Osmar Carvalho | Progressista poser: o novo fenômeno em exposição


“Tudo isso me lembra as cenas do Estado Islâmico destruindo artes seculares e galerias inteiras na Síria, por as considerar profanas. O que falta para isso acontecer aqui?”

Menina interage com homem nu, em performance na exposição do MAM (2)
Menina interage com homem nu, em performance na exposição do MAM. Imagem: Reprodução da internet.

Quando até progressistas concordam com o Movimento Brasil Livre (MBL), que a exposição do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) não é arte, é porque a coisa está feia mesmo. Tempos sombrios como nunca vi antes, nem pensei em viver, ainda mais na cosmopolita São Paulo. Progressista conservador? Progressista poser!

Alguns até argumentam que é opinião e tal…tudo bem. Mas uma opinião que contraria a democracia e a liberdade de expressão não é inteligente. Outros condenam por fazer apologia à pedofilia.

Após análise, o próprio Ministério Público (MP) considerou a exposição Queermuseu –  fechada pelo Santander Cultural em Porto Alegre/RS, após protestos de grupos e políticos de extrema-direita, como MBL e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC/RJ) – legal. Os protestos acusaram a exposição de pedofilia e zoofilia, entre outros crimes.

O MP inclusive recomendou a reabertura da Queermuseu, censurada pelo Santander, e ainda fez uma advertência: esse tipo de censura nos remete a tempos de trevas, onde direitos civis foram retirados. A exposição deveria retornar para o bem da democracia. Segundo o procurador da República Fabiano de Moraes, procurador regional dos Direitos do Cidadão, o fechamento de uma exposição artística “causa um efeito deletério a toda liberdade de expressão artística, trazendo à memória situações perigosas da história da humanidade, como os episódios de destruição de obras na Alemanha durante o período de governo nazista”, como informou o site G1.

A comunidade acadêmica e artística também saiu em defesa das exposições, expondo os achismos das pessoas, e o medo advindo do senso comum, explorado por politiqueiros oportunistas.

A comunidade internacional condenou a censura, cobrando do Brasil a defesa da democracia e da liberdade de expressão. Segundo informou o Estadão, o evento nomeado de NY Loves Queermuseu, projetou algumas das 250 obras da exposição na fachada do New Museum, do Whitney Museum of American Art e do Bushwick Museum, em Nova Iorque, Estados Unidos. Um slide com o a frase Brazil, the world is watching (Brasil, o mundo está vendo), foi projetada e folhetos explicando a censura foram distribuídos por Cibele Vieira, uma das artistas da exposição.

No Bushwick Museum, muros do bairro de Brooklin também exibiram projeções das obras, com slides Ditadura Nunca Mais e NY Loves Querrmuseum.

O curador da exposição do MAM – novo alvo de intolerantes, por causa da mostra 35º Panorama de Arte Brasileira, mais especificamente pela performance  “La Bête”, em que um homem nu interage com os visitantes – defendeu o MAM  da acusação de pedofilia pela interação de uma criança com o artista nu. Segundo Felipe Chaimovic, não havia conteúdo erótico na performance: “O nu está em todos os museus do mundo e não deveria causar choque”

Isso de censura à arte é uma coisa nova para essa geração, e embalada por esses grupos e representantes de extrema-direita. Triste é ver que as pessoas estão aderindo a isso, até progressistas. É a primeira vez na minha vida que vejo um movimento tão violento e retrógrado contra a arte e a liberdade de expressão.

Ao contrário da arte, o ódio é facilmente disseminado e massificado em um país com desigualdades sociais gritantes, com baixo nível cultural e com pessoas de pouco poder econômico, como é o nosso. A arte é cara  e desinteressante quando não se tem a cultura necessária para acompanhá-la. A arte exige cultura de primeira linha; o ódio aceita qualquer discurso falacioso, alimenta-se dele.

Tudo isso me lembra as cenas do Estado Islâmico destruindo artes seculares e galerias inteiras na Síria, por as considerar profanas. O que falta para isso acontecer aqui?

Respeitadas as classificações etárias, e sob a égide dos pais, acho saudável levar os filhos a exposições com nu sim. É uma cultura rica, elitizada e seletiva, a qual o pobre sequer tem acesso, pelo menos em São Paulo. Ainda é um privilégio, infelizmente.

Eu não me iludo, essas pessoas que estão lá na frente do MAM protestando contra a exposição são as mesmas falso-moralistas hipócritas da sociedade paulista de sempre. Não é o povo. São as mesmas pessoas que marginalizam crianças no farol, que culpam as meninas grávidas precocemente nas favelas, que nunca visitaram um órfão, que apoiam a redução da maioridade penal, que são contra a distribuição de renda, que apoiam Bolsonaro, que são contra programas sociais, enfim…não estão a serviço de Jesus.

Por fim, uma opinião que contrarie tudo isso não pode ser levada a cabo, muito menos ser considerada sensata. No mínimo deve ser considerada extremismo e intolerância. Uma opinião progressista-conservadora é uma falácia ideológica.


*Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante

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