Johnny Bernardo | Entrevista com Marcos Custódio, ambientalista cristão

“Se somos criados/chamados para sermos administradores/cuidadores da criação, como podemos honrar a Deus destruindo o planeta, exterminando espécies, poluindo rios e oceanos, desmatando florestas?”


Marcos Custódio, ambientalista cristão
Marcos Custódio, ambientalista cristão. Imagem própria, editada.

Em 29 de agosto de 2005 a cidade de Nova Orleans foi devastada por um dos maiores furacões da história dos Estados Unidos. Além de devastar a terra do Jazz, o furacão Katrina deixou em seu rastro de destruição mais de 1,8 mil mortos e 1 milhão de desabrigados. O cenário era de guerra, com pessoas disputando alimentos e corpos espalhados pelas ruas da cidade. O republicano George W. Bush foi criticado por sua frieza e demora de resposta. Doze anos após o caos decorrente do furacão os Estados Unidos têm como presidente um dos maiores inimigos do meio ambiente: o bilionário Donald Trump. Eleito com o voto de cristãos conservadores do Cinturão da Bíblia (estados da região sul e leste com forte influência de protestantes), de habitantes de áreas rurais e operários brancos insatisfeitos com as políticas econômicas de Barack Obama, Trump rompeu com o Acordo de Paris e convidou para uma coletiva de imprensa na Casa Branca empresários de indústrias do carvão. Embora com algumas diferenças em relação ao governo Bush, Trump representa o ceticismo republicano e conservador.

Segundo uma pesquisa feita pelo Pew Research Institute, dos Estados Unidos, “metade dos norte-americanos são céticos com relação ao aquecimento global”. Detalhe: boa parte dos negacionistas são cristãos conservadores. Diretor-executivo de A Rocha Brasil (uma organização internacional com atuação em 19 países e que teve início em 1983, em Portugal), Marcos Custódio associa o negacionismo ambiental ao fundamentalismo cristão surgido no começo do século XX, entre protestantes norte-americanos. Decorrente de uma interpretação literalista das Escrituras, evangélicos negacionistas pregam o que Custódio chama de “pensamento escatológico fundamentalista”. Há interpretações literalistas diversas, como a que justifica o consumismo predatório com base no texto de Gênesis 1.27. Outros atribuem a Deus a responsabilidade pelo cuidado da natureza, e outros ainda mais radicais desestimulam seus irmãos de fé a participar de campanhas de conscientização ambiental com base na ideia de que “Deus destruirá os céus e a terra”.  “Logo, por que temos que preservar o planeta se Deus irá destruí-lo?'”, lembra o ambientalista cristão Marcos Custódio. Acompanhe a entrevista a seguir.

Johnny Bernardo. A passagem de Gênesis 1.27 é, talvez, uma das poucas referências bíblicas sobre a relação do homem com a natureza. Deus deu a ele o domínio sobre todo animal e árvore que dê semente, para que “lhes seja para mantimento”. O fato de Deus ter colocado toda a fauna e a flora sob o domínio do homem serve como justificativa ao consumismo predatório típico do sistema capitalista?

Marcos Custódio. Um dos pontos importantes deste texto (Gênesis 1:27) é buscar entender qual é o significado da palavra “domínio”. Após conversar com alguns amigos especialistas em textos antigos (hebraico) compreendi que a ideia por trás do termo “domínio” é a de “administrar a criação de Deus”. Desta forma o homem foi criado para ser, juntamente com Deus, “cuidador” e” administrador” da criação. Portanto, dentro da cosmovisão cristã, interpretar o texto como se fosse um “cheque em branco” para que pudéssemos fazer o que quiséssemos com toda a criação e seus recursos é quase que uma irresponsabilidade teológica. Não serve como referência para nenhuma construção teológica.

Se somos criados/chamados para sermos administradores/cuidadores da criação, como podemos honrar a Deus destruindo o planeta, exterminando espécies, poluindo rios e oceanos, desmatando florestas? Como podemos honrar a Deus sendo “administradores/cuidadores” da humanidade em meio a fome, a pobreza, a guerra, ao tráfico de pessoas, e a exploração de crianças? Um ponto a ser destacado é que parte da teologia que fundamenta a exploração predatória do planeta foi elaborada em um período em que a relação população humana versus recursos disponíveis era extremamente limitada. No século XIX mal havíamos chegado a 1 bilhão de pessoas e inúmeras áreas do planeta (e seus recursos) permaneciam intocáveis. Se não pensarmos em fazer uma boa gestão dos recursos, a sermos administradores/cuidadores,  levaremos a civilização, como a conhecemos atualmente, ao colapso. É necessário revermos nossa construção teológica quanto ao uso dos recursos naturais.

Johnny Bernardo. Pesquisa do Pew Research Institute revela que pelo menos metade dos norte-americanos são céticos com relação ao aquecimento global. Maior rejeição ocorre entre cristãos conservadores. Estudante de Teologia, Erick Ericsson disse, em um tuíte, adorar Jesus, e não a Mãe Terra, e que não cabe a ele combater o aquecimento global. Como entender semelhante pensamento?

