Alain Oliveira | O dia em que a “merda” causou estranheza e o racismo foi justificado


“Ser contra o preconceito racial independe de sua visão política, antes tem a ver com o fato de você ser humano.”

0814_charlottesville-violence-1000x667
Supremacistas brancos e grupo antirracismo se enfrentam em Charlottesville, no estado norte-americano da Virgínia. Imagem: Reprodução da internet (editada).

Em um grupo virtual exclusivamente para “cristãos”, do qual faço parte, todos os dias são destilados centenas de comentários preconceituosos, machistas, homofobicos e intolerantes. Não se salva ninguém – de gays a umbandistas, de pastoras a feministas – a idéia de diversidade causa muito espanto no meio daquele grupo, formado majoritariamente por fundamentalistas religiosos. Temo que estes sejam os primeiros a explodirem seus corpos em atentados pelo Brasil.

Para completar todo esse leque de preconceitos, me deparei com um texto que alguém postou defendendo a marcha de supremacistas brancos, ocorrida no final de semana passado em Charlottesville, no estado norte-americano da Virgínia. Considerei aquilo como uma das principais afrontas do preconceito daquela gente. Se é que o preconceito pode ser escalonado.

Logo tentei argumentar e mostrar que as coisas não deveriam caminhar daquele jeito, que ser contra o preconceito racial independe de sua visão política, antes tem a ver com o fato de você ser humano. Mas não adiantou, a Klu Klux Klan disseminou e incutiu seu ódio nas pessoas; em algumas, de forma sutil; em outros, mais descarada.

E assim a discussão seguia, e, sob os argumentos mais estúpidos possíveis, muitas daquelas pessoas falavam coisas absurdas, do tipo: “cristãos devem fazer parte daquele movimento que enfrenta a esquerda norte-americana com seu mimimi de reparação histórica”. Isso mesmo, esquerda e mimimi, as palavras sempre presentes nas pautas dos odiosos cidadãos de bem.

A postagem foi ganhando cada vez mais comentários e a maioria deles, defendendo o indefensável. Confesso que em alguns momentos pensei se realmente era importante fazer parte daquele grupo, mas, no calor da discussão, percebi mais uma vez que era importante ter pessoas que fizessem o contraponto daquelas idéias desumanas.

Graças a Deus, à medida que a discussão seguia, outras pessoas estavam aparecendo, mesmo que fôssemos minoria.

Até que eu, passando de todos os limites, escrevi em um dos meus comentários a palavra “merda”; isso mesmo, aquilo que todo mundo faz e que alguns também falam. Foi aí que eu recebi uma das piores respostas, algo que chamou a minha atenção. Alguém que em outros comentários defendia o ato como um ato dos “cristãos”, considerou que a palavra “merda” não deve fazer parte do vocabulário de alguém daquele grupo.

Moral da história: “merda” escandaliza, racismo não.

 



Sobre o autor desse artigo:

Alain Oliveira é casado com Wanessa; estudante de geografia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL); estudante de teologia no Seminário Teológico Batista de Alagoas (Setbal); membro da Primeira Igreja Batista em Tabuleiro (Maceió/AL) e seminarista pela mesma igreja. Trabalhou durante três anos com população de rua, conhece bem as injustiças cometidas com essas pessoas.

Acompanhe nossa Coluna Negros!

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s