Opinião | Homossexualidade: um problema para Deus, ou um problema nosso?


“Não cabe a mim dizer a Deus com quem Ele deve ou não deve se sentar a mesa – ele é o dono do banquete, eu o serviçal contratado por ele.”

São Paulo – 21ª Parada do Orgulho LGBT, com o tema “Independente de nossas crenças, nenhuma religião é lei”. Todas e todos por um Estado laico, na Avenida Paulista (Rovena Rosa/Agência Brasil), editada. Fotos Públicas.

Alguém me pediu para responder se a homossexualidade é certa ou errada, baseado na carta de Paulo aos Romanos. Em primeiro lugar, seria desonesto da minha parte julgar se uma coisa é certa ou errada baseado num texto escrito em meados do século I, além de ser um completo anacronismo. É preciso levar em consideração, em relação a todo texto antigo, o contexto no qual ele foi escrito, levar em conta a mentalidade da época, como as pessoas pensavam. Dentro daquele contexto, principalmente entre os judeus, a relação entre dois homens era abominável (inspirados no que dizia a Torá), portanto, não tinha como Paulo (um judeu) pensar de outro modo. Ainda que essa ideia nos pareça absurda, Paulo não é atemporal, ele foi um homem e, como todo homem, está preso ao seu contexto histórico-cultural. Ele não poderia jamais pensar ou se comportar como um homem do século XXI. Esse é um cuidado que se deve ter ao ler as Escrituras: não misturar os princípios éticos universais, que orientam a vida de qualquer ser humano em qualquer tempo (como o amor ao próximo) com as limitações histórico-culturais.

Em segundo lugar, não me sinto juiz de ninguém. Aprendi de Jesus a amar, não julgar; a orientar, quando as ações dos irmãos atentam contra a vida, como no caso do homicídio, da violência contra as mulheres, da exploração sexual de crianças e adolescentes, etc.

Existe um princípio, na filosofia utilitarista de Stuart Mill, que afirma que uma coisa só pode ser avaliada como certa ou errada pelo dano que ela causa na sociedade. O homicídio e a corrupção, por exemplo, causam danos (impactos negativos) na sociedade, atingindo a vida de cada indivíduo em particular e da sociedade de modo geral. Portanto, são considerados errados e abomináveis. Porém, quando dois adultos decidem viver sua afetividade, sejam héteros ou homossexuais, isso não deveria interessar a nós – é preciso respeitar a vida privada de qualquer indivíduo e zelar para que, assim como nós, ele tenha o direito a sua vida privada e afetiva.

Qual o dano que a relação deles causa a minha ou a sua vida? Se lhe constrange, o problema é com você, não com eles. Se a sua religião considera errado, o problema está na sua religião, não com o casal que busca viver sua afetividade. Se é porque Deus condena, eu pergunto: como você sabe? “Está na bíblia”. Bem, nesse caso voltaríamos ao primeiro ponto. O fato é: se estiverem errados, prestarão contas ao Pai, não a mim. Eu me limito a ser servo, cumprindo o mandamento que ele me deixou de amar o próximo como Ele amou. Não cabe a mim dizer a Deus com quem Ele deve ou não deve se sentar a mesa – ele é o dono do banquete, eu o serviçal contratado por ele; a mim cabe servir a todos, como ele próprio deixou como testamento vivo o serviço.

Se você acha que, baseado nas Escrituras, deve regular o comportamento e a afetividade dos outros, isso é entre você e Deus. Quanto a mim, considero muito mais importante servir a todos, principalmente quem necessita, quem tem sua dignidade humana negada e vilipendiada por grupos que se considerem detentores da verdade. Acho que se a gente se ocupasse mais do serviço aos necessitados, de ajudar quem realmente precisa, e colocasse de lado essas questões relacionadas à orientação sexual de cada um, faríamos um bem maior a humanidade.

Fica aquela regrinha de ouro deixada pelo Cristo: não façam aos outros o que não gostariam que eles fizessem à vocês e façam aos outros tudo que vocês gostariam que eles fizessem a vocês. Você gostaria de ser perseguido por ser heterossexual?! Você gostaria de ser visto e tratado como uma aberração?! Você gostaria que os outros determinassem se você é ou não amado por Deus porque vive sua sexualidade?! Depois dessa, deixo outra: se você não pode ajudar os outros, pelo menos não os prejudique.

Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura indígena, LGBT; apoia e coordena grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre, onde serve como missionário.

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