Entrevista | Valéria Cristina Vilhena: Doutora em Educação e História Cultural, evangélica e feminista


“De minha vida presente sinto orgulho pela gana que tenho de tentar ser uma pessoa melhor diariamente e, nisso, o feminismo, ou meu ativismo feminista, colabora imensamente, mas claro que não me entendo como gente a partir de definições, penso que a coisa é mais ampla”

valeria cristina
Dra. Valéria Cristina Vilhena. Foto: Divulgação, editada.

Há alguns meses trouxemos aqui, no Somos Progressistas, uma entrevista com Ariovaldo Ramos, por meio da qual estabelecemos algumas discussões sobre a ameaça ao Estado Democrático de Direito com a destituição de uma presidenta eleita por mais de 50 milhões de brasileiros e os embates entre conservadorismo e progressismo. Há época dissemos que daríamos continuidade ao projeto de entrevistas com lideranças progressistas. Nesta entrevista conversaremos um pouco com Valéria Cristina Vilhena que é professora, palestrante, doutora em Educação e História Cultural, mestre em Ciências da Religião, pesquisadora da biografia de Frida Strandberg, autora do livro Uma Igreja sem Voz, uma das fundadoras da EIG – Evangélicas pela Igualdade de Gênero, e mãe do Gustavo.

Valéria Vilhena ficou conhecida pelos evangélicos e a grande mídia após a divulgação da constatação de que “40% das mulheres vítimas de violência doméstica são evangélicas”. A pesquisa viralizou na web e chegou ao UOL. Na entrevista ao site, Vilhena foi enfática ao declarar que “quando a Igreja não discute gênero, ela nega direitos humanos”. A declaração pegou de surpresa líderes evangélicos conservadores, com consequentes declarações em redes sociais e blogs contrários à pesquisadora. “Contra dados não há argumentos”, lembra a entrevistada em uma declaração direta a quem se posiciona contrário à pesquisa e constatação. Desde o último dia 15 de janeiro Vilhena integra o fórum de discussões no Facebook, Cristãos Progressistas. Aproveitamos o contato para marcarmos uma conversa sobre sua atuação junto às Evangélicas Feministas pela Igualdade de Gênero.

Além de uma conversa sobre as Evangélicas Feministas pela Igualdade de Gênero, também tecemos alguns pontos sobre os desafios do movimento evangélico progressista brasileiro, os avanços do conservadorismo extremista e a destituição da presidenta Dilma Rousseff por uma comitiva de lideranças masculinas. Vilhena diz que “Dilma foi ridicularizada por ser mulher”. Acompanhe.

Johnny Bernardo – Hoje há mais pessoas que se declaram “progressistas” do que há algumas décadas. Até mesmo falar de temas ligados a sexo e sexualidade era visto como tabu no meio evangélico. Ocorreram algumas mudanças de lá para cá, como a liberalização de usos e costumes em algumas denominações, o ingresso de mulheres no ministério, terapeutas e pastores passaram a falar abertamente sobre sexo e sexualidade, mas temas como aborto, regulamentação do uso recreativo da maconha, maioridade penal, punitivismo, pesquisas com células-tronco embrionárias e igualdade de gêneros encontram forte resistência no meio evangélico. Com passado evangélico pentecostal e hoje feminista convicta, qual é a sua percepção da atual conjuntura conservadora evangélica? É possível superar a barreira conservadora de uma pequena minoria de ativistas?

Valéria Vilhena – Sabe, quando falamos das questões de gênero não faz muita diferença termos mais pessoas se declarando “progressistas” no meio evangélico, quero dizer, isso é bom, mas não é o suficiente. Porque não basta falarmos apenas de sexo e sexualidade, achar que porque “falamos”, estamos automaticamente quebramos tabus. Não. Discutirmos sobre essas temáticas é um bom começo, mas não basta apenas falarmos: é preciso ouvir também. Somente então haverá diálogo. A partir do diálogo, ou seja, falar e ouvir, no sentido de uma escuta de empatia é que começamos a compreender o outro e a nós mesmos, nossos limites, potencialidades e também nossas mazelas.

