Osmar Carvalho | Debate não importa, quando o importante é ter razão


“E o que acontece com os princípios básicos do debate? Não importam, quando o que importa é ter razão.”

David_-_The_Death_of_Socrates
A morte de Sócrates. Imagem: Domínio público.
Esses dias um seguidor da página do Ativismo Protestante, no Facebook, nos mandou uma mensagem inbox, dizendo que não ia curtir uma página que defende a “agressão”, aludindo a um post nosso na rede social, da garota sorrindo antes de atirar um ovo no deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ). E o que acontece com os princípios do debate? Não importam, quando o que importa é ter razão.

Nas palavras dele:

“Sou escultor e professor. Tenho a arte e a docência a me dedicar e não vou perder meu tempo com esse tipo de pensamento.”

Um dos princípios básicos do debate diz que uma pessoa não é obrigada a debater com outra, sem que queira. Mas esse é o melhor caminho? Com certeza é o mais cômodo; e o que não traz nenhum aborrecimento. Também é o que não ajuda ninguém, já que evitar o debate não produzirá conhecimento algum; tampouco desconstruirá argumentos falaciosos.

Disse a ele que é uma pena que as pessoas que detêm o conhecimento pensem logo em abandonar as reflexões, ao invés de ficar e ajudar os que pouco ou quase nada de sabedoria têm, por falta de oportunidades.

Esse é um importante princípio do debate, o princípio da caridade: ajudar o oponente a argumentar corretamente. Antes de refutarmos o argumento, devemos mostrar ao argumentador seu erro, seja ele de lógica, de coerência ou de estrutura, para que ele chegue ao argumento válido. Por esse princípio, demonstramos ao opositor nosso desejo de ter com ele um debate honesto e produtivo, não uma mera contenda. O argumento válido interessa a todos, ou deveria interessar, pelo menos.

Também é uma pena que pessoas tão esclarecidas se embirrem por tão pouca coisa. Achava que isso era um excesso de imaturidade de pessoas leigas.

Quando as pessoas sem voz de um país não têm acesso a armas, nem querem delas fazer uso, para se fazer ouvidas, resta a elas usar a criatividade: tornar uma brincadeira de criança uma arma contra o ódio, a misoginia, o racismo. Mais uma vez o jeitinho brasileiro se impôs, dessa vez por uma causa nobre. Diante de discursos extremistas, nos quais há ausência total de diálogo (o radical só fala para ter razão), uma ovada pode até ser um ato extremo de indignação, mas nunca um ato de vingança.

Diante de seus juízes – sob risco de receber a pena de morte -, acerca dessas alternativas, entre viver calado, sob censura ou morrer por filosofar, Sócrates fez sua escolha, a qual deveríamos seguir cegamente:

“Mas, se me absolvêsseis […]se me dissésseis: Sócrates, agora não damos crédito a Anito, mas te absolveremos, contando que não te ocupes mais dessas tais pesquisas e de filosofar, porque, se fores apanhado ainda a fazer isso, morrerás; se, pois, me absolvêsseis sob tal condição, eu vos diria: – Cidadãos atenienses, eu vos respeito e vos amo, mas obedecerei aos deuses em vez de obedecer a vós, e enquanto eu respirar e estiver na posse de minhas faculdades, não deixarei de filosofar e de vos exortar, ou de instruir cada um, quem quer que seja, que vier à minha presença […] E isso o farei com quem quer que seja que me apareça, seja jovem ou velho, forasteiro ou cidadão, tanto mais com os cidadãos quanto mais me sejam vizinhos por nascimento […] Por toda parte eu vou persuadindo a todos, jovens e velhos […] absolvendo-me ou não, não farei outra coisa, nem que tenha de morrer muitas vezes.”

Foi uma batalha de ideias, da filosofia, que busca verdades, versus a sofística, que visa interesses particulares, seja a causa justa ou não.

Sócrates acabou condenado à morte; e ele queria que fosse assim. Prevaleceu a vontade de ter razão, dos seus opositores.

E nós, do Ativismo Protestante, queremos que seja assim.

Acompanhe nossa Coluna Opinião!


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é formado em engenharia, membro da Assembleia de Deus Ministério do Belém e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

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