Osmar Carvalho| Liberdades: Discurso fúnebre para o meu sobrinho


“Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.
Na casa de meu Pai há muitas moradas.”

boyontracks
Foto: Keencarlene, em Morguefile.com (editada)

Quando eu acordei cedo nesse sábado (04 de fevereiro de 2017) e decidi passar um final de semana com a minha família, não poderia imaginar que seria acordado – na madrugada de sábado para domingo – com a notícia da sua morte, meu sobrinho amado – Felipe (Lipão), que acabara de completar 17 anos.

Não poderia imaginar que caberia a mim ligar para sua mãe, para sua vó e para o seu tio, dando a notícia. Mas assim aconteceu.

Filho único da minha irmã caçula. Pai de uma linda menininha, agora órfã. Essas coisas fazem multiplicar a dor por dez.

Uma mente libertária, um corpo frágil, um monstro de ferro assassino, um forte impacto, uma lesão mortal nos ossos do pescoço…Você se foi, instantaneamente.

Também não imaginaria que caberia a mim carregar seu caixão até o sepulcro, junto com seu pai, seus amigos e seus outros tios. Eu que te carreguei tantas vezes no colo, desde seu nascimento.

Como se isso não fosse o limiar da dor, coube a mim o discurso para sua descida ao sepulcro. Logo eu, