Opinião | Lula, Bolsonaro e a idolatria política

 


“É possível ser idólatra sem confeccionar nenhuma imagem de madeira, gesso, barro. Quando se deposita a esperança (incondicional) e confiança numa figura ou num sistema – mantendo com ela uma relação de fanatismo -, está-se cometendo idolatria.”

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Grande ato de encerramento da caravana Lula Pelo Brasil no Espírito Santo e Rio de Janeiro, na UERJ. Foto Ricardo Stuckert (Editada). Fotos Públicas.

“Não tenha outros deuses além de mim” (Ex 20.3). Na Tanakh (ou Antigo Testamento), uma das formas de se referir a Deus é chamando-o de Elohim, plural de Eloha. Elohim, em geral, é atribuído ao Deus único. Porém, elohim pode também significar outras divindades e até mesmo os juízes ou aqueles que exercem algum poder, como afirma o Salmo 82.6-7: “Meu decreto é: Vocês são elohim [deuses, juízes], filhos do Altíssimo, todos vocês. Todavia, morrerão como mortais; como qualquer príncipe, cairão”. Então, elohim não é uma referência somente aos deuses pagãos, mas também a todo aquele que exerce autoridade ou “poder” sobre um povo (ou uma comunidade).

É comum, nos meios protestantes e evangélicos, afirmar que os católicos são idólatras, posto que confeccionam imagens de seus santos e mantém uma relação mística com elas, desobedecendo assim uma das Falas de Deus no livro do Êxodo. Mas será que idolatria é somente isso mesmo? Segundo o início da segunda fala, “Não terás outros deuses além de mim”, não. É possível ser idólatra sem confeccionar nenhuma imagem de madeira, gesso, barro. Quando se deposita a esperança (incondicional) e confiança numa figura ou num sistema – mantendo com ela uma relação de fanatismo -, está-se cometendo idolatria. A figura (ou sistema) é vista com uma lente de aumento e, portanto, aparenta ter um poder muito maior do que realmente tem.

Bolsonaro e Lula possuem uma legião de fanáticos que, literalmente, os idolatram cegamente. É depositada neles uma esperança muito grande, como se eles fossem resolver de fato todos os problemas econômicos, sociais, morais, éticos, existenciais. Falar mal de um deles é atrair para si a ira de seus fiéis: ataques são disparados, ameaças são feitas, deboche, ódio barato, em suma – a defesa cega. Uma característica da idolatria é o fanatismo e uma característica do fanatismo é a irracionalidade. É a irracionalidade que fala, na defesa de uma figura idolatrada. Uma discussão pautada no respeito, um debate de ideias é impossível (quando se é idólatra). Nasce, assim, a luta dos extremos onde uma figura é melhor que a outra, sem necessariamente ser esclarecido o porquê das afirmações. Criam-se boatos, acirram-se as disputas, alimenta-se o ódio, se recorrem a recursos que tem por base o medo; a censura é utilizada como ferramenta: olhos vermelhos, boca espumando – duas características de fanáticos e idólatras.

2017 termina e 2018 inicia marcado pela idolatria na política, na qual figuras públicas são colocadas, consciente ou inconscientemente, como deuses, com uma legião de fiéis fanáticos. Êxodo 20 lembra: não é possível ter outros Deus, há um só Deus – o Eterno. É impossível ser cristão e fazer uma defesa fanática de uma figura política, seja ela de um extremo ou do outro. Como reconhecer o fanatismo em mim? Quando sou incapaz de fazer uma autocrítica, quando sou incapaz de criticar e apontar as mazelas da ideologia que defendo, do político que “adoto”, da igreja que sigo, da doutrina a qual me agarro, da verdade pela qual me oriento. Menos fanatismo na política. Menos Bolsonaro, menos Lula, mais debates pautados no respeito, mais autocrítica. A verdadeira política se constrói coletivamente, enfrentando os antagonismos e colocando o bem-comum como prioridade.


Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura indígena, LGBT; apoia e coordena grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre, onde serve como missionário.

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3 comentários

  1. Excelente artigo de um falso intelectual, ainda bem que ele diz ser apenas uma opinião. Este artigo não server para nada além de mamon, que se esconde atrás de falsas opiniões que buscam uma outra via, das quais não apresentam nenhuma proposta inovadora. Este tipo de falso intelectual se diz do bem mas na verdade está em trabalho de preparação do caminho para uma enviado tipo Collor, Meirelles, Alexandre Frota, Luciano Huck, quaisquer porcaria que se apresente como uma opção ao que existe. Classificar eleitores de Lula que fala de amor, de pacificação, de crescimento social, paz social como sendo fanático, iguais ao do bolsanaro, um candidato que tem orgulho em dizer que sua especialidade é matar é muita ignorância política, má fé, desserviço ao país e aos leitores desta coluna. No mínimo o infeliz autor desta porcaria que chama de opinião deveria apresentar uma alternativa, fazer proselitismo baixo apenas piora o que já tá ruim. Aliás ao infeliz autor deste texto pergunte qual a proposta de ambos para economia, educação, saúde, emprego, serviços públicos, segurança nacional. Não tente nivelar todos pela sua ignorância.

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  2. Caro leitor, você fez uma interpretação equivocada. Eu não declarei que todo eleitor do Lula é um fanático, afirmei que existem muitos fanáticos que são eleitores do Lula. Minha intenção foi criticar o fanatismo na política. E você, reconhecendo ou não, existem fanáticos que apoiam o Lula. Eles, geralmente, não conseguem enxergar os erros cometidos pelo PT, a traição que o Lula para com a classe trabalhadora. Lula adotou uma política de conciliação de classes, uma política reformista, características dos governos sociais-democratas, mas não uma característica da esquerda, do socialismo autêntico. Ele teve a chance de estabelecer aquilo que o PT discutiu por décadas, aquilo que ele sempre defendeu desde a década de 1980, aquilo que fez os movimentos sociais acreditarem no PT e se associar ao PT. Porém, as reformas implantadas pelos mais de 13 anos de PT no poder forem esmagadas, inclusive porque os movimentos sociais aparelhados pelo próprio partido dos trabalhadores, ficaram desarticulados, enfraquecidos, fragmentados. A classe trabalhadora sofreu uma agressão, como o próprio Lula costuma dizer, como nunca houve na história. E a responsabilidade foi do próprio PT que se associou a partidos burgueses em busca de uma falsa governabilidade. Guattari, numa discussão na decadente de 1980 com o Lula, apontava os riscos de um partido como o PT se associar com partidos reacionários; Lula disse, na época, ser inviável um acordo com esses partidos que a história contradisse, como sabemos.
    Minha intenção era a de refletir sobre os riscos de uma política de extremos, sobre o perigo de uma política que projeta a resolução dos problemas numa figura messiânica. No final, do meu artigo dou um vislumbre de uma possível saída: uma política de construção coletiva, de reorganização da classe trabalhadora e movimentos sociais, uma política que vise a mudança da estrutura aristocrática, burguesa e capitalista na qual estamos presos. Um partido não deveria ser visto, não por alguém que se declara de esquerda, como mero instrumento eleitoral. Não, um partido é um espaço de construção onde o processo eleitoral é um meio de se construir uma nova política, não um fim.
    Quanto aos ataques e desqualificações pessoais, não responderei, pois é apenas o seu ponto de visto. O que me surpreende é a sua incapacidade de fazer uma autocrítica ao que foi o governo do PT, ao que hoje representa o Lula. Como disse, é uma característica do fanatismo. Todos nós, da esquerda, devemos ter essa capacidade de refletir sobre nossos erros históricos.

    O PT foi incapaz de responder as diversas demandas colocadas pela sociedade, por isso junho de 2013 representou um ponto de inflexão no ciclo dos governos petistas. O golpe parlamentar-judicial-midiático foi possibilitado pela estratégia conciliadora do petismo, que compôs com as classes dominantes e setores conservadores, não enfrentou os oligopólios da mídia empresarial, aliou-se a setores ultrarreacionários do Congresso. Para manter a “governabilidade”, os governos do PT usaram como moeda de troca pautas das mulheres, LGBT’s e negritude. Ainda nas eleições de 2010, Dilma publicou a “Carta ao Povo de Deus”, comprometendo-se em não colocar em discussão questões como a legalização do aborto, casamento civil igualitário, além do veto ao kit “Escola sem Homofobia”. Tudo isso permitiu o desenvolvimento da ofensiva conservadora que está na origem da atual situação.
    Além disso o petismo desmobilizou nossa classe e domesticou os movimentos sociais. Ainda que tenha promovido algumas melhorias, “desacumulou forças”: preparou sua própria derrota e criou condições para uma ofensiva burguesa mais dura contra os direitos dos/as trabalhadores/as do povo.

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