Opinião | Homofobia mata

São Paulo – 21ª Parada do Orgulho LGBT, com o tema Independente de nossas crenças, nenhuma religião é lei. Todas e todos por um Estado laico, na Avenida Paulista (Rovena Rosa/Agência Brasil), editada. Fotos Públicas.

Por que questões relacionadas à homossexualidade, à trasgeneridade, e à  bissexualidade incomodam mais as igrejas cristãs (seus membros e líderes) do que outras questões como: violência contra a mulher, exploração sexual, abuso sexual contra crianças e adolescentes, corrupção, cultura da violência e do ódio?

De fato, em muitas igrejas cristãs, em suas celebrações ou cultos, o assunto principal é a condenação dos homossexuais, bissexuais, transgêneros, travestis etc. “Eles ameaçam a família tradicional”, “É uma prática abominável aos olhos de Deus”, “Deus odeia o pecado da homossexualidade e como não existe pecado sem pecador, Deus odeia os homossexuais”, “Você não pode ser cristão e ser favorável às práticas deles”, “Não, não existe essa história de ame o pecador mas odeie o pecado, se Deus odeia e abomina essa prática, não devemos amar quem pratica” – esses são alguns discursos que podem ser ouvidos.

A consequência prática, desses discursos, é excluir e isolar os LGBTs: não são pessoas, são aberrações – isolemos eles, pois! “Não, isso não é homofobia. Homofobia é agredir uma pessoa dessas”, eles se justificam com medo de olhar no espelho da verdade e perceber que sim, são homofóbicos e que são responsáveis pelos sangues inocentes das Dandaras, Gabrieis, Lúcias, que foram mortos simplesmente por viverem sua afetividade.

Cada LGBT morto no Brasil mancha de sangue inocente as mãos de quem deveria pastorear, de quem deveria promover a paz e o diálogo, promover a fraternidade e o acolhimento, mas, ao contrário, sustenta discursos de ódio, defende a agressão e a exclusão de minorias. Que família eles querem preservar se quando um LGBT (uma pessoa) morre, uma família é desfeita?

Cada vez que um LGBT é excluído e condenado a se isolar, caindo na mais desumana depressão, buscando como fuga para dor o suicídio, uma família morre junto! Cada vez que uma família é dividida porque é incitada a não respeitar a orientação sexual de um dos membros, uma família é desfeita!

“Mas a culpa é dos homossexuais que escolhem a homossexualidade”. Como dizia sir Elton John: se homossexualidade fosse uma escolha, ninguém escolheria ser homossexual. Afinal, quem iria escolher ser rejeitado, excluído, isolado, agredido, morto? Como a heterossexualidade não se escolhe, a homossexualidade também não se escolhe. Já se nasce orientado para uma ou para outra!

Qual o mal causado por dois adultos que escolhem viver sua afetividade? Qual o impacto negativo que eles causam? Por que eles são nocivos por viver sua afetividade de um modo diferente do convencionado “normal”? O que é mais nocivo e, portanto, maléfico: a homossexualidade ou a corrupção, a violência contra a mulher, a cultura do estupro, o machismo, a exploração sexual contra crianças e adolescentes, a violência, a desigualdade social? Pela prática de muitas igrejas, é mais nociva a homossexualidade do que essas outras questões, posto que elas nunca discutem, aprofundam ou fazem pregações sobre elas.

Como disse Jesus, essas igrejas e sua liderança são “condutores cegos, que coam mosquitos, mas engolem camelos” (Mt 23.24). Para esses cristãos, seus ritos edificantes, sua teologia da abstração, sua graça barata, seu farisaísmo, são mais importantes que o discipulado que exige compromisso com a vida e com as pessoas, principalmente as que são marginalizadas, com os pobres, os excluídos e alienados. Para eles, a moralidade, o legalismo, é superior à manutenção do bem-estar social.

Questões importantes são tratadas como secundárias, e questões secundárias como importantes.

Vou deixar alguns dados para a reflexão desses cristãos de fachada:

VIOLÊNCIA SEXUAL

– O Brasil registrou 1 estupro a cada 11 minutos em 2015. São os Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, os mais utilizados sobre o tema. Levantamentos regionais feitos por outros órgãos têm maior ou menor variação em relação a isso.

– As estimativas variam, mas em geral calcula-se que estes sejam apenas 10% do total dos casos que realmente acontecem. Ou seja, o Brasil pode ter a medieval taxa de quase meio milhão de estupros a cada ano.

– Cerca de 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes. Quem mais comete o crime são homens próximos às vítimas. (Fonte: Ipea, com base em dados de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde)

– Há, em média 10 estupros coletivos notificados todos os dias no sistema de saúde do país. (Dados do Ministério da Saúde de 2016, obtidos pela Folha de S. Paulo). 30% dos municípios não fornecem estes dados ao Ministério. Ou seja, esse número ainda não representa a totalidade.

– Somente 15,7% dos acusados por estupro foram presos (Dados do estado de São Paulo obtidos pelo G1, referentes aos meses de janeiro a julho de 2017)

– O mesmo levantamento apontou que na cidade de São Paulo há 1 estupro em local público a cada 11 horas.

– No estado do Rio de Janeiro, há um caso de estupro em escola a cada cinco dias e 62% das vítimas tinham menos de 12 anos. (Dados do Instituto de Segurança Pública obtidos pelo EXTRA e referentes a Janeiro/2016 a Abril/2017. Nota-se aqui que não há distinção entre os níveis de ensino e que há meninos vítimas de violência sexual)

– No Metrô de São Paulo registra-se 4 casos de assédio sexual por semana. (Dados de 2016 obtidos pelo Estadão)

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FEMINICÍDIO*

– A cada 7.2 segundos uma mulher é vítima DE VIOLÊNCIA FÍSICA. (Fonte: Relógios da Violência, do Instituto Maria da Penha)

– Em 2013, 13 mulheres morreram todos os dias vítimas de feminicídio, isto é, assassinato em função de seu gênero. Cerca de 30% foram mortas por parceiro ou ex. (Fonte: Mapa da Violência 2015)

– Esse número representa um aumento de 21% em relação a década passada. Ou seja, temos indicadores de que as mortes de mulheres estão aumentando.

– O assassinato de mulheres negras aumentou (54%) enquanto o de brancas diminuiu (9,8%). (Fonte: Mapa da Violência 2015)

– Somente em 2015, a Central de Atendimento a Mulher – Ligue 180, realizou 749.024 atendimentos, ou 1 atendimento a cada 42 segundos. Desde 2005, são quase 5 milhões de atendimentos. (Dados divulgados pelo Ligue 180)

– No estado de Roraima, metade das acusações de violência doméstica prescrevem antes de alguém ser acusado. Não foi conduzida nenhuma investigação nos 8.400 boletins de ocorrência acumulados na capital Boa Vista. (Dados do levantamento realizado pela Human Rights Watch em 2017)

– 2 em cada 3 universitárias brasileiras disseram já ter sofrido algum tipo de violência (sexual, psicológica, moral ou física) no ambiente universitário. (Fonte: Pesquisa “Violência contra a mulher no ambiente universitário”, do Instituto Avon, de 2015).

*Há uma excelente análise sobre a dificuldade de obter esses dados feita pela Gênero e Número.

Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura indígena, LGBT; apoia e coordena grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre, onde serve como missionário.

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