Marcos Custódio. Antes é necessário atentar para as peculiaridades da cultura e do contexto dos norte-americanos. São várias, desde seu processo de construção como grande economia global (o desenvolvimento das industrias de petróleo, química, automóveis, etc.), até sua construção como nação cristã. Isto influencia a dinâmica de construção do debate sobre desenvolvimento sustentável e fé cristã, e com seu “peso” como nação no mundo atual, influencia todos os demais países.
Este tipo de posicionamento (de que não cabe ao homem combater o aquecimento global) é fruto e resquício da construção do pensamento fundamentalista cristão do século XIX, e que continua vigente em grande parte do universo cristão protestante norte-americano, e que exerce influência no Brasil.

Vale lembrar que parte do pensamento fundamentalista do começo do século XX condenava alguns aspectos da ciência, principalmente na área das ciências naturais. É obvio que existem muitos outros pontos de debates (e polêmicas) sobre os impactos do pensamento fundamentalista na exploração dos recursos naturais. Tais resquícios continuam a exercer influencia sobre comunidades cristãs, muitas das quais compreendem a conservação do planeta como “algo que não deve ser o foco na fé cristã, pois não auxiliam a aumentar o número de almas no céu”. No entanto, não podemos deixar de ressaltar que há uma significativa porcentagem de cristãos envolvidos em causas de defesa da natureza, sendo os EUA o país onde há mais organizações cristãs focadas em desenvolvimento sustentável e conservação.

Johnny Bernardo. Há uma tendência – inclusive entre pentecostais – de não participação em políticas e campanhas de defesa do meio ambiente, sob a justificativa de que “Deus destruirá os céus e a terra”. São os mesmos que associam fenômenos naturais – a exemplo do furação Katrina, que devastou a cidade de Nova Orleans – à ira divina. À que podemos atribuir semelhante posicionamento?

Marcos Custódio. Creio que esta pergunta tem como resposta a questão dos resquícios do pensamento fundamentalista cristão, que teve início há 150 anos e que ganhou maior dimensão no começo do século XX. Infelizmente uma parte do pensamento fundamentalista cristão acaba colocando os cristãos numa situação de passividade e omissão com relação aos debates do desenvolvimento sustentável e do futuro da civilização humana. A construção do pensamento escatológico fundamentalista tem como um de seus pilares a ideia de que a “Terra será consumida pelo fogo”. Logo, por que temos que preservar o planeta se Deus irá destruí-lo? E se destruirmos a Terra com maior velocidade, não será mais rápido a volta de Jesus? Tal contribui para uma imagem negativa, desta parcela de cristãos, que acabam não se envolvendo no esforço de encontrar soluções para os grandes temas ambientais. O pensamento fundamentalista cristão precisa ser repaginado ou trabalhado para que sua incongruência entre o amor de Deus por sua criação, versus o Deus que destrói sua criação, seja “confrontada”.

Johnny Bernardo. Mesmo reconhecendo que os níveis de poluição e desmatamento possuem relação direta com a destruição da camada de Ozônio e a devastação de santuários ecológicos, crentes com mais escolaridade atribuem a Deus a responsabilidade pela manutenção da Terra. Como mudar posturas como esta, de descuido em relação à proteção da Terra? É possível estabelecer um diálogo?

Marcos Custódio. Como mudar a postura dos cristãos? Formando lideranças com maior engajamento em temas atuais. Lideranças que consigam manter os princípios básicos da fé cristã e, ao mesmo tempo, influenciar suas comunidades a assumirem posições mais efetivas com relação à transformação da nossa realidade. É necessário estabelecer discussões em seminários e faculdades teológicas sobre como apresentar às comunidades cristãs temas em discussão na sociedade, de forma que os futuros pastores e lideres consigam trabalhar com tais demandas sem deixar de lado as atividades de suas comunidades/igrejas. O mundo está cada vez mais complexo e, no entanto, a formação de lideranças ainda não incluiu toda esta complexidade, o que pode resultar em comunidades cristãs desconectadas da realidade. É preciso melhorar e ampliar a formação das lideranças cristãs.

Johnny Bernardo. Apesar da baixa participação de pentecostais em campanhas de conscientização ambiental, há alguns anos observamos no Protestantismo Histórico  um crescimento no interesse por temas como desmatamento, aquecimento global e sustentabilidade. Metodistas vem destacando-se neste quesito, inclusive com publicações e palestras ambientais. Compartilha desta observação?

Marcos Custódio. O Protestantismo Histórico está mais adiantado porque há mais tempo investe na formação e sensibilização de lideres sobre os grandes temas globais. Metodistas, luteranos e anglicanos têm ministrado cursos, seminários e palestras, e publicado materiais sobre meio ambiente e sustentabilidade há pelo menos vinte anos. Tal resulta em líderes com maior habilidade em falar sobre o cuidado com a criação e atuação em causas socioambientais. Batistas e presbiterianos estão atrasados na abordagem e apresentação de temas ambientais em seus locais de formação de líderes e nas comunidades. Vale ressaltar que os pentecostais têm como base o pensamento fundamentalista cristão, o que torna tudo mais difícil e lento. No entanto já é possível observar algumas mudanças.

