Padre Beto | Relato da minha excomunhão – Parte 1


“O julgador respondeu: ‘O senhor não entendeu. Nós é que iremos afastá-lo. Iremos excomungá-lo’.”

Padre Beto. Fundador da Igreja Humanidade Livre. Foto própria, editada.

Cresci na Igreja Católica Romana e, nas décadas de setenta e oitenta, fui me identificando com a Teologia da Libertação e a postura de líderes como D. Helder Camara, D. Pedro Casaldaliga, D. Mauro Morelli, D. Luciano Mendes de Almeida e muitos outros. Com 27 anos, formado em Direito e em História, entrei para o seminário da Diocese de Bauru-SP.
Nesta época a Diocese havia ganho uma bolsa de estudos da Diocese de Munique (Alemanha) para os estudos de Teologia. Esta bolsa me foi oferecida e aceitei o desafio. Durante 10 anos cursei Teologia pela Universidade Ludwig Maximilian e na mesma universidade conclui meu doutorado em Ética Social.

Durante este período (1991 a 2001), o papado de Joao Paulo II conseguiu transformar o perfil da Igreja Católica Romana na América Latina, substituindo bispos progressistas por conservadores como também fortalecendo movimentos como a Renovação Carismática Católica. Quando voltei a minha Diocese, já ordenado padre, encontrei uma igreja clericalizada e o protagonismo do laicato enfraquecido.

Mesmo assim, continuei meu serviço sacerdotal com uma teologia crítica, e sempre em diálogo com os problemas da contemporaneidade. Nunca me neguei a entrevistas nos meios de comunicação de minha região ou a debates em universidades e comunidades sobre qualquer tema relevante à sociedade.

Desde que cheguei ao Brasil, fiz uso das redes sociais para refletir abertamente, inclusive sobre normas da Igreja, que, segundo minha opinião e minha experiência de confissões e conversas com as comunidades, deveriam ser revisadas. Sempre fui da opinião que todos os batizados (laicos, religiosos consagrados e clero) deveriam participar das reflexões sobre as questões da Igreja, principalmente daquelas que tentam normatizar o comportamento individual e social. Foi este meu crime.

Em Abril de 2013 fui chamado para uma reunião com o Bispo e o Vigário Geral de minha Diocese. Neste encontro foi me colocado um ultimato através de um documento em duas vias. O documento estabelecia que eu deveria retirar todo o material (artigos e vídeos) das redes sociais e pedir perdão, ou meu Bispo aplicaria o Direito Canônico. “A nossa missão não é fazer o povo refletir, já existem pessoas, na cúpula, refletindo por nós!”, afirmou meu Bispo.

Na mesma reunião deixei claro que não poderia pedir perdão por afirmações que havia feito, pois este perdão seria falso. Como pedir perdão, por exemplo, por ter afirmado que a moral sexual da Igreja Católica Romana deveria passar por uma grande revisão, pois mais mal estava causando ao ser humano do que bem? Como poderia pedir perdão, por afirmar que o tratamento da Igreja diante dos LGBTs criava um ambiente homofóbico e hipócrita?

Mesmo deixando minha postura clara, meu bispo me deu um prazo de uma semana para pensar. No final do prazo fui à Cúria Diocesana apresentar minha carta de afastamento do sacerdócio. Se não tenho a liberdade de reflexão deveria, então, me afastar do ministério. A Igreja já não era meu lugar.

A exemplo do que havia sido feito pelo bispo, levei duas vias do documento. O Bispo desceu as escadas e me recebeu com um sorriso aberto. Enquanto me conduzia pelas escadas do prédio, me perguntou se conhecia a obra do filósofo e escritor Mário Sérgio Cortella. Respondi que conhecia um pouco do seu trabalho e segui o bispo até uma sala que pensava ser o seu escritório.

Quando a porta foi aberta, vi uma cena surpreendente: uma mesa comprida ocupada por seis pessoas: cinco padres da diocese e, na cabeceira, no fundo da sala, um desconhecido vestido com figurino clerical. Os padres estavam todos de cabeça baixa. O homem que não conhecia tinha uma cadeira vazia a seu lado. Fui levado até lá pelo bispo. Sentei e perguntei ao meu Bispo onde ele se sentaria. O Bispo respondeu que não ficaria na sala. Disse que era melhor não participar do bate-papo do grupo. E saiu.

A reunião, na verdade uma sessão de julgamento, foi aberta formalmente pelo homem de figurino clerical. Ele era o juiz-instrutor Tiago Wenceslau. Eu o interrompi e expliquei que fora à Cúria entregar seu pedido de afastamento. O juiz-instrutor, que não havia se apresentado como tal, informou que não aceitaria. Eu mesmo assim insisti. O julgador respondeu: “O senhor não entendeu. Nós é que iremos afastá-lo. Iremos excomungá-lo”.

Enquanto anunciava a excomunhão, empurrou minha carta de afastamento que tentava entregar. Confirmou que aquela reunião era a sessão de um tribunal e que eu estava na cadeira dos réus. Eu me levantei imediatamente e disse que me recusava a ficar sentado naquela cadeira. Não fora intimado e estava na reunião sem um advogado. Fui informado que no ambiente eclesiástico o defensor não teria nenhuma utilidade.

Olhando em direção aos padres sentados na mesa, perguntei se ali havia algum homem para assinar a carta de afastamento. Ninguém respondeu. Todos continuaram de cabeça baixa. Disse ainda que naquela mesa não havia ninguém com dignidade suficiente para me julgar. Eu conhecia muito bem a vida dos cinco que estavam na mesa.

Enquanto me levantava para sair da sala ouvi do julgador que não deveria ter celebrado as missas de domingo. E que não poderia mais celebrar nenhuma missa.

Ainda nervoso percorri a Cúria procurando o bispo. Em vão. Em menos de uma hora, a Diocese publicou em seu site a decisão. Eu havia sido declarado um padre excomungado, em pleno século 21.

Ao ler a declaração da Diocese pensei imediatamente: minha missão religiosa chegou ao fim! Mero engano. Ela só estava começando…


Padre Beto (Roberto Francisco Daniel), formado em Direito (ITE-Bauru), História (USC-Bauru), Teologia (LMU- Alemanha), Doutor em Ética (LMU) e Radialismo (Senac-SP), foi sacerdote por 15 anos na Igreja Católica Romana, fundador da Igreja Humanidade Livre.

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