“O lugar do negro é sempre o de protagonismo, dentro e fora da Igreja”, declara Marco Oliveira 


“O lugar do negro é sempre o de protagonismo dentro e fora da Igreja. Acho que na igreja, mesmo que ainda exista resistência, os negros estão se colocando como expressão determinante.”

O pastor Marco Davi de Oliveira. Imagem própria, editada.

O racismo é um mal que assola a humanidade há séculos. No começo da Idade Moderna os negros africanos eram tidos pela Igreja Católica Apostólica Romana como seres “sem alma” – fato que foi usado como justificativa ao contrabando de escravos por Portugal e outros países que lançaram-se a conquista de novas terras. No Brasil, a escravidão durou 300 anos. Mesmo após a abolição os negros continuam sendo vítimas de novas injustiças sociais. No Rio de Janeiro foram os primeiros a ocupar e construir barracos nos morros, enquanto a nata branca vivia com conforto na orla marítima. Mesmo tendo a relação entre brancos e negros melhorado a partir da segunda metade do século XX, ainda há resquícios de preconceito racial, e que manifestam-se de forma mais acentuada quando negros passam a ocupar espaços outrora de predominância branca – como comércios em áreas nobres e aeroportos. No trabalho, também há casos de preconceito racial e mesmo subemprego de negros.

A relação entre o Protestantismo Histórico com movimentos negros nem sempre foi das melhores – como observamos em  documentos históricos sobre o posicionamento presbiteriano com relação aos negros, na segunda metade do século XIX. Houve avanços, embora somente sentidos após a proclamação da República. No começo do século XX, o surgimento do Pentecostalismo na Região Norte do Brasil passou a incorporar milhares de negros. Na verdade, a própria origem do Pentecostalismo – nos EUA – deveu-se ao empenho do negro William Joseph Seymour. Filho de ex-escravos, aos trinta anos de idade Seymour tornou-se membro do Movimento Reformador da Igreja de Deus, com sede em Indiana. Cinco anos depois passou a frequentar a escola bíblica de Charles Fox Parham. Por ser negro, Seymour sentava-se em um corredor, separado dos alunos brancos. Foi em 1906 que decidiu dar inicio a um trabalho próprio, tendo iniciado suas atividades em um templo abandonado da Igreja Metodista Africana, na Rua Azuza, Los Angeles. Aí surgiu o Pentecostalismo.

Portanto, as origens do Pentecostalismo estão associadas ao trabalho desenvolvido por Seymour e outros negros que, de 1906 a 1909, causou um verdadeiro reboliço no Protestantismo norte-americano. No Brasil, ganhou maior força ao desenvolver atividades de evangelismo e cura nas periferias das principais cidades. Coube a um pastor batista, em 2004, publicar um livro em que analisa a presença de negros no universo do Pentecostalismo e temas ainda caros aos crentes, como racismo e políticas afirmativas. Hoje pastor da Igreja Batista do Parque Doroteia (SP), Marco Davi de Oliveira é o autor do livro ‘A Religião Mais Negra do Brasil’ (Mundo Cristão, 2004). Oliveira explica que o livro surgiu de uma reflexão sobre o Censo 2000 do IBGE, e de conselhos de seu amigo e também pastor, Ariovaldo Ramos. Nele, Oliveira não apenas analisa a presença maciça de negros no Pentecostalismo, mas também debruça-se a entender qual é a relação da Igreja com temas ligados ao movimento negro. Nesta entrevista vamos conversar um pouco sobre o livro e temas relacionados.

Johnny Bernardo. Apesar das inúmeras literaturas publicadas pelas casas publicadoras evangélicas brasileiras há pouquíssimo material disponível sobre a relação da Igreja com o movimento negro. Qual é, de fato, a razão de tamanho descompromisso com uma pauta que universidades e instituições públicas e privadas têm tratado com mais seriedade, nos últimos anos? Diria que os evangélicos – particularmente os pentecostais – não têm consciência política?

Marco Oliveira. Não sei se é consciência política. De fato, as questões raciais sempre são colocadas em outros planos. A academia também não dá o espaço devido. O que temos foram “portas arrombadas”. Acredito que ao longo dos anos temos criado o nosso espaço.