Você pontuou como mudanças a liberalização dos usos e costumes. Vamos lembrar aqui que é mais fortemente cobrado às mulheres, a coisa da vaidade e da sensualidade são mais reprimidas para as mulheres, isto porque somos as “culpadas”. Se somos mais cobradas é porque somos mais culpadas. Uma violência simbólica perpetrada a todas as mulheres desde “Eva, a culpada”. A liberação de vestimentas, corte de cabelo, uso de joias e bijuterias, acessórios em geral (tenho até uma história engraçada sobre isso, pois sou dessa época, ou melhor, uma desobediente dessa época ou desde essa época). Em uma mudança de pastor da nossa congregação, o novo dirigente trouxe uma rigidez maior nesse âmbito de usos e costumes, inclusive com uma tal cartilha na época vinda da matriz. O pastor decidiu obedecer, assim como sua família. Um dia sua filha, uma jovem adolescente como eu, me questionou: “sabe, esse cinto grosso que você está usando?” Respondi: “sim, sei, mas o que tem ele?” Ela continuou: “sabe onde ele é fabricado?”. Ela respondeu, de forma fanática: “no inferno”.

Não pude me conter e comecei a rir, e afirmei que não, de jeito nenhum, porque eu havia adquirido direto de uma loja de fábrica no Brás. Bom, o que estou querendo dizer é que essa liberação, que foi feita não sem resistências, mas a partir de novas leituras bíblicas, foram feitas porque muita gente não obedecia, eles, os líderes só tinham mais controle nas igrejas mais empobrecidas, em bairros marginais. A liderança religiosa – faço o recorte entre os evangélicos pentecostais, por ser minha raiz – agirá sempre dessa forma. Portanto, estou convicta de que os pentecostais são mais flexíveis teologicamente do que os demais protestantes e, ao contrário do que muitas vezes vemos, não são os mais resistentes. São os que menos buscam conhecimento e por isso mudam menos ou mais vagarosamente. Não incentivar o conhecimento, inclusive o conhecimento teológico, e também o conhecimento histórico, e o que é de fato o feminismo faz com que haja mais controle sobre os fiéis.

Johnny Bernardo – E sobre o ingresso de mulheres no ministério….

Valéria Vilhena – Sobre o ingresso de mulheres no ministério também tenho minhas dúvidas. Quando ocorre são em igrejas pequenas, novas na maioria das vezes. O que estou tentando dizer é que as coisas mudaram pouco na igreja, porque a igreja é também um reflexo da sociedade, e a sociedade nas questões de gênero também não mudou muito. Devido a pequenas, mas significativas mudanças que obtivemos, acabamos adquirindo essa mesma sensação de avanço na sociedade como um todo, mas está aí o golpe e todo o retrocesso que ele representa para não me fazer mentir; sem dizer as redes sociais que nada mais são do que a ampliação do microfone para vozes e vozes que sempre estiveram aí. E isso encaixa no que você mesmo disse de que temas como “aborto, regulamentação do uso recreativo da maconha, maioridade penal, punitivismo, pesquisas com células-tronco embrionárias e igualdade de gêneros encontram forte resistência no meio evangélico”.

Para concluir essa sua questão diria que, a partir de meu passado, que você nomeou de “passado evangélico pentecostal” e de minha vida presente que você nomeou de “feminista convicta”, não sei se era, mas fiquei lisonjeada com ambas definições, porque da minha experiência pentecostal tenho boas lembranças; e de minha vida presente sinto orgulho pela gana que tenho de tentar ser uma pessoa melhor diariamente e, nisso, o feminismo, ou meu ativismo feminista, colabora imensamente, mas claro que não me entendo como gente a partir de definições, penso que a coisa é mais ampla. Voltando à questão, a percepção conjuntural é de que a fatia conservadora evangélica mudará à medida que o conhecimento chegar aos fiéis, quando os crentes perceberem, tomarem consciência de que precisam saber. Não somente a Igreja, mas toda a sociedade ganhará com esse avanço.

