Felipe Catão | O protagonismo das mulheres no ministério de Jesus

São Paulo – 24/06/2017: Mulheres protestam por mais direitos e contra a violência, na Av. Paulista. Imagem: Ativismo Protestante.

Um aspecto central contido no trecho do evangelho de Lucas 8: 1-3 é o protagonismo das mulheres no ministério de Jesus. Na época de Jesus, as mulheres possuíam uma participação passiva na sociedade: ela era propriedade do homem (primeiro do pai e depois do marido); não tinha autonomia (não era contada entre os habitantes, sua participação na vida familiar era só na procriação dos filhos, e se fosse estéril era substituída pela escrava); não podia participar das decisões políticas e tampouco dos cultos religiosos (ficava atrás dos homens, nos lugares separados e os cultos, nas sinagogas, geralmente só iniciavam com a presença de dez homens; se houvesse cinco homens e cem mulheres, não haveria culto). Jesus rompe com esse paradigma social, ao aceitar mulheres no seu grupo de talmid. Ele não só as aceita como lhes oferece um lugar de protagonismo em seu ministério.

Na ressurreição, elas são as primeiras a vê-lo e a anunciar aos demais que Ele vive. Ele transmite a elas os seus ensinamentos e também o ensino da Torah – algo que só era permitido aos homens. Veja o caso de Maria, irmã de Marta, que o escuta falar sentada aos seus pés, comum aos alunos dos rabinos. Ele aceita – algo inconcebível para um rabino – que as mulheres abandonem seus lares para segui-lo. Ou seja, Jesus rompe com todos os protocolos sociais e com a Lei que escravizava, despersonalizava e oprimia as mulheres. Ele mostra que elas não eram secundárias ou inferiores aos homens, ao contrário, tinham a mesma dignidade e, portanto, deveriam exercer o mesmo protagonismo que eles. E é consenso entre muitos estudiosos que no cristianismo primitivo, pouco depois da morte de Jesus, as mulheres exerciam grande autoridade nas Igrejas, sendo apóstolas diretas e coordenando comunidades, como no caso de Maria Madalena. Mas como dizia Uta Hanke-Heinemann: Jesus foi o último amigo das mulheres na Igreja.

Após a morte de Jesus, as mulheres foram perdendo o seu protagonismo e ficando em segundo plano durante o desenvolvimento da história do cristianismo. Os preconceitos da época, que Jesus havia procurado romper e criar uma nova mentalidade, foram novamente internalizados e colocados em prática, agora em nome dele. E essa atitude em relação as mulheres, permanece assim até hoje. Socialmente, as mulheres conseguiram muitos direitos e exercer certo protagonismo, a partir de muita luta. Porém, ainda estamos longe de viver numa sociedade que enxerga o verdadeiro papel da mulher e o seu protagonismo. As infinitas violências e preconceitos contra as mulheres estão aí, escancarados, para provar isso. Inclusive (e principalmente) dentro das igrejas, onde ainda se segue o preconceito dos primeiros apóstolos como teologia, e a mulher é inferiorizada. Ainda que as mulheres exerçam cargos (ou funções) que antes não poderiam exercer – e em algumas igrejas nem isso – o discurso e práticas que são obrigadas a reproduzir são patriarcais. As mulheres não têm permissão para discutir sobre seu corpo, sobre sua sexualidade, sobre o aborto, por exemplo. No máximo, o que existe, é uma flexibilização quanto ao que e como deve se vestir, o que pode ou não fazer.

Para viver uma Humanidade Livre para amar, é preciso não repetir os mesmos erros, não perpetuar os mesmos preconceitos e discursos patriarcais. Ao contrário, devemos problematizar e discutir sobre a igualdade de gênero e incitar novos debates na sociedade e ou nas igrejas irmãs. Nas questões referentes as mulheres, são elas a discutir e problematizar sobre suas questões, não os homens. Sempre com a perspectiva jesuânica em mente: libertar o ser humano para amar de maneira incondicional, sem criar cárceres, como o Mestre ensinou.

Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura indígena, LGBT; apoia e coordena grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre, onde serve como missionário.

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