Johnny Bernardo. Foi com o objetivo de preencher esta lacuna – de ausência de livros que analisam a causa do movimento negro do ponto de vista cristão-evangélico – que, em 2004, o senhor publicou o livro ‘A Religião Mais Negra do Brasil’? Foi difícil encontrar uma editora que topasse publicar um livro que discute sobre temas até então tabus no meio evangélico?

Marco Oliveira. Bem, eu estava escrevendo de forma completamente displicente, no que tange a necessidade de editar. Não pensava nisto. Fui incentivado por meu amigo Ariovaldo Ramos a escrever, mas nunca imaginava, como muitas coisas em minha vida, que isso aconteceria. Escrevi também por observar no IBGE de 2000 a quantidade de negros e negras nas igrejas evangélicas. Isso me motivou a começar a escrever algumas coisas. Foi ai, que participando do Congresso Brasileiro de Evangelização (CBE2), tive a oportunidade de falar no plenário sobre evangelho e negritude. Algo completamente fora daquilo que estava programado pelos homens. Na época a editora Mundo Cristão me pediu para ver o que eu estava escrevendo. A Mundo Cristão, assim como a Ultimato, que relançou meu livro, foram extremamente graciosas. Agradeço ao editor Marc pela oportunidade.

Johnny Bernardo. Qual foi a repercussão inicial por parte dos evangélicos?

Marco Oliveira. Por incrível que pareça, tive boas reações. Claro, tive também pessoas que mesmo sem ler o livro já fizeram mau juízo. Mas isso tem sido a pratica evangélica. No todo, foi boa a reação.

Johnny Bernardo. De 2004 – ano em que foi publicada a primeira edição de seu livro  – até o presente ano 2017, o senhor percebe alguma mudança no discurso por parte de líderes evangélicos? Temas como racismo e políticas afirmativas ainda não fazem parte dos sermões pastorais?

Marco Oliveira. Da liderança ainda não vejo mudanças importantes, mas percebo muitos pentecostais envolvidos com a questão. Não as lideranças majoritárias, mas vejo que houve uma mudança considerável de pessoas querendo aprender mais sobre o assunto.

Johnny Bernardo. Sabe-se da difícil relação do Protestantismo Histórico (PH)  com os negros no Brasil – inclusive pesquisas acadêmicas, como a conduzida por Hélio de Oliveira Silva, em ‘A Igreja Presbiteriana do Brasil e a Escravidão: Breve Análise Documental’ (2010) trazem algumas contribuições ao entendimento – e da presença maior de negros no Pentecostalismo, mas a impressão que temos é que, nos últimos anos, o PH tem modificado seu discurso. Concorda?

Marco Oliveira. Sim. Embora tenhamos uma história um tanto quanto difícil, de apoio e de omissão entre os protestantes históricos, temos percebido um grande crescimento no número de protestantes históricos envolvidos com a temática. Eu mesmo não sou pentecostal. E temos a igreja Metodista, Batista, até membros da Presbiteriana se engajando. Mas, ainda assim, os pentecostais são maioria.

Johnny Bernardo. Por que, apesar da presença maciça de negros no movimento pentecostal, há uma contínua demonização da cultura e tradição africana? O mesmo pode-se questionar com relação ao neopentecostalismo que, assim como o pentecostalismo, também tem um grande número de negros em suas fileiras, inclusive na liderança. Não obstante, o neopentecostalismo – especialmente a IURD – é conhecido por suas críticas à cultura e tradição africana. Como explicar?

Marco Oliveira. Entendo que a falta de conhecimento e, sobretudo, a intolerância, tem sido as principais marcas de algumas denominações evangélicas. Entretanto, não é prerrogativa dos pentecostais, pois os históricos também são levemente intolerantes. É fato que as igrejas dos vários pentecostalismos têm uma postura de demonização.  Obviamente que isso é extremamente ruim. Eis o desafio: fazer com que os cristãos pentecostais pensem com bom senso. Não acredito que devemos demonizar qualquer religião para evangelizarmos, ou para crescermos. Não acredito e não aceito. Como não quero ter minha fé ridicularizada, não devo, portanto, ridicularizar a fé de outrem.

Johnny Bernardo. Em ‘A Religião mais Negra do Brasil’, o senhor diz que, numericamente, a Igreja Católica tem o maior número de fiéis negros – obviamente porque, segundo o IBGE, a ICAR tem mais de 123 milhões seguidores –, mas, mesmo assim, o senhor declara que o pentecostalismo é a “religião mais negra do Brasil”. Com base em quais dados ou informações fundamenta sua tese?

