Opinião | Kant me disse para apoiar Lula

23/01/2018 – Lula discursa em ato na Esquina Democrática, em Porto Alegre/RS. Foto: Ricardo Stuckert, editada. Fotos Públicas.

Sempre que me vejo diante de um dilema de ordem prática, recorro aos conceitos de moral para decidir como agir da melhor forma, já que cabe a ela responder essas questões. Se não encontrarmos nela a resposta exata, pelo menos possibilidades ou alternativas teremos, pois há vários pensadores e várias definições de moral. Cabe a cada um aplicar a que achar melhor em determinada situação. Dessa vez, na véspera do julgamento de Lula em segunda instância, recorri a Immanuel Kant. Ele me mandou apoiar Lula, independente do que aconteça, ou do que digam, pois  a um homem que matou a fome dos miseráveis, deu educação superior aos pobres e moradia aos sem teto, é o mínimo que eu poderia oferecer. E os julgamentos da midia e das redes sociais? Ele ainda me disse: uma boa ação não se importa com as consequências, nem com as influências que nos rodeiam: ela sempre será boa.

A filosofia moral de Immanuel Kant é tão ou mais difícil de ser seguida do que a própria moral cristã, dado o seu rigor na definição do que é fazer a coisa certa, a coisa justa. Segundo ele, não basta apenas agir corretamente: é necessário agir pelo motivo certo. Ou seja, Kant, que era cristão e de família protestante, exigia que fizéssemos a coisa certa e pelo motivo certo, caso contrário, nossos atos não teriam valor moral nenhum.

Um exemplo disso seria  um político que tivesse a oportunidade de desviar uma verba pública, que estivesse sob sua responsabilidade, mas, temendo ser preso, não o fizesse. Sua atitude foi certa, mas pelo motivo errado; não roubou por medo de ser preso, não por considerar que isso era desonesto.

A moral kantiana também não se preocupa com as consequências da ação a ser realizada. Importa agirmos do modo certo, ainda que o objetivo não seja alcançado, que não tenhamos o êxito esperado no final. A intenção é o que conta. Segundo Kant, a boa ação é boa não por aquilo que dela resulta ou acontece, mas por que é boa em si mesma; e sempre brilhará com o valor inerente de uma jóia, ainda que seja mal-sucedida.

Esse pensamento rígido ainda nos impõe um elevado grau de domínio próprio, pois não podemos agir conforme influência externa nenhuma, mas somente pela razão. O raciocínio é que deve guiar nossas atitudes, não nossos desejos ou preferências.  Isso é a liberdade em Kant: agir puramente pela razão, pela nossa capacidade única de raciocinar, não por impulso ou vontades provocadas por fatores que nos rodeiam e nos tentam, a todo momento, como as propagandas e a mídia. Kant exige de nós autonomia total ao agir, embora ele admita que nem sempre conseguiremos cumprir sua rigorosa moral.

Os conceitos da moral de Kant influenciam ainda hoje as questões envolvendo moral e política; logo, tanto praticá-los, quanto pensá-los, é um poderoso exercício de cidadania: elevam nossa humanidade.

Hoje, estarei com Lula nas ruas! Essa decisão é minha, após analisar exaustivamente os seus feitos, a condução  política da Lava-Jato, o comportamento e a sentença do juiz Sérgio Moro e as dezenas de opiniões de especialistas que escreveram sobre o caso. Não foram poucas as violações do direito de defesa de Lula, além dos argumentos condenatórios serem frágeis e da ausência de provas. Decido  com a liberdade que vem da razão, convicto de que estou fazendo a coisa certa, apoiando alguém que só fez o bem aos mais pobres, e pelo motivo certo, lutando pela democracia e pelo Estado de Direito.

Obrigado, amigo e irmão Kant, pelos conselhos.


Sobre o autor desse artigo 

Osmar Carvalho é colaborador do AP em São Paulo .

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