Johnny Bernardo. A atuação do Papa Francisco vem sendo vista como um exemplo de responsabilidade ambiental e um modelo a ser seguido por outros líderes religiosos. A publicação da encíclica Laudato si’ foi saudada por ambientalistas por ser a primeira grande demonstração de preocupação ambiental da Igreja. Há movimento semelhante no Protestantismo mundial?

Marcos Custódio. Acompanhei com grande satisfação a publicação da Laudato si’ e creio que este documento terá grande impacto quando for estudado com maior profundidade e aplicado nos espaços de formação de lideranças católicas. É um texto feito para o futuro, onde será reconhecida a sua importância. A Laudato si’ foi o primeiro grande documento criado por uma importante denominação cristã. O documento revela a preocupação da Igreja com questões socioambientais. Os protestantes têm diversos textos desenvolvidos por teólogos como Schaeffer e John Stott, mas nenhuma igreja protestante publicou um documento que tivesse a mesma contundência ou amplitude que a Laudato si.

Johnny Bernardo. No Brasil, uma das grandes líderes evangélicas no campo ambiental é a acreana e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Pentecostal, Silva iniciou sua trajetória de defesa do meio ambiente ao lado de figuras históricas de peso, como Chico Mendes. O fato de ter sido ministra do Meio Ambiente e mentora da Rede Sustentabilidade a qualifica como exemplo de militância ambiental?

Marcos Custódio. Marina Silva é um ícone mundial quando o assunto é meio ambiente e sustentabilidade, mas  no Brasil ela não tem o mesmo reconhecimento. Marina abraçou a fé cristã na época em que era senadora pelo Acre. Logo, a sua  militância política e ambiental é anterior a sua jornada cristã. Apesar de todo seu compromisso cristão, prática cristã e de levar sua fé cristã em suas ações políticas, não é possível considerarmos Marina Silva como militante das questões ambientais dentro do universo cristão. De certa forma, sua militância política tem maior visibilidades no meio, do que sua militância socioambiental, sendo assim não temos nenhuma liderança cristã evangélica que seja uma referência neste tema. A inexistência de uma liderança ambientalista cria um grande vácuo.

Johnny Bernardo. As recentes mudanças no cenário político nacional têm tido como consequência o retrocesso em políticas ambientais, de proteção de reservas ambientais, na demarcação de terras indígenas e no enfraquecimento de ONGs e movimentos que lutam pela preservação do meio ambiente. A Rocha Brasil tem manifestado preocupação com as mudanças promovidas pelo governo federal?

Marcos Custódio. A Rocha Internacional (e assim toda família de organizações nacionais) tem uma diretriz de não se envolver  em debates de caráter político e político partidário. Trabalhamos em países onde o contexto político é complexo (por exemplo Quênia, Índia, Líbano) e isto pode trazer diversas consequências que estão muito longe do foco principal da organização que é o Cuidado da Criação de Deus. Não obstante, A Rocha participa e se envolve em debates em que decisões de governos/estados podem afetar diretamente o meio ambiente. A Rocha Brasil tem, não apenas preocupação, mas dentro do seu contexto e condições, agido para que algumas movimentações da gestão pública que afetam o meio ambiente sejam evitadas ou pelo menos questionadas. Somos uma organização de pequeno porte, porém buscamos desenvolver parcerias, buscar voluntários para que, numa soma de forças, possamos marcar presença e demonstrar que há forças contrárias aos movimentos de destruição do ecossistema.

Johnny Bernardo. A Rocha Brasil tem sido uma das poucas vozes dentro do movimento evangélico que desenvolve campanhas de conscientização ambiental – algo raro em um país que pouquíssimas organizações demonstram um real comprometimento com causas ambientais. Depois de alguns anos de atuação em igrejas evangélicas brasileiras A Rocha Brasil tem conseguido conscientizar os crentes?

Marcos Custódio. Sou um dos fundadores de A Rocha no Brasil, viajo por este país falando sobre o amor de Deus por sua criação desde 2003 e uma das grandes lições que aprendi é que “quem sensibiliza o coração do homem é o Espirito Santo”. Nossa missão é perseverar sendo a “voz que clama no deserto”. Seria fantástico ver milhares de igrejas adotando posturas sustentáveis, sendo exemplo de cuidado da criação. Após 14 anos de atuação no Brasil as dificuldades continuam enormes. Nos vemos como uma organização com perfil de semeador, buscando encontrar terra fértil. O mais importante é que há sementes dando frutos. Em 2018 A Rocha Brasil irá desenvolver projetos em conjunto com outras organizações cristãs para implantação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, além de que iremos inaugurar o nosso primeiro centro de pesquisas na região metropolitana do Rio de Janeiro.


Sobre o autor dessa entrevista

Johnny Bernardo é formado em Ciências Sociais e colaborador no blog Somos Progressitas.

Acompanhe nossas Entrevistas!

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s