Felipe Catão | A escravidão das riquezas

Nota de R$100. Imagem da internet.
Nota de R$100. Imagem da internet.

“E disse-lhe um da multidão: Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança.
Mas ele (Jesus) lhe disse: Homem, quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós?
E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui.
E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância;
E arrazoava ele entre si, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos.
E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens;
E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga.
Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?
Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus.
Lucas 12:13-21

O trecho do Evangelho inicia com alguém, do meio da multidão, interrompendo Jesus e pedindo que ele sirva como juiz, na divisão de uma herança entre o próprio homem e o irmão. Era comum, naquela época, os rabinos, os professores e mestres de Israel, servirem como juízes e mediarem pequenas disputas, como a divisão de uma herança. Mas por que Jesus responde de maneira tão dura, até um pouco hostil? – “Homem, quem me estabeleceu juiz ou árbitro da vossa partilha?” (v.14). Primeiramente, porque o homem parece não ter compreendido o que Jesus estava dizendo, quando ele faz sua crítica aos fariseus e mestres da Torah, pedindo a seus seguidores para tomar cuidado com o fermento dos fariseus (a hipocrisia); os fariseus utilizavam a religião como instrumento para explorar o povo, para extrair o que o povo (em sua maioria pescadores e agricultores) com muito suor ganhava, tudo em nome de Deus. Priorizavam o dizimo e as ofertas, secundarizavam a justiça e a misericórdia de Deus, ou seja, subvertiam a vontade de Deus impondo suas próprias leis para enriquecer à custa do povo. Por isso, Jesus se irrita e aproveita da oportunidade para ensinar.

Em primeiro lugar, ele mostra que a vida do ser humano não é assegurada pelos bens que ele tem e acumulou. E que, ao contrário, é preciso tomar cuidado com a ganância, com a ambição e a ilusão de acreditar que a abundância de bens é sinônimo de uma vida feliz e segura (v.15). Para exemplificar isso, conta uma parábola onde a terra de um homem rico produziu bastante e ele reflete sobre o que fazer com tantos bens. Decidi aumentar seus celeiros e guardar uma reserva que garanta uma vida abundante e proveitosa. Depois de realizar o que pensou, diz para si mesmo que está tudo bem, que agora vai descansar e aproveitar o que lhe pertence. Ironicamente, Deus retira sua vida, fazendo ver o quanto o homem rico é, na verdade, um insensato. Insensato porque considera seus bens como um fim em si mesmo, porque subverte a ordem natural das coisas e localiza Deus como secundário, priorizando suas riquezas. Jesus conclui a parábola com uma frase enigmática: “Assim acontece com aquele que ajunta tesouros para si, e não é rico diante de Deus” (v.21). O que é ser rico diante de Deus?

Jesus responde essa pergunta ao longo dos Evangelhos e a partir da sua própria prática missionária. No Evangelho de Mateus ele vai dizer: “Buscai, em primeiro lugar, seu Reino e sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6. 33). Ser rico aos olhos do Pai consiste em buscar viver em harmonia com o seu Reino e praticar a justiça. Fé é fidelidade, harmonia com Deus; quem tem fé, verdadeiramente, está em sintonia com o Pai. A fé não é inerte, não é extática, mas ela se traduz na vida de quem a tem. A fé que não se traduz em ação, ou seja, que não busca a justiça de Deus é uma fé morta, uma pseudo-fé. A fé conduz a praticar o bem, acolher os fracos, não julgar, não excluir, a ser amoroso, caridoso; às vezes, duro para corrigir quem errou, mas sempre com amor no coração; a fé conduz à promoção da vida integral: quem tem fé escolhe a vida e as situações que promovem a vida (cf. Dt 30. 19). Quem prioriza o Reino de Deus e a sua justiça, terá os bens necessários como acréscimo. O erro (e o mal) está em subverter essa ordem, colocando como prioridade o acúmulo de bens, acreditando que uma avida abundante é uma vida composta de muitas riquezas, de segurança financeira. Os bens que são colocados em nossas mãos são doados por Deus, para que possamos administrá-los, usá-los para a promoção do Reino, mas nunca para possuirmos. Pois no fundo, todo aquele que possui é possuído por suas posses. Mas aquele que as utiliza com sabedoria, com equilíbrio, a serviço de Deus e do próximo, aquele que prioriza a vontade do Pai, esse sim é rico diante de Deus.

Peçamos essa sabedoria que vem Deus, esse discernimento, para que possamos ser ricos aos olhos do Pai e compartilhemos de seus dons, como filhos e filhas em Cristo. Amém!


Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura indígena, LGBT; apoia e coordena grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre, onde serve como missionário.

Acompanhe nossa Coluna Teologia!

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s