Editorial | Natal é festa progressista

Rosto reconstruído de Jesus. Imagem da internet.

Negro, descendente de prostituta, nascido em país de terceiro mundo, de bairro pobre, foragido da justiça por desordem desde criança, perseguido pela polícia já na infância, sem terra, sem teto, sem ter onde cair morto (nem vivo); eis o perfil do aniversariante do dia 25 de dezembro: Jesus Cristo. Não restam dúvidas, Natal é festa progressista do começo ao fim.

Há fortes indícios de que Jesus encarnou como um homem negro, e parece que Ele quis vivenciar isso, indicando mais uma vez sua preocupação com os mais oprimidos. Em 2001, o antropólogo forense Richard Neave recriou a imagem de Jesus para a BBC, usando técnicas forenses e recursos tecnológicos, como tomografia computadorizadas e programas computacionais. Foram analisados crânios de semitas que viveram na região por onde Jesus passou, além de registros culturais judaicos da época e textos bíblicos. O resultado foi o rosto provável de um judeu comum da região da Galileia, ao norte de Israel, no Oriente Médio: um homem baixo (de mais ou menos 1,50m de altura), cabelo preto, curto e enrolado, olhos escuros e pele escura.O evangelista Mateus relata Jesus como um homem comum, parecido com seus contemporâneos judeus e fácil de ser confundido com eles; Judas precisou dar um sinal, um beijo, para identifica-lo e entrega-lo à morte. Logo, a imagem bizantina de um Jesus de cabelo longo e liso, de pele branca angelical e olhos azuis, fica distante da realidade dos galileus daquela época.

A linhagem de Jesus é uma total contradição às “pessoas de bem” e aos conservadores da época. Primeiro que não era normal citar mulheres em linhagens israelitas; já na linhagem real são citadas quatro mulheres. Segundo, em vez de lembrar as mulheres “de bem” e “de família”, as quatro mulheres citadas são: uma prostituta estrangeira (Raabe), uma mulher estrangeira, mal falada e de interesses questionáveis (Tamar), uma pagã estrangeira (Rute) e uma mulher que teve um relacionamento ilícito com o rei Davi (Bate-Seba). Definitivamente, Jesus rompeu com o tradicionalismo religioso, ao se declarar descendente de uma prostituta.

Geograficamente, Jesus escolheu nascer em um lugar deteriorado e paupérrimo, de tamanho insignificante se comparado a outros países do mundo: Israel. Além disso, a cidade de Nazaré, terra natal de seus pais, não era vista como uma local de onde pudesse vir um Deus ou alguma nobreza, a ponto de Natanael perguntar, quando Filipe lhe contou que havia encontrado o messias: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré”?. O ceticismo em relação a Jesus era tanto, que os próprios nazarenos o expulsaram da cidade e tentaram matá-lo, jogando-o de um penhasco. A Belém, onde o Cristo nasceu, era uma cidade muito pobre também; não por acaso, o profeta Miquéias já a chamara de pequena, setecentos anos antes da natividade. Jesus era a zona leste de Israel.

Nascido em uma manjedoura – no meio da estrada, onde ficavam animais -, sem terra e procurado pela polícia, para não ser morto pelo Estado, Jesus foi refugiado no Egito, vivendo como um apátrida, pessoa sem local de nascimento reconhecido. Sem teto, ele mesmo declarou: “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. Sem ter onde cair morto, precisou da bondade de um homem, José de Arimatéia, para ser enterrado com o mínimo de dignidade, em um sepulcro. Contudo, ele ainda consolou os pobres: “Na casa de meu pai há muitas moradas” (de graça). Uma política habitacional para todos.

Mesmo antes de nascer, Jesus empoderou as mulheres, mandando um anjo falar diretamente com Maria, quebrando as regras de uma sociedade patriarcal, na qual as mulheres tinham pouca ou nenhuma expressão. O conceito de família também foi abalado, pois Maria daria à luz um filho fora do casamento.

Por fim, o Príncipe da Paz, rejeitado por seu povo, recebe religiosos pagãos da Babilônia para celebrar seu nascimento. Estava ali estabelecido o diálogo inter-religioso, uma pauta progressista.

Diante de tantos fatos, só nos resta celebrar essa grande festa progressista, daquele que conheceu o peso da cor da pele, que viveu e morreu sem um teto, que promoveu as mulheres e lutou pelos mais pobres, deixando a esperança de um mundo utópico na vida após a morte. Mas festa progressista é inclusiva, e os conservadores de direita? Eles são aquele parente acanhado na festa, encostado na parede, peixe fora d’água, que nós pegamos pelo braço e tentamos animar, puxando para o meio do salão e  dizendo: “Vem! Vem! Vem!”

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