Meus 3 dias como um excluído e censurado pelo Facebook, por postar uma obra de Michelangelo


*Por Osmar Carvalho

“Caí da graça da democracia, direto para um inferno chamado censura. Lá não existe voz, apelo, instâncias superiores, liberdade de expressão. Não há a quem recorrer.”

osmar
Osmar Carvalho. Foto própria.

Aristóteles disse que o “homem é um animal político, destinado a viver em sociedade”, ou seja, dessas duas premissas deduzimos algumas conclusões: temos necessidade de estar junto, de pertencer, de fazer parte; também é próprio do Homem debater, refletir, dialogar. A censura tem o poder devastador de não só anular todas essas necessidades humanas – sociais e cognitivas -, como também o de torturar e levar à loucura. Foi assim que me senti, após o Facebook me censurar e sentenciar a uma pena de três dias de exclusão da rede social e do messenger – seu aplicativo de mensagens – , por ter publicado uma imagem de um quadro atribuído a Michelangelo.

O post, publicado na página do Ativismo Protestante, era uma crítica ao encerramento da exposição LGBT no banco Santander, após forte pressão de movimentos conservadores e de extrema direita, como o MBL. O título do post era “Michelangelo zoófilo continua valendo né? “

Embora pareça redunjdância, é necessário dizer que a censura é uma imposição, seja por força de lei, seja por decisão arbitrária. No caso do Facebook, ela se dá por uma decisão arbitrária (e injusta), que parece ser a pior forma de imputar culpa a alguém.

A decisao é arbitrária, pois é tomada por apenas uma das partes envolvidas, o próprio Facebook; é injusta, pois não dá direito de resposta, sequer um aviso prévio. De repente você tenta acessar seu perfil e aparece uma mensagem dizendo que está temporariamente proibido de usar os recursos disponíveis, por ter postado algo que contraria os “padrões da comunidade”.

A exclusão é feita mediante denúncia anônima, podendo durar horas, dias e até resultar na exclusão permanente do infrator. Também é irreversível, segundo o próprio Facebook.

Nas diretrizes de Zuckerberg consta que seus funcionários entrarão em contato com você, para saber das razões do seu conteúdo ter violado as normas; mas também consta que há apenas uma pequena chance do microblog responder seu apelo e reavaliar a decisão tomada. Eu não tive essa sorte até agora. Minha sentença termina hoje.

Fui julgado e condenado, porque os analistas do Facebook consideraram que o quadro continha nudez. Porém, segui o trecho de sua política sobre nudez, segundo o qual é proibido fotos que exibam órgãos genitais, ou com foco em bunda, e seios mostrando mamilo, mas é permitido nu artístico, como quadros e esculturas. A foto é uma obra muita conhecida no mundo todo – Leda e o Cisne.

Como informou o site do Ativismo Protestante: “A gravura, pintada por Cornelis Bos, é um quadro que retrata uma mitologia grega, na qual Zeus é atraído por uma bela princesa, casada com um herdeiro de Esparta. Com medo de assustar a jovem com sua imagem gloriosa de Deus onipotente, Zeus se transforma em um exuberante cisne, para se aproximar discretamente dela e conseguir seduzi-la. Os dois se entrelaçam amorosamente e Leda dá à luz filhos. A cena tem diversas versões em forma de quadro, inclusive uma de Leonardo da Vinci. A imagem também é de domínio público, ou seja, não foram infringidos direitos autorais.

Leda e o Cisne, de Cornelis Bos. Disponível em: http://www.metmuseum.org/art/collection/search/364519. Domínio público.

Desde segunda feira (11), quando comecei a cumprir minha pena, fiquei péssimo, somente com essa sensação de viver um curto tempo censurado. Uma das piores experiências que já vivi. O coração bateu acelerado, insônia, reflexão sobre essa nova realidade. Nem nos meus piores pesadelos imaginei que fosse vivenciar isso; achava que era coisa de ditadura, não de século XXI.

Caí da graça da democracia, direto para um inferno chamado censura. Lá não existe voz, apelo, instâncias superiores, liberdade de expressão. Não há a quem recorrer; senta e espera o tempo passar. A intolerância reina sobre um trono, ri como a hiena e tem orgasmos com o seu sofrimento.

A censura tira seu direito de participar, de ser politizado; desumaniza, transforma em coisa; inanimado, sem vida. Coloca a culpa em você, quando o erro é dela.

O lado bom? Sai dessa mar de trevas fisicamente mais forte, capaz de suportar esse tipo cruel de tortura; cognitivamente mais apto a discorrer sobre violação de Direitos Humanos; e ideologicamente mais convicto: sou progressista, preciso lutar por isso – nem que me matem.

A liberdade ainda tem um alto preço a ser pago. Quem quiser ser livre de fato, terá que estar preparado para tudo, até para sofrer tortura.

Fui ao inferno e voltei; ressuscitei ao quarto dia.

Trago boas novas: é possível vencer a intolerância e a morte, sua emissária.


*Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante

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Um comentário

  1. […] Após ser censurado pelo Facebook – com pena de exclusão da imagem, três dias de banimento da rede social e do messenger, seu aplicativo de mensagens, por postar uma obra de Michelangelo – , decidi fazer um teste: entrei em algumas páginas de direita e denunciei imagens e vídeos com nudez e sexo explícito, para ver se há justiça e imparcialidade nessas exclusões sumárias. Entre as páginas estão: Movimento Brasil Livre (BML), Senador Magno Malta, Mamãe Falei e The Noite com Danilo Gentili. […]

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