Opinião | Meu martírio como cristão e gay


“Meu pai me agredia muito por motivos fúteis. Na época eu não entendia, mas hoje sei que ele usava a agressão para me “curar” da homossexualidade, ou por vergonha, ou coisa do tipo.”

Participantes da 19ª Parada do Orgulho LGBT na Avenida Paulista – SP. Foto: Leo Pinheiro / Fotos Públicas, editada.

Este é não só um relato, mas a experiência existencial e afetiva da descoberta de si e de sua sexualidade, vivida por um jovem muito sincero e que serve como um apoio para muitos outros jovens que estão nesse processo.

A DESCOBERTA

O momento da descoberta sempre é complicado. Uma pessoa não se torna gay quando se descobre, ela sempre foi gay, apenas descobriu isso, e geralmente acontece na adolescência, da mesma forma que ocorre com todo mundo.

Da mesma forma que um adolescente hétero deixa de ver as meninas apenas como “amiguinhas”, passa a vê-las como “mulheres” e começa a despertar um interesse sexual por elas, assim também acontece com um adolescente homossexual. A diferença está no seu desejo sexual, que é voltado para pessoas do mesmo gênero.

Comigo não foi diferente. Eu cresci numa Igreja Evangélica que pregava “coisas fortes de se dizer” sobre a homossexualidade. Eu era um adolescente muito ingênuo e, apesar de encontrar “tendências homossexuais” em mim aos 12 anos, a “ficha caiu” aos 17. Nesse meio tempo, meus pais tentavam de tudo para me “curar” (minha mãe até hoje tenta, mas de maneira pacífica). Recebi muitas orações, me obrigavam a ir à igreja quase todos os dias, meu pai me agredia muito por motivos fúteis. Na época eu não entendia, mas hoje sei que ele usava a agressão pra me “curar” da homossexualidade, ou por vergonha, ou coisa do tipo.

Minha mãe reunia muitas dirigentes de círculo de oração. Elas faziam um círculo e eu ficava no meio enquanto elas oravam, repreendiam e ordenavam em nome de Jesus para que aquele “mal” fosse embora. Nossa! Só Deus sabe o que se passava em minha cabeça, o quanto eu sofri, o quanto eu queria que todas aquelas formas de cura me “curassem”, o quanto eu pedia a Deus para que Ele nos ouvisse e me “libertasse” disso. Eu me odiava por ser assim, e percebia que, aos poucos, eu ia perdendo o amor dos meus pais por causa disso, e em minha cabeça, eu também estava perdendo o amor de Deus!

Depois de tanto sofrimento, tantas lágrimas e tantas tentativas de “cura” cheguei a uma conclusão: a única “cura” era o suicídio! Nossa! Você não tem idéia de quantas vezes eu pensei em suicídio, de quanto tempo isso me perseguiu e me atormentou. Mas depois eu pensei: “Dizem que vou para o inferno por ser gay. Mas também dizem que o suicídio é, da mesma forma, uma porta para o inferno. E agora? O que eu faço?”

Eu era muito ingênuo mesmo!

Depois de um certo tempo conheci a Igreja Inclusiva, a qual fez abrir completamente a minha mente em relação a tudo isso, e hoje o que posso dizer é que por mais que pareça difícil ser diferente dos demais, e por mais que isso te faça sofrer (porque você simplesmente quer ser “normal”), não há nada de errado com você em relação a sua condição sexual, pois, independentemente disso, Deus cobra de um gay a mesma coisa que Ele cobra de um hétero, o amor a Ele e ao próximo!

Você tem um Deus que te ama acima de tudo, e que está pronto a te ajudar a se enxergar da mesma forma que Ele te vê. Se você está no momento da DESCOBERTA e não sabe como agir, não permita que o diabo diga que você é uma aberração, que ninguém te ama, que a saída é o suicídio… Isso é MENTIRA! Deus é apaixonado por você do jeito que você é! Entregue-se a Ele, conheça-O, e se Ele quiser te “curar” Ele o fará (pois Ele tem poder para isso), mas se Ele não o fizer, é simplesmente porque não tem nada a ser “curado”. Deus não vê como o homem vê! Então se aceite, pois Ele te abraça do jeito que Ele te fez!

(May Lima – Membro da Nova Igreja Apostólica)

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