Marco Oliveira. No livro deixo clara a inferência feita. Embora a ICAR tenha mais pessoas, a maioria é nominal. A diferença está ai.  Os evangélicos, sobretudo, os pentecostais, são constantemente envolvidos com as igrejas e com a fé.  Isso não ocorre com a maioria dos católicos, muito menos com os negros católicos. Por isso, sugiro que a religião mais negra seja a igreja pentecostal. Isto está claro na realidade que vemos nas periferias das grandes e pequenas cidades.

Johnny Bernardo. Diz-se que o racismo no Brasil é diferente daquele observado nos EUA. Por aqui o racismo manifesta-se de forma diferenciada, como observa o executivo Cesar Nascimento, em entrevista à BBC Brasil. O senhor já foi vítima de racismo? – e a pergunta estende-se ao ministério.

Marco Oliveira. Obviamente, a diferença do racismo à brasileira é muito grande da maneira estadunidense. Aqui o racismo é focado nas características físicas, como dizia Oracy Nogueira, é “racismo de marca”. Podemos até dizer que melhoramos um pouco, mas não foi porque os brancos poderosos nos deram, mas fruto de muitas lutas. No ministério não é diferente. Infelizmente a Igreja se torna a cada dia mais uma instituição, e toda instituição age na base do racismo institucional.

Johnny Bernardo. O fato de o Estado americano de Virginia fazer parte do que pesquisadores chamam de “Cinturão da Bíblia” – estados do sul e centro-oeste dos EUA com maior presença de crentes fundamentalistas – e, dois séculos atrás, ter sido parte de um conjunto de estados que lutaram pela manutenção da escravidão, não lhe parece algo contraditório? Cristãos escravocratas?

Marco Oliveira. Sim, é contraditório. Obviamente, os cristãos não deveriam ser favoráveis a escravidão, mas na época e até agora a Bíblia pôde e pode ser usada para legitimar tudo de ruim.

Johnny Bernardo. Não há apenas uma lacuna de publicações de literaturas que tratem da relação da Igreja com os negros, mas também há um vácuo de atividades ministeriais voltadas ao acolhimento de vítimas de racismo e ao diálogo com os membros sobre a importância de estudos da negritude. Foi com o objetivo de conscientizar os jovens sobre questões raciais que o senhor criou o programa ‘Discipulado, Justiça e Reconciliação (DJR)’? É um projeto independente da Igreja?

Marco Oliveira. Sim, claro. O DJR é um programa que surgiu durante minha viagem a África do Sul. Lá estive na ilha Robin onde Nelson Mandela ficou preso durante 18 anos. O programa de estudos bíblicos é baseado numa perspectiva “afrocentrada”, e visa refletir sobre assuntos concernentes as questões dos negros no Brasil. Estudamos sobre racismo dentro e fora da Igreja, sobre identidade negra, negritude, branquitude, ideologia de branqueamento, racismo estrutural. Tem sido interessante ver jovens se engajando nas questões raciais do movimento negro através das reflexões deste simples programa, que é totalmente independente de qualquer igreja ou denominação.

Johnny Bernardo. Uma das perguntas que o senhor se propõe a responder em seu ‘A Religião Mais Negra do Brasil’ tem sido: “qual é o futuro da relação do negro com a Igreja Evangélica Brasileira?” Treze anos após a publicação da primeira edição do seu livro o senhor chegou a uma resposta conclusiva sobre esta questão? Há algum indicativo que demonstre que houve melhorias?

Marco Oliveira. O lugar do negro é sempre o de protagonismo, dentro e fora da Igreja. Acho que na Igreja, mesmo que ainda exista resistência, os negros estão se colocando como expressão determinante.  Não tem como pensar numa igreja onde os negros não sejam preponderantes. Acho que ainda falta uma igreja focada na valorização da cultura negra – que já estamos planejando. Mas também falta aos negros em geral uma conscientização de sua história e se valorizarem mais. O trabalho que fazemos no DJR é de base. O trabalho do Movimento Evangélico Negro – que tem crescido cada vez mais no segmento – também visa atingir a base, onde as negras e os negros estão.


Sobre o autor dessa entrevista

Johnny Bernardo é Cientista Social e colaborador no blog Somos Progressitas.

Acompanhe nossas Entrevistas!

 

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