Pedro Almeida | Por uma educação que ajude a pensar


“Questionamentos não são provocações baratas, com o objetivo de humilhar, invalidar a crença alheia; mas são meios de  provocar reflexões, estimular pesquisas, mergulhar nas inesgotáveis fontes da produção humana.”

pedro
Parque da Independência, Museu Paulista, São Paulo. Foto: Ativismo Protestante.

Passei mais de duas décadas dentro de uma instituição evangélica. A teologia era (é) bem fechada. Qualquer tipo de questionamento, dúvida, algo que colocava em xeque a ortodoxia ( doutrina correta) não eram vistos com bons olhos, nem haveria ouvidos receptivos. Deus habitava nos dogmas (Para alguns, Deus era os dogmas), na doutrina, no cremos e, qualquer questionamento era veementemente rechaçado pelos fiéis defensores da reta doutrina. Eu rezava conforme a cartilha.

Depois dos trinta resolvi cursar História. O que era proibido na instituição religiosa, a saber, os questionamentos, eram incentivados no curso de história. Tive um professor de história antiga/medieval/ e história cultural (José Geraldo Grillo, por ironia ele tinha formação teológica no seminário presbiteriano de Campinas; posteriormente alçou voos mais altos)  que constantemente utilizava algumas expressões interessantes: “É preciso problematizar melhor essa questão!”; “Isso é anacronismo!”; “Ninguém vai ao passado vazio!”; “O documento também é histórico”; “Os conceitos são históricos”; “Tudo é interpretação!”; “É preciso considerar não apenas o que foi dito no documento, mas também o que não foi dito”.  Isso me incomodava. Eu fui em busca de certezas, verdades, mas o excelente professor,  questionava, semeava dúvidas.

Perguntei: Quer dizer que o documento histórico não é o portador da verdade inquestionável, absoluta (cabeça de crente)? Não. Como assim? Ele é importante, revelador. Através do documento é possível inferir sobre sociedade X, época X, dentre outras questões. Mas você precisa dialogar com o documento. Como assim? Levantando perguntas. Por exemplo: Quem escreveu? Pra quem escreveu? Por que escreveu? Em que contexto foi escrito? A intencionalidade do historiador? Etc,  etc.

Compreendi que os questionamentos não são provocações baratas, com o objetivo de humilhar, invalidar a crença alheia; mas são meios de  provocar reflexões, estimular pesquisas, mergulhar nas inesgotáveis fontes da produção humana. O que seria da academia sem provocações?

Sonho com uma escola pública onde provocações são incentivadas, estimuladas,  não cerceadas por uma  bancada política que confunde escola com igreja; professor com pastor, padre; currículo com cartilha.

Sonho com uma educação que nos ajude a pensar!


Sobre o autor do artigo

Pedro Almeida é formado em História e professor estadual da rede pública, em São Paulo.

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