, aliada com as forças de conservação, da reação e, às vezes, da repressão. O mundo moderno cresceu sem a igreja, apesar dela.”

(Trecho do capítulo 7 do livro, “Teologia para o homem crítico”do teólogo Italiano Guisppe Staccone, Editora Vozes. Primeira edição em 1986.)

O texto de Staccone nos faz repensar o conceito tradicional-fundamentalista quanto à salvação. Certamente este não deve se deter a uma visão dicotômica-alienante, restrita apenas à “salvação de almas”. Esta definição nos leva a um reducionismo. Faz-se necessário um olhar histórico-crítico para perceber a necessidade de uma nova leitura da bíblia e reflexão dessa confissão de fé, principalmente para desconstruir a dicotomia entre salvação eterna e compromisso com a justiça, na luta sócio-política por uma sociedade igualitária e fraterna.

De fato, não há Evangelho se a igreja não buscar um engajamento verdadeiro na opção pelos pobres. Isto porque lutar ao lado dos pobres foi uma ação que esteve presente na vida e ministério de Jesus de Nazaré, base da igreja, em cujo nome se proclama a salvação de tudo. O testemunho do novo testamento nos dá base robusta para esta afirmação, pois nele se encontram os feitos da vida de Jesus e seus discípulos, a parir da periferia de Jerusalém, a Galileia. Lucas por exemplo escreveu qual foi o proposito pelo qual Jesus foi ungido:

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos”. (Lucas 4:18)

Esta salvação implica seriamente em uma libertação do homem e do sistemas de opressão nas grandes estruturas de poder dominante, e não somente na salvação individual do homem e da mulher. Nossa fé deve enxergar não somente o céu, mas o aqui e agora a partir do contexto onde estamos com suas implicações econômicas, sociais, políticas e culturais. Em especial no contexto Latino-americano com sua desigualdade social gritante, que oprime os mais pobres. Como disse Jesus em Lucas – citado acima -, essa missão é libertadora, e tem como protagonista principal o oprimido.

Como bem afirma Staccone, a igreja latino-americana se escondeu de sua missão de ser sal e luz para o mundo, preferindo calar-se diante das injustiças praticadas em todas as suas formas. Contentou-se a prestar serviço não às pessoas, por meio de um engajamento político nas lutas libertárias de nosso povo Latino, mas ao fundamentalismo e conservadorismo dominante, aliando-se às propostas neoliberais de opressão que sem piedade tem buscado destruir a dignidade e esperança dos pobres.

Contudo há esperança. Nas últimas décadas vem se construindo novas teologias progressistas que tem levado a igreja a repensar a leitura da bíblia, na busca por respostas concretas para os desafios atuais, a partir do evangelho de Jesus de Nazaré. Teologias libertárias, da práxis, que caminham com o povo em busca de um novo horizonte para a fé cristã, em um mundo desigual e injusto. Um novo desafio para a igreja que por muitos anos se esqueceu dos pobres. Urge resgatar a profecia, unir-se em amor libertário pela causa do Evangelho.

“Se a Igreja se esquece da opção pelos pobres, esqueceu o Evangelho. ” (Dom Pedro Casaldália, Profeta Latino-Americano).


Sobre o autor desse artigo

Marcos Aurélio dos Santos é Teólogo, facilitador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito (FEED) no Rio Grande do Norte e Coordenador do Espaço Comunitário Pé no Chão. Escreve como colunista do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI) e do Ativismo Protestante.

Acompanhe nossa Coluna Teologia!

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s