Johnny Bernardo – Será realmente um grande avanço…

Valéria Vilhena – Toda mudança que você citou como avanço não quer dizer que não foi, só não foi suficiente, ou seja, a caminhada ainda é longa. Quando, por exemplo, falamos sobre as questões de gênero, que tem em seu bojo embutidas as discussões que já observamos enfrentam resistências, veio porque houve uma transformação social. A Igreja, o povo crente tem dificuldade, pela falta de conhecimento e excesso de medo e culpa (todos intencionais nos mecanismos de controle das lideranças) em reconhecer as mudanças a partir das alterações sociais. A sociedade muda, a Igreja muda também, mesmo que mais vagarosamente. O que era pecado há trinta, quarenta anos atrás não é mais, como cortar cabelo e usar calças compridas, para citar o que você mencionou na questão.

Johnny Bernardo – Há uma percepção de que o movimento progressista está criando raízes e estrutura no movimento evangélico. Lideranças como Ariovaldo Ramos, Ed. René Kivitz, Hermes C. Fernandes, António Carlos e Ricardo Gondim tem estabelecido diálogos fraternos dentro de suas denominações e nos meios de comunicação seculares e cristãos. Não é mais apenas um movimento de teólogos, mas uma rede de cristãos progressistas que atuam em inúmeras frentes. Neste sentido, o surgimento de movimentos como as Evangélicas pela Igualdade de Gênero, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e os Cristãos Progressistas são evidências de que o movimento está de fato se consolidando no meio evangélico? Sua atuação na EIG vem neste sentido, ou seja, de dar sua contribuição ao estabelecimento de grupos de diálogos sobre a importância da igualdade de gêneros?

Valéria Vilhena – Mesmo reconhecendo que somos minoria, que ainda temos muito que caminhar, e de que poucas mudanças foram feitas, especialmente nas questões de gênero, tenho esperança e vejo com bons olhos toda ação que vem contestar às estruturas conservadoras machistas, patriarcais, colonialistas, escravocratas, classistas arraigadas em nossa sociedade e muitas vezes reproduzidas e sacralizadas nas igrejas. Quero estar próxima desses movimentos progressistas, dessas lideranças que enfim estão descendo dos muros e construindo pontes. Mas gostaria de falar um pouco sobre a EIG. A EIG é o movimento de mulheres que nasce dentro do Fórum Pentecostal Latino Caribenho (FPLC), em 2015. Não é um movimento que atua diretamente nas igrejas, enquanto um movimento institucional, mas antes são mulheres, que de forma individual ou em coletivos de mulheres têm atuado em suas igrejas locais, mas, sobretudo a partir de suas experiências de vida.

A EIG recebeu apoio ao nascer, mas as mulheres que atualmente militam não encontram apoio suficiente para continuarem atuando como parte de um movimento em suas igrejas. Nem mesmo a partir das lideranças presentes no Fórum. Isso se dá, segundo minha leitura, pelo momento que a nação passa e, especialmente, naquela ocasião (2015) em que “gênero” virou sinônimo de “ideologia de gênero” violentamente combatida, a partir da bancada evangélica e essa com força de influência para disseminar nas igrejas o ódio ou aversão às questões de gênero.

O feminismo foi substituído ou melhor se colocou ao lado do comunismo a ser combatido. Comunismo e feminismo, por falta de conhecimento dos fiéis, passam a ser o “inimigo construído e combatido, em nome de Deus”. Mais um mecanismo de poder e controle das grandes lideranças. A EIG atua especialmente a partir de meu ativismo e mai espaços de contestação à violência de gênero, do que onde deveria atuar – nas igrejas, porque “tais progressistas” como você afirma ainda estão criando raízes e estruturas de atuação e a resistência é grande, mas são progressistas corajosos.

Johnny Bernardo – Sua pesquisa e consequente descoberta de que “40% das mulheres que sofrem de violência doméstica são evangélicas” teve grande repercussão em sites evangélicos e chegou ao portal UOL. Um ativista conhecido por sua posição extremista e que atua a partir de um blog recentemente acusou os meios de comunicação evangélicos por supostamente terem contribuído com a viralização de sua pesquisa – a qual chama de “tendenciosa”. A atitude deste e de outros extremistas parece demonstrar que sua pesquisa está no caminho certo, ou seja, demonstra que a violência – física e simbólica – é uma prática recorrente nas atitudes e opiniões de alguns conservadores. Outros líderes, como Ariovaldo Ramos e Ricardo Gondim também são frequentemente criticados em suas postagens. Como reagir diante de tamanha violência extremista?

