Editorial | O racismo que vem das igrejas evangélicas

felicino, sheherazade, malafaia 2
O pastor e deputado federal Marco Feliciano (esquerda), a jornalista Rachel  Sheherazade, e o pastor Silas Malafaia. Reprodução da internet.

“É coisa de preto, né!? Com certeza!”. O apresentador do Jornal da Globo, Willian Waack usou essas palavras para ofender um motorista que buzinava enquanto se ele preparava para entrevistar alguém, há um anos atrás, em um estúdio em frente à Casa Branca, durante a cobertura das eleições presidenciais dos Estados Unidos. Esse é um tipo de racismo direto, no qual não há sombra de dúvidas ou outras interpretações possíveis. É um crime indefensável contra uma coletividade. Porém, invertendo a lógica desse crime, seja inocentando o culpado, seja jogando a culpa em outras pessoas, seja minimizando o ato racista, seja culpando Deus, seja politizando o problema, líderes evangélicos – como o pastor Silas Malafaia, a jornalista Rachel Sheherazade e o pastor e deputado federal  Marco Feliciano – mostraram uma face ainda mais obscura do racismo: o racismo velado que vem das igrejas evangélicas.

Ao contrário do que se costuma imaginar, o racismo não está só na anormalidade, mas em todos lugares onde contextos de desigualdade sócio-racial foram instaurados e mantidos (racismo estrutural), como o elevado número de mortes de negros pela policia (cerca de 80%), a pequena quantidade de negros na universidade (cerca de 10%), o encarceramento em massa de negros nos presídios (cerca de 70%), etc; ou seja, não é preciso agressão verbal ou física contra o negro para se configurar o racismo, ele está nas normalidades cotidianas. O racismo está na normalidade com que esses contextos são tratados, como consequência do livre mercado, da meritocracia, da democracia, não como decorrentes da omissão do Estado e do mercado em criar políticas voltadas para o combate e redução dessas diferenças (racismo institucional).

É preciso distinguir racismo de injúria racial, embora ambos sejam passíveis de responsabilidade penal. Agressões verbais que ofendem a honra, a dignidade ou decoro do indivíduo, em função da cor da pele, raça etnia, origem ou condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência, são enquadrados no Código Penal brasileiro, artigo 140, parágrafo 3º, como injúria racial. A pena é de reclusão de um a três anos e multa, além da pena correspondente à violência cometida. Por outro lado, o crime de racismo, previsto na Lei nº 7.716/1989,  configura discriminação contra um coletivo de indivíduos, tem alcance mais abrangente, como fazer apologia ao racismo contra judeus, negros e nordestinos, recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, igrejas,  promover a desigualdade de emprego em empresa privada, entre outros. Diferente da injúria racial, que é um crime considerado mais brando, o crime de racismo é inafiançável e imprescritível, segundo determina o artigo 5º da Constituição Federal.

Feitas as devidas considerações sobre racismo e injúria racial, podemos analisar as falas de Waack, Malafaia, Sheherazade e Feliciano de modo mais justo, sem incorrer em julgamentos tendenciosos. Além dessa distinção, podemos ser ainda mais justos na análise se lançarmos mão de outras ferramentas, como a retórica e a lógica.

Malafaia, pastor e líder da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, disse o seguinte em uma rede social:

malafaia racismo

A concepção aristotélica clássica de lógica, muito utilizada ainda hoje, pode ajudar a analisar o argumento de Malafaia e mostrar seus apelos retóricos para amenizar o racismo contra os negros praticado por Waack. A lógica clássica é dividida em seis partes: ideia ou conceito, termo, juízo, proposição, raciocínio e argumento. Segundo Aristóteles, um conceito ou ideia é a primeira impressão da realidade, mas sem nenhum julgamento a respeito dela. Nesse primeiro ato racional, porém, são apreendidas características essenciais do objeto que se vê, o suficiente para distingui-lo de outros objetos de natureza distinta. Passada essa fase, vem a fase do termo, da nomeação dos objetos observados: dizemos o que percebemos, damos nome à ideia. Vem então a fase do juízo, atividade mental pela qual afirmamos ou negamos algo sobre o objeto observado. A proposição é um estágio avançado do raciocínio lógico: relacionamos um sujeito e um predicado através de um verbo de ligação, por exemplo: “Pretos (sujeito) são (verbo de ligação) uns merdas que buzinam alto! (predicado)”. Basta vir até aqui para provar que a fala de Waack não pode ser comparada a uma brincadeira ingênua e não criminosa. Um homem com uma formação como a dele, de elite intelectual, premiado jornalista, douto em diversas ciências e âncora de um jornal com entrada nas camadas mais nobres da sociedade, não poderia cometer um erro tão óbvio como esse de forma involuntária. Pelo contrário, o xingamento que precede a proposição, o olhar irônico para o amigo que o acompanha e o sorriso sarcástico no final deixam claro que foi algo previamente observado, analisado, afirmado e então falado. Supondo que tenha sido algo involuntário, ainda assim seria racismo, pois a lei a ninguém tem por inocente pelo simples fato de alegar desconhecimento dela.

