Osmar Carvalho | As historinhas que meu pai contava e o sonho de Sartre

“Formei tantos princípios e criei tantas “verdades” sem nunca ter lido um livro na vida.”

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Jean Paul Sartre. Foto: Milner Moshe, editada. Licença: CC BY-NC-SA 2.0.

Hoje me dei conta de que há tantas coisas que acreditava e já não acredito mais. Tantas pseudo-morais, pré-conceitos e princípios pelos quais eu estava disposto a morrer para defendê-los. E por que os abandonei? O ser humano não é uma ciência exata, é um ser flexível e inconstante.

Tudo bem, disso todo mundo já sabe. Mas o que quero é dar ênfase ao modo como os adquiri.

Como é sabido de qualquer um que já tenha estudado o mínimo de psicologia, ou seja um pedagogo, ou até mesmo assista a um desses programas de televisão qualquer, a principal fase de formação da personalidade do indivíduo se dá na infância. Muito do que aprendi foi dentro de casa ou com amigos na rua (que é quase uma casa).

Em casa eu ouvia do meu pai, um desses nordestinos afoitos, as histórias dos heróis do agreste – lampião e outros – e os “conceitos” de como devia ser um homem ideal, na visão de lá, é claro. Ele se esforçava pra contar com entusiasmo tais histórias e todo dia as contava – ainda conta até hoje. Era o que ele podia me ensinar, haja vista sua quase nada leitura. Ele queria que fôssemos homens, seres sociais, nesse sentido – rude, duro, irredutível. E ele é assim até hoje, não muda suas opiniões.

Nas ruas do meu bairro não era diferente. Amigos de escola pública, onde pouco se aprende, e de pouca visão de mundo. Só havia botecos na minha rua, e o candomblé, é claro. Hoje imperam as igrejas evangélicas, principalmente as neopentecostais.

A minha politização nessa fase foi fácil, com três palavras me formaram um crítico ferrenho e convicto das minhas opiniões: “político é tudo ladrão”. Fizeram-me pensar que sabia mesmo das variáveis da vida, e que estava apto a julgá-las, em suas mais variadas formas: amor, amizade, justiça, sociedade, política, etc.

Formei tantos princípios e criei tantas “verdades” sem nunca ter lido um livro na vida. Pude desconstruir muitos deles depois, conforme ia tendo acesso aos livros e ao curso superior, na Universidade.

Quanta ignorância!

Enfim, cheguei às seguintes conclusões:

1 – Só a sabedoria popular não forma um cidadão necessário para a sociedade.
2 – A formação de grande parte do indivíduo se dá na sua infância, mas ele deve estar pronto para se refazer a qualquer momento, a se esvaziar, para que possa se preencher daquilo que realmente é necessário.

Esse era o sonho de Sartre: a reconstrução do homem por ele mesmo.


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

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