Valéria Vilhena – Como reagir? Reajo dando continuidade ao meu trabalho, com firmeza, seriedade, profissionalismo e um toque de coragem. Penso que as pessoas citadas reagem assim também. Nem todos os dias estamos bem. Ao menos eu. Tem dias que penso: nossa, meu trabalho não é nem de formiguinha, é nano, isto é, de dimensão muito, mas muito reduzida e, muitas vezes custando muito caro à minha vida pessoal. Aí penso em parar, mas o máximo que consigo é não me envolver por alguns dias e quando vejo já estou atolada de novo (risos), porque as desigualdades me incomodam me diz respeito enquanto ser humano. E os xingamentos, os desejos de morte, as ameaças (em nome de Deus ou de uma ortodoxia teológica) que recebo é que são pequenos, porque nossa atuação permanecerá, e o que pode ocorrer é que não vivenciaremos, assim como muitas mulheres que lutaram antes de mim por direitos, ao voto por exemplo, não chegaram a votar, mas eu voto.

Em relação ao extremista que você citou, bem como o site gospel que primeiro divulgou a notícia, tornaram-se equivocados pela base, ou seja, um programa de entrevista televisivo gospel que divulgou que “uma pesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie afirmava que 40% das mulheres evangélicas sofriam violência doméstica”. Bom, isso viralizou e esse extremista não gostou por quê? Contra dados não há argumentos, diz o ditado. Mas não é essa a questão que quero salientar. Primeiro é preciso falar que quem primeiro divulgou como sendo uma pesquisa do Mackenzie não quis dar crédito à pesquisadora por ser mulher? Citou trechos do meu livro e não citou a fonte por quê? É preciso seriedade. Depois há um equívoco com a própria interpretação da pesquisa. Minha pesquisa revela que quase 40% das mulheres atendidas na Casa Sofia, campo da pesquisa, se declaravam evangélicas. A verdade é que se cruzarmos os dados com outras pesquisas da área da violência contra mulheres, especificamente a violência doméstica, o número poderá ser maior. É a verdade. A pesquisa é uma amostragem dentro de uma realidade social ainda mais cruel.

Johnny Bernardo – Jesus pode ser visto como um exemplo de “liderança progressista”? A presença de mulheres em sua comitiva e o fato de ter perdoado a mulher adultera e, ao mesmo tempo, ter estabelecido uma nova compreensão da Lei, não seriam demonstrações de sua visão progressista do Evangelho? Além do mais, o fato de ter convidado os conservadores judeus a atirarem a primeira pedra “quem não tiver pecado” não serve como ilustração para todo o processo de culpabilidade da mulher pelo pecado original e todos os males consequentes da transgressão do primeiro casal? Que dizer de machistas que culpam mulheres por estas serem vítimas de estupro? Há alguma correlação com os judeus conservadores que transferiam para outros seus próprios erros?

Valéria Vilhena – Agora estamos em outro campo – o teológico. Não é minha área de atuação, mas reconheço essa dimensão, isto é, a importância de novas hermenêuticas, como a hermenêutica feminista, negra, como instrumentos de luta e de denúncia contra as desigualdades de gênero e suas transversalidades, ou seja, aquilo que nos atravessa como seres humanos pertencentes a uma sociedade como as questões de classe, raça, etnia, orientação sexual etc. Nessa perspectiva Jesus pode sim ser visto como um grande líder progressista, aliás, eu não consigo ver sentido no evangelho se não for por esse viés. Sim, é pertinente pensarmos que a religião judaico-cristã cooperou e coopera para a difusão de diversas violências, mas também pode participar das soluções.

Johnny Bernardo – Considerada por alguns pesquisadores como uma “igreja extremista”, a Igreja Pentecostal Deus é Amor parece dar sinais de mudança em seu sistema doutrinário. Na sede mundial, na Baixada do Glicério (SP), demonstrações de que a igreja passa por adaptações é perceptível pela mudança na forma de vestir-se das mulheres. Estamos presenciando o mesmo processo pelo qual passaram outras igrejas, como as Assembleias de Deus? A simples liberalização ou relaxamento nos usos e costumes são suficientes como evidência de que a percepção pastoral com relação às mulheres está mudando? Há espaço na Igreja para a implementação da igualdade de gênero? É este um dos objetivos das Evangélicas pela Igualdade de Gênero? Estabelecer diálogos?

