O discipulado supera toda alienação e conduz o ser humano à libertação


“O homem possuído por um espírito impuro é o símbolo de todas as pessoas despersonalizadas, as quais foram impedidas de falar e agir como sujeitos de sua própria vida e história. Não são donas de si próprias: sua vida, seu “destino” dependem de “outros” que pensam, falam, agem por elas.”

São Paulo- SP, Brasil-  Fotos da Bíblia Sagrada.
São Paulo- SP, Brasil- Fotos da Bíblia Sagrada. Foto: Marcos Santos/ USP Imagens 21/03/2012, editada.

“Eles entraram em Cafarnaum e, logo no sábado, Jesus foi à sinagoga e se pôs a ensinar. Ficaram admirados de sua doutrina, pois ele os ensinava como quem possui autoridade e não como os escribas. Havia na sinagoga um homem com um espírito impuro, que gritou: ‘O que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Sei quem tu és: o Santo de Deus!’ Mas Jesus o intimou dizendo: ‘Cala-te e sai deste homem’. Agitando-o violentamente, o espírito impuro deu um grande grito e saiu. Ficaram todos tão espantados que perguntavam uns aos outros: ‘O que é isso? Uma doutrina nova, dada com autoridade! Ele manda até nos espíritos e eles lhe obedecem’. E sua fama se espalhou logo por toda parte, em todas as regiões da Galileia”.

(Mc 1, 21-28)

Marcos mantém a preocupação de mostrar quem é Jesus. Porém, não se preocupa com definições abstratas: ele apresenta Jesus, em seu evangelho, agindo. E é a partir de suas ações, dos seus gestos, que podemos saber quem ele é. O trecho acima é de grande importância, pois mostra o primeiro ato público de Jesus. Os vv. 21-34 apresentam um dia típico na atividade missionária de Jesus: o que nós encontramos nestes versículos é uma amostra daquilo que o Mestre de Nazaré faz constantemente.

Novamente, Marcos situa no tempo e no espaço o primeiro milagre: é um dia de sábado (tempo) e Jesus entra na sinagoga (espaço), acompanhado por aqueles quatro pescadores que acabara de chamar. Para as pessoas daquela época, o sábado era uma das instituições mais sagradas, dia de celebrar a vida e a comunhão com Deus. A sinagoga era o lugar de estudo e aprendizado. Mas o evangelista mostra que nem o sábado, nem a sinagoga, estavam favorecendo a vida. Jesus começa a ensinar (Marcos não revela o conteúdo do ensinamento de Jesus: é que neste evangelho ensino e prática são a mesma coisa). O povo fica admirado porque o seu ensinamento tem autoridade, diferente do ensino dos doutores da lei (escribas). Depois que o homem possuído por um espírito impuro e libertado, o povo se pergunta: “O que é isso? Um ensinamento novo, dado com autoridade?”

O ensinamento de Jesus, ou sua doutrina, é novo porque liberta ao mesmo tempo que ensina. E é aí que está a diferença entre o ensinamento de Jesus e o ensinamento dos doutores da Lei, cuja prática não conduz à liberdade. E isso tem muito a ver com a prática pastoral, muitas vezes muito cheia de teorias, abstrações, que não encaminham à prática libertadora. Quando entra na sinagoga, Jesus se volta para quem não recebia atenção (v.23). Ele faz com que aquele possuído por um espírito impuro se torne o centro das atenções, e sua libertação é, ao mesmo tempo, ensino e prática.

O homem possuído por um espírito impuro é o símbolo de todas as pessoas despersonalizadas, as quais foram impedidas de falar e agir como sujeitos de sua própria vida e história. Não são donas de si próprias: sua vida, seu “destino” dependem de “outros” que pensam, falam, agem por elas. E o que acontece nessas situações? Os espíritos maus que falam em nome do povo jamais admitirão a possibilidade do povo ser liberto. E é assim que o espírito mau reage diante de Jesus: “O que queres de nós, Jesus Nazareno?” (v. 24a). Notem um detalhe: o espírito impuro fala no plural (nós), sinal de que representa tudo aquilo que aliena e despersonaliza as pessoas. Nesse sentido, ele é o princípio de todas as alienações da sociedade: discursos políticos enganadores, planos econômicos que roubam o povo que pouco possui, entendimentos sociais que não ajudam o povo a sair da miséria, teologias abstratas que mantém o povo vítima da alienação e etc.

Marcos está preocupado em mostrar quem é Jesus. E, no episódio em questão, o espírito impuro reconhece Jesus como aquele que veio desfazer as raízes do mal e suas manifestações: “Vieste para nos destruir?” (v. 21a). Jesus é aquele que veio destruir todo mal que aliena e despersonaliza as pessoas, é o forte anunciado por João Batista (cf. 1,7). Há mais um detalhe nestes versículos: o espírito impuro já sabe quem é Jesus: “Sei quem tu és: o Santo de Deus!” (v.24b). O Mestre é o escolhido pelo Pai para libertar as pessoas. O espírito impuro sabe quem é Jesus, mas este lhe impõe silêncio: “Cala-te e sai deste homem” (v.25b). Jesus mostra que não basta abafar a alienação (isso seria pior), é preciso que de fato as pessoas sejam livres.

Ao tocar no tema do silêncio posto ao espírito impuro, abrimos uma importante porta no evangelho de Marcos. Jesus age assim porque é tarefa dos seus seguidores saber quem ele é. Pega muito mau o fato de Jesus ser anunciado por um espírito impuro (mau). Porém, ao longo desse evangelho os seguidores de Jesus sofrem de ignorância crônica (muitos passagens comprovam isso). E, por incrível que pareça, quem revela Jesus como o filho de Deus é um pagão aos pés da cruz (cf. Mc 15,39), depois de ter visto o ensinamento do Mestre e sua entrega total da vida. Não só os discípulos apresentados em Marcos, mas hoje também seus seguidores sofrem de uma ignorância crônica, precisando, muitas vezes, que os tidos como pagãos e infiéis o revelem em suas ações. E o que fazer diante disso? “Convertam-se e confiem na Boa Nova” (1,15). Converter significa mudar a mentalidade, as práticas, a consciência.

Marcos conclui o episódio com uma espécie de sumário: “E sua fama se espalhou logo por toda parte, em todas as regiões da Galileia” (v.28). Galileia, lugar dos marginalizados que vai descobrindo que chegou para ela a Boa Notícia do Reino, que é vida para os que foram provados. Contudo, Jesus vai rejeitar a possibilidade de se tornar famoso como tentação que não constrói o Reino.

Para instigar nossa reflexão diante do que foi exposto, cabe algumas questões: o que fazem os “espíritos impuros” diante da nossa prática, sentem sua ruína chegando ou riem a nossa custa? O que seria para nós, hoje, “um ensinamento novo, dado com autoridade”? Nós sabemos quem é Jesus? Quem é Jesus para nós? O domingo, dia sagrado para muitas igrejas e comunidades cristãs, é dia de libertação para a multidão de pessoas alienadas e despersonalizadas?


Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura indígena, LGBT; apoia e coordena grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre, onde serve como missionário.

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