Opinião | O nepotismo da família Costa na Assembleia de Deus


“Precisamos fazer auto-crítica, para não andarmos como militantes cegos a suas próprias mazelas.”

ad nepotismo
Dep. estadual Marta Costa (PSD/SP) (esq.), dep. federal Paulo Freire da Costa (PR/SP) (centro) e vereadora Rute Costa (PSD/SP) (dir.). Reprodução do Facebook.

Segundo definição do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), “nepotismo é o favorecimento dos vínculos de parentesco nas relações de trabalho ou emprego”. Ao observar a estrutura de poder na Assembleia de Deus Ministério do Belém – na qual os três representantes políticos da igreja eram os filhos do pastor José Wellington Bezerra da Costa, então Presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil e dessa mesma igreja – não precisei fazer muito uso da razão para constatar que ali havia a prática de um tipo de nepotismo comum nas igrejas evangélicas, o nepotismo eclesiástico.

Há 30 anos na presidência da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), desde 1988, e na presidência da Assembleia de Deus Ministério do Belém, em São Paulo, o pastor José Wellington Bezerra da Costa é o condutor político da família Costa na igreja. Sua forte influência, aliada ao seu status de “homem inerrante de Deus”, parece ser mais do que suficiente para que suas ordens e determinações sejam  incontestáveis, seguidas como mandamentos divinos. Seu último grande feito, antes de deixar o poder maior das Assembleias de Deus, foi conseguir eleger seu filho, o pastor José Wellington Bezerra da Costa Junior, para a sucessão. O patriarca dos Costas também conseguiu eleger seu três filhos na política: Marta Costa, Paulo Freire da Costa e Rute Costa.

Marta Costa, atual deputada estadual por São Paulo (PSD/SP), foi eleita vereadora da Cidade de São Paulo por três mandatos e, segundo ela afirma em seu site, “saiu durante o terceiro para se dedicar as causas de todo o Estado”. De acordo com sua página na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), foi a candidata (eleita) à vereadora da Assembleia de Deus, em 2004, indicada por pastores. Foi reeleita em 2008 e 2012. Foi eleita deputada estadual por São Paulo, em 2014, indicada pela Confradesp (Convenção Fraternal das Assembleias de Deus do Estado de São Paulo).

Paulo Freire da Costa, atual deputado federal por São Paulo (PR/SP), está no segundo mandato. Foi eleito a primeira vez em 2010; a segunda, em 2014. Segundo consta em seu site, foi “escolhido por unanimidade pelos pastores de São Paulo para ser o representante da denominação (Assembleia de Deus) no Congresso Nacional”.

Rute Costa, atual vereadora pela cidade de São Paulo (PSD/SP), segundo informação do seu site, “foi indicada por unanimidade pelos pastores do Ministério do Belém”, eleita em 2016.

A confiança na rede de proteção que os permeia é tamanha que eles não têm o menor pudor de fazer uma publicação como essa da foto acima, nas redes sociais, como se um líder de uma igreja eleger os três filhos na política, com votos de igrejados, fosse a coisa mais natural e ética do mundo; quando na verdade isso é totalmente imoral, vergonhoso e injustificável.

A gente luta tanto por ética na política, contra o nepotismo, mas a podridão está debaixo do nosso próprio nariz, dentro da igreja, dizendo que essa politicagem é guiada por Deus. O nepotismo privilegia o favorecimento de parentes, em detrimento do mérito e de outras capacidades exigidas para um cargo. Precisamos de leis que regulem a participação de candidatos financiados por igrejas, pois isso acaba em concorrência política desleal, já que ninguém sabe o tanto de dinheiro que elas podem injetar em candidaturas. Ainda temos os currais eleitorais que se formam nas igrejas, e a forte influência, persuasão e controle que líderes religiosos exercem sobre seus fiéis. Os resultados podem ser muito prejudiciais aos cidadãos e ao país, com políticos eleitos sem o menor preparo para a vida pública, inaptos e ineptos.

A Assembleia de Deus é a maior denominação evangélica do país, e talvez poucos fora dela saibam que lá existe uma dinastia. É bom que todos comecem a se preocupar com essa forte influência das igrejas na política, pois já temos sentido o peso disso em nossas vidas, com a agenda ultra-conservadora da bancada evangélica, cuja maioria de deputados religiosos é ligada à Assembleia de Deus; isso não é um acaso.

Como evangélico, eu me recuso a ser conivente e a aceitar isso passivamente. Fica aqui minha indignação; e quando forem julgar essa vergonha, lembrem-se de que alguém a repudiou com todas as forças. Precisamos fazer auto-crítica, para não andarmos como militantes cegos a suas próprias mazelas.

As palavras e as opiniões dos fiéis deveriam ser consideradas no mais alto grau de relevância, já que são esses que sustentam a igreja e os clérigos. Mas sequer podem ser ouvidas. Devem ser sufocadas, pois podem atrapalhar projetos de poder. Nunca me perguntaram se eu concordava com esses representantes. Tudo é decidido por meia dúzia de pessoas, entre quatro paredes.

Até esse artigo, eu era membro da Assembleia de Deus Ministério do Belém, em São Paulo. Provavelmente serei excomungado depois dele; a prática de exclusão é uma ferramenta da qual essa igreja não abre mão; parece ser uma arma muito útil contra rebeldes indesejáveis.

Acompanhe nossa Coluna Opinião!


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s