Valéria Vilhena – Falamos um pouco sobre isso anteriormente, mas acrescentaria que as mudanças são inevitáveis e é apenas uma questão de tempo. No entanto, lembremos que podemos mudar para melhor ou pior (risos). O relaxamento nos usos e costumes, além de não ser suficiente, pode protelar mudanças significativas ao gerar a sensação de liberdade ou maior liberdade das mulheres. Entende? Por isso é preciso problematizar, dialogar, por exemplo, em relação às vestimentas perguntando por que tais regulações são mais rígidas com as mulheres, para que você consiga entender a questão da culpabilidade e o controle especialmente sobre os corpos das mulheres. É preciso problematizar.

Johnny Bernardo – Vê como contradição conservadores defenderem práticas condenadas internacionalmente, como tortura, linchamento público e punitivismo com a mensagem bíblica de “amor ao próximo”? Que dizer ainda de parlamentares evangélicos – e de um dos partidos que representam o segmento – terem participação em esquemas de corrupção? Não é mais do que evidente que parlamentares recorrem ao conservadorismo como um meio de cativar eleitores e esconderem suas reais intenções no Parlamento? Inclusive há uma grande liderança evangélica presa e outra teve seu nome mencionado recentemente em mais um caso de desvio de dinheiro público.

Valéria Vilhena – Dentro do meu campo de análise, contraditório é o mínimo, mas compreendo que não é para esses que pensam assim, pois valorizam uma hermenêutica medieval, na qual a vingança, o castigo, a dor, são instrumentos pedagógicos de Deus. Eu digo no mínimo contraditório porque há maldade, ignorância, machismo, racismo, transfobia também. E a bancada evangélica tem responsabilidade, juntamente com outras lideranças para a perpetuação dessa hermenêutica medieval, e às vezes cruel. A maioria não vive a moral ilibada exigida dos fiéis – eis aí exemplos de políticos evangélicos envolvidos nem corrupção que você mencionou. Embora eu não pense que o nosso maior problema, enquanto sociedade brasileira, seja a corrupção. Não. A corrupção não é a causa e sim a consequência de um sistema político que precisa passar por reformas. É evidente que recorrer ao conservadorismo é a maneira de manter o braço forte do poder e dominação.

Johnny Bernardo – Há alguns meses o deputado federal Jair Bolsonaro submeteu-se ao batismo por imersão no Rio Jordão e já é tido no meio evangélico como mais “um novo converso”. Inclusive há líderes e membros entusiastas de sua candidatura presidencial. O fato de o referido deputado ser um ferrenho defensor do regime militar brasileiro, das torturas, assassinatos e desaparecimento de políticos, artistas e intelectuais contrários ao regime, e ter atitudes extremistas com relação à mulher – e um dos episódios foi sua ameaça de estupro da deputada Maria do Rosário – parece não incomodar alguns de seus eleitores cativos no segmento evangélico. Corremos o risco de o fenômeno Trump ter sua versão no Brasil? Quais os riscos para o movimento feminista e outros movimentos caso aventureiros como Bolsonaro ou outro de sua estirpe chegue à Presidência da República?

Valéria Vilhena – Jair Bolsonaro, o cristão batizado, defensor da ditadura militar e suas práticas de tortura, o machista, racista, transfóbico (estou falando a partir de suas próprias declarações públicas) é o representante de muitas vozes. Tal fato não pode ser desprezado! Isto quer dizer que muita gente coaduna com suas ideias e, se pensarmos, que muitas pessoas que se sentem representadas por ele são crentes, isso nos leva de volta às questões culturais de toda uma sociedade que já conversamos e que nos faz perguntar que tipo de cristãos, que qualidade de cristãos ou que tipos de cristianismos são reproduzidos há séculos? Tem servido a quem ou a quais interesses?