Não obstante, Malafaia recorre ao argumento falacioso para defender sua tese. Falácias são argumentos falsos, que induzem ao erro, cuja intenção é persuadir o ouvinte a acreditar que a afirmação feita é verdadeira. É um argumento carregado de apelo emocional e psicológico, em detrimento da razão e da lógica. Dentre as várias falácias que ele utiliza está a Tu Quoque (Você Também), que consiste no argumento “mas você também”. Ela ocorre quando uma ação se torna aceitável porque o ouvinte ou outra pessoa também a cometeu.

Exemplo:
“Você está sendo racista.”
“E daí? Quem nunca foi?”

Malafaia tenta defender o racismo de Waack dizendo “quem nunca fez uma brincadeira de mau gosto?”, ou seja, quem nunca foi racista em uma brincadeira? Normal.

Ao citar as palavras de Jesus, “atire a primeira pedra”, Malafaia também usa o Argumentum ad Baculum (Apelo à Força), em que algum tipo de privilégio, força, poder ou ameaça é utilizado para impor a aceitação da conclusão.

Exemplo: “Não importa o que ele faz com o dinheiro, ele é um ungido de Deus.”

Por fim, Malafaia usa o famoso Argumentum ad Hominem (Ataque ao Argumentador). Nesse tipo de falácia, em vez de o argumentador provar a falsidade do discurso, ele parte para ataques pessoais, a fim de desqualificar o argumentador.

Exemplo:

“Não levem a sério a acusação de racismo, pois os acusadores são hipócritas, demagogos e fariseus.”

A fala de Sheherazade, batizada na igreja Batista, sobre o racismo de Waack também é carregada de falácias a favor do jornalista:

raquel racismo

Falácia do homem de palha: Consiste em atribuir falsas idéias ao oponente ou tentar manipular a opinião do ouvinte com a defesa de um ponto de vista reprovável ou fraco.

“Um dos jornalistas mais brilhantes da TV brasileira foi o último alvo dos fundamentalistas da moral seletiva.”

Afastar Waack do Jornal da Globo não foi ideia dos fundamentalistas, mas uma ação da Rede Globo, que emitiu nota dizendo ser “visceralmente contra o racismo em todas as suas formas e manifestações“.

Ela continua, usando o Argumentum ad Hominem para menosprezar todos que foram contra a fala racista:

“Caiu na armadilha pérfida dos coleguinhas invejosos, esquerdistas acéfalos e medíocres de todas as nuances. O “hipocritamente correto” venceu mais uma vez. Feriu de morte o brilhante Paulo Francis, atropelou Boris Casoy, trapaceou Reinaldo Azevedo e agora condenou à execração pública William Waack. E o jornalismo brasileiro fica a poucos passos da total acefalia.”

E termina com uma falsa verdade:

#semWaacknãodá

Não, Sheherazade, com racismo é que não dá!

Valendo-se do Argumentum ad Baculum, em uma rede social, Feliciano, pastor da Assembleia de Deus, usou uma linha teológica que defende que africanos são descendentes de Cão, o filho amaldiçoado de Noé,  para responder por que tanta coisa ruim vinha do continente africano, ou seja não deveríamos questionar os males da África, causados por invasões e saqueamentos da Europa branca, nem suas misérias, pois tudo seria uma determinação divina.

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As igrejas evangélicas são omissas quando se trata de discutir o racismo. Esses (maus) exemplos deixam claro isso. Em vez de seriedade no tratamento, chacota com os que sofrem o racismo; em vez de discussão sobre o caso Waack, ataque aos que o denunciaram; em vez de repudiar veementemente o ato racista, tentativas torpes de suavizá-lo; em vez de no mínimo chamá-lo pelo nome de racismo, chamaram-no de “brincadeira”, “hipocrisia”, “demagogia”,”armadilha pérfida” de gente mal intencionada. O racismo velado distorce a lógica e deturpa a razão, pois não responsabiliza o criminoso, nem reconhece o racismo, nem mesmo o chama pelo nome.

Os argumentos citados acima revelam as piores formas veladas de racismo, pois vêm em forma de teses aparentemente bem elaboradas, de falas dóceis, de suposta tentativa de corrigir uma injustiça feita a alguém, de invocação divina, por meio de homens brancos, que muitas vezes se colocam como porta-vozes de Deus e do seu povo, inerrantes e inquestionáveis pelos fiéis ou por quem quer que seja. Líderes que deveriam ser os primeiros a levantar a voz e denunciar esses atos injustos e condenáveis. Mas o que mais preocupa é o silêncio dos inocentes: nenhuma manifestação contras essas falas, nenhuma faixa de protesto nas igrejas, nenhuma nota de repúdio das igrejas. Nada! Tudo corre normalmente no cotidiano das igrejas evangélicas.

Deveras, o racismo está na normalidade!

Acompanhe nossos Editoriais!

 

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