Opinião | Jesus, o homem ecumênico


Diálogo supõe um ato de profunda humildade: saber ouvir.

Imagem: Pef, em morguefile.com – editada.

Jesus era um homem de profundo diálogo. Fazia parte do seu modo de ser. Geralmente, nos encantamos pelo seu modo de falar, pelo seu modo de pensar. Porém, desconhecemos o Jesus que dialoga, que se abre para ouvir. Diálogo, inclusive, é um dos aspectos essenciais do cristianismo: diálogo com Deus, diálogo com as pessoas, diálogo com a comunidade, diálogo com as culturas.

Diálogo supõe um ato de profunda humildade: saber ouvir. E a humildade do ouvir consiste em admitir, não com a cabeça, mas com o coração que talvez o outro veja mundos que nós não vemos, saiba coisas que nós não sabemos, veja coisas que nós não vemos. Essa atitude implica reconhecer que somos meio cegos, que vemos pouco, vemos torto, vemos errado. E é muito difícil reconhecermos que o mundo não é como vemos, que as coisas não são exatamente como sabemos: que nós não somos o umbigo do mundo! Por isso, desatamos a falar, a falar muito.

Porém, os falantes são uns chatos. Falar é um ato masculino. Falar é falus: algo que sai, que se alonga e procura um orifício onde entrar, o ouvido. Enquanto ouvir é um ato feminino: o ouvido é um vazio que se permite ser penetrado. Não estou dizendo com isso que falar é coisa de homem e ouvir é coisa de mulher, não me entendam mal: todos somos masculinos e femininos ao mesmo tempo. O que quero dizer é que quem só fala, acaba, de certo modo, violentando o outro: empurra-lhe à força suas verdades, suas percepções, sua visão de mundo; sem abertura alguma pra ouvir. E isso não é diálogo.

Jesus tinha essa enorme capacidade de se abrir (se deixar penetrar) para que o outro falasse. A Samaritana, por exemplo, estranhou que ele, judeu, puxasse conversa com ela (cf. Jo 4,9). Os próprios discípulos estranharam: não era comum (cf. Jo 4,27). Mais que puxar conversa, ele permitiu que ela falasse. Dialogou com o centurião romano (cf. Mt 8,5-13), com a mulher cananéia (cf. Mt 15,22). Não importava quem fosse, Jesus estava sempre aberto ao diálogo. Dialogou, inclusive com Pilatos (cf. Lc 23,3). O tempo inteiro leva os discípulos ao diálogo e a reflexão. No episódio de Emaús (cf. Lc 24,13-35), quando os discípulos se encontram profundamente tristes, angustiados, recuando, sem saber que caminho tomar, ele os escuta, descobre sua realidade – se abre às suas dores e necessidades. Mostra, nesse episódio, que escutar é conhecer a realidade do outro, sentir de perto sua dor. E somente após ouvi-los é que à luz da Palavra, ele explica longamente os fatos, clareando a escuridão que estava no coração dos dois discípulos. Os evangelistas tomaram muito cuidado para apresentar um Jesus que ouvia, perguntava, deixava perguntar e respondia. Um Jesus que valorizava (e valoriza) o diálogo.

Hoje nossas igrejas estão longe de saber dialogar, estão longe da prática ecumênica proposta por Jesus. É bem comum entre os cristãos, pregadores ou fiéis, acharem que o seu grupo é o das ovelhas legítimas, e que as outras são sempre as “outras”. Essa arrogância, característica do igrejismo, dificulta o ecumenismo. Inclusive, em muitas igrejas existe uma rejeição direta ao ecumenismo, como se ele fosse prejudicial, ruim, nocivo para a vida daquela igreja. É a deturpação do evangelho, a busca de primeiros lugares, porém, maquiada com uma leitura teológica que justifique a veracidade do pedigree daquelas ovelhas que rejeitam o diálogo, porque se consideram as únicas, verdadeiras e puras – sendo as outras as mestiças, falsas, de sangue ruim.

Para muitos, só existe um evangelho – o que ele segue, o que o pastor ou padre dele prega, o que a teologia dele pinta como verdadeiro. Todo evangelho que não o dele é apenas uma caricatura, uma deturpação da verdade. E ele faz isso sem perceber que a própria visão dele pode ser uma deturpação e uma caricatura do evangelho; e que é necessário, para montar o quebra-cabeça da verdade, juntar todas as peças; ainda que diferentes, elas são complementares.

Do Cristo que se aproxima e dialoga fica também a lembrança do homem ecumênico; no mais puro dos ecumenismos: escuta, dialoga e oferece reflexão. Quem compreende que a sua verdade pode não ser a única verdade, mas um fragmento dela, e se abre para conhecer a verdade que outro tem a apresentar, é ecumênico. Quem até discorda da verdade do outro, mas sabe respeitá-la, é ecumênico.

No Evangelho de Marcos, num episódio em que João se vangloria de ter reprimido um homem que fazia o bem em nome de Jesus, mas não andava com eles, Jesus dá uma importante lição aos seus amigos: que não se deve impedir ninguém de fazer o bem em seu nome, pois todo aquele que pratica o bem em seu nome, já está em harmonia com Ele, já pertence a Ele (cf. Mc 9,38-40). Ele ensina a respeitar quem não faz parte do nosso grupo, da nossa igreja, da nossa religião. E ensina que essa pessoa tem tanto ou mais valor quanto nós temos aos olhos de Deus.

Hoje muitos se proclamam cristãos e proclamam o Cristo. A diferença é que Ele era quem era e nós estamos longe de ser quem deveríamos ser. Não temos humildade para reconhecer o valor do outro, não sabemos ouvir, não queremos ou temos medo de dialogar com que é diferente; não aceitamos o outro na sua condição de outro. Pensamos que amar significa, primeiramente, moldar o outro a nossa imagem e semelhança, ignorando que amar é aceitá-lo exatamente do jeito que ele é. Agindo assim nos fechamos e fechamos as portas do discipulado para quem nos procura.

Ecumenismo, meus irmãos, é caridade, é expressão da fé e materialização do discipulado. Quem está em Cristo sabe dialogar, se abrir para o novo, para o diferente, para aquele que por muitos não é considerado irmão ou irmã.


Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura indígena, LGBT; apoia e coordena grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre, onde serve como missionário.

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