Johnny Bernardo – No próximo dia 31 de janeiro completa cinco meses do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Em seu lugar assumiu uma figura controversa, o jurista Michel Temer. A democracia foi posta em risco desde então, com reduções significativas nas conquistas sociais dos últimos 30 anos. Além de primeira mulher eleita presidente do Brasil, Rousseff também entrou para a história como uma das resistências ao regime militar, tendo passado dois anos e um mês nos porões da ditadura. Apesar das inúmeras torturas a que fora submetida, enfrentou seus algozes de frente e jamais esmoreceu. Na Presidência, foi a responsável pela criação da Casa da Mulher Brasileira e a sanção do PEC das Domésticas que regularizou a situação de milhares de empregadas domésticas que tinham apenas parte de seus direitos garantidos. Dilma foi substituída por um presidente que deu pouca atenção à mulher na composição de seu governo. A igualdade de gêneros e outras políticas sociais estão correndo risco de erradicação do cenário nacional? É essa a análise?

Valéria Vilhena – Tempos difíceis que estamos vivendo, sobretudo pelo fato de ver a democracia sendo solapada, direitos trabalhistas ameaçados, uma gente sem qualificação e ainda por cima envolvida em diversos processos judiciais no governo, e tudo isso em nome de uma suposta bandeira anticorrupção. O próprio Michel Temer, que se diz “presidente da República”, foi citado diversas vezes na primeira delação da Odebrecht. Paradoxal? Não. Só vai de encontro ao que temos conversado até agora. O governo Dilma, bem como o governo Lula, com todas as limitações, representavam as minorias, os desfavorecidos pelo sistema. A verdade é que os grupos que você citou como cristãos progressistas também e, antes de mais nada, também estão pela defesa das minorias (entende-se minorias não em termos quantitativos, mas de representação, oportunidade e direitos).

Discussões de gênero, conscientização de classe, raça, etnia, orientação sexual se fortaleceram com ações afirmativas, políticas públicas, leis, exatamente nos governos Lula e Dilma. A Lei Maria da Penha foi promulgada pelo governo Lula, o feminicídio pela presidenta Dilma; e a desigualdade social também foi fortemente combatida nesses governos. Portanto, quando a mídia e o governo golpista diz que os gastos públicos aumentaram no governo Lula e Dilma significa que eles investiram mais em educação, saúde, moradia (não o suficiente), mas a mídia e o governo golpista faz as pessoas despolitizadas entenderem que tais aumentos foram fontes de privilégios, corrupção e mordomias, o que são coisas completamente diferentes. Então a PEC 55 desse desgoverno de diminuição de gastos públicos não diminuirão as mordomias, os excessos de gastos, os aumentos de salários (deles) e etc, ou seja, tudo aquilo que o povo não quer mais. Significa, porém, que diminuirá os investimentos em saúde, educação, moradia, que é nomeado como gastos públicos.

Os governos Lula e Dilma significaram avanços na igualdade social e de gênero – o que não os isenta de terem cometido alguns erros, devemos reconhecer. A oposição, com a força da mídia, com o braço do judiciário e com as forças econômicas de interesses nacionais e internacionais engaram mais uma vez a grande massa despolitizada, e sem consciência de classe, ao tomaram o Poder de volta, como também geraram ódio contra o PT e às esquerdas em geral. Infelizmente na história do Brasil temos um fato recorrente: a criação de inimigos. A diferença no meu ponto de vista é que em relação à presidenta Dilma teve mais um agravante em relação às anteriores: a questão de gênero. Ela foi odiada por ser mulher, por ser a primeira mulher eleita democraticamente presidenta da República.

Dilma foi ridicularizada por ser mulher, enquanto Lula é desprezado e humilhado por ser proletário e não escolarizado. Aliás, poucas pessoas se lembram que a presidenta Dilma Rousseff é economista, formada pela USP. Queriam provar que ela era “burra”, como uma “loira burra”. Mas nesse caso nem precisava ser loira, bastava apenas ser mulher. Queriam provar que ela era uma mulher “não feminina” por isso logo que o governo golpista entrou sem nomear nenhuma mulher a mídia tratou de resgatar a imagem que as mulheres haviam perdido com Dilma: a mulher bela, recatada e do lar.


Sobre o autor dessa entrevista

Johnny Bernardo é formado em Ciências Sociais.

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