Osmar Carvalho | Racismo é coisa de preto

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Osmar Carvalho. Imagem própria.

Para aquele que nasceu preto, pobre e com pouca sorte, saber que racismo é coisa de preto não é uma opção, mas uma questão de sobrevivência – desde a tenra infância. Se o negro (preto ou pardo) não descobrir por si só o peso da cor da sua pele e os perigos que ela representa para ele mesmo, outros com certeza o farão, na maioria das vezes de forma não dócil. Desde cedo, o cotidiano do negro é violento; a qualquer momento, e em qualquer lugar, ele pode cair em alguma armadilha de uma sociedade racista, seja por um mecanismo de racismo estrutural, seja por por meio do racismo institucional. Seguem relatos desse preto que vos escreve.

É coisa de preto: Ser confundido com ladrão enquanto procura seu primeiro emprego na adolescência. Lembro-me da cena, andando na calçada, sem dinheiro para comer, pegar condução ou tomar um copo d’água; de repente uma viatura com um homem branco e gordo dentro; olhar raivoso, ele salta do carro gritando: – Foi ele!, dizia o homem. Só olho assustado, não sei o que dizer, apenas digo que não sei de nada, resposta padrão. Lágrima de preto pobre não convence; fui levado à delegacia, acusado de arrombar um carro, ouvido e, depois de algum tempo, considerado inocente. Buzinar carro sempre foi coisa de branco. O acesso dos pretos a carros é coisa recente, e mesmo assim ainda correm o risco de ser confundidos com ladrão de automóveis pela polícia se estiver em um muito chavoso. Não sei como, mas sai dali. Rezei muito, acredito que houve intervenção divina.

É coisa de preto: Entrar em uma sala na Universidade, com cem alunos, e ser um de apenas dois alunos negros naquele ambiente branco e esbranquiçado. Quase duzentos olhos te olhando adentrar a sala como um objeto estranho é estarrecedor; as pernas tremem, o suor é frio, o desejo de achar um buraco para se enfiar dentro; olhei para o meu próprio corpo e me senti indigno de estar ali; reconheci-me na faxineira negra, senti-me representado, eu deveria estar com ela, limpando a sala; seria o comum, o normal, ninguém se sentiria ameaçado ou incomodado comigo, sequer me notariam; tem serviços que nos tornam invisíveis, como os garis nas ruas. É quase um convite: retire-se! Por outro lado, também é coisa de preto enfrentar essas situações de constrangimento racial, e eu não abaixaria minha cabeça, pois já era militante do movimento negro há uns dois anos. Vinha de várias lutas, muitas cicatrizes, manifestações, enfrentamentos: fui provado no fogo para aquele momento. Meu currículo ia a minha frente, entre os primeiros no vestibular, fui convidado a ser bolsista pela Universidade Metodista, por mérito acadêmico. Tinha orgulho de dizer que não pagava nada; era um tipo de vingança doce.

É coisa de preto: Ser perseguido por segurança no shopping. Às vezes, chamava um amigo da faculdade para ir comigo ao shopping Higienópolis, bairro nobre de São Paulo:

– Vamos ao Higienópolis, ser perseguido por seguranças e comprar um livro?

Até o convite do negro precisa ser meticuloso, explicado, pensado, uma espécie de aviso prévio: cuidado, indubitavelmente, seremos perseguidos por um segurança. Dito e feito! bastava botar o pé no recinto unanimemente branco e lá vinha o jagunço da elite branca. Um racismo institucional; parece até que eram instruídos e treinados para seguir pretos. Meu amigo se admirava da minha fala profética. Não, apenas experiência, anos de experiência. O serviço era completo: recepção, passeio e entrega; éramos levados até à porta do shopping. Passou o perigo preto; madames já podem soltar suas bolsas do aperto ao corpo; seus filhos já podem mexer no celular tranquilamente, sem precisar olhar para os lados.

É coisa de preto: Ser perseguido no supermercado. Esse é o racismo clássico, quem nunca? O que doeu foi ter que chamar o gerente e denunciar um irmão da minha cor. Senti-me um traidor, mas aquilo não podia passar impune. Não o vi mais lá depois de alguns dias. Não fui um monstro com ele, apenas sugeri à gerente que adotasse treinamentos que levassem à reflexão do racismo, como forma de evitar que isso se repetisse.

É coisa de preto: Ser morto. É um racismo estrutural. Segundo dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de cada 100 pessoas assassinadas, 71 são negros. A proporção de negros mortos é maior do que a proporção da população negra, que é de 54%. Os dados revelaram também que, de 2005 a 2015, o número de brancos assassinados caiu 12%, já o número de negros mortos aumentou 18%. Segundo matéria do UOL, entre janeiro de 2016 e março de 2017, cerca de 1.227 pessoas foram mortas pela polícia no Estado do Rio de Janeiro, a cada dez mortos, nove são negros ou pardos. Não é exagero o negro da periferia ter um sentimento que lhe é peculiar: sentir-se um defunto.

Os relatos acima são experiências minhas, selecionadas em fases diferentes da minha vida, mas com certeza são relatos de qualquer negro por ai, que não deixam dúvidas: racismo é coisa de preto, com certeza!


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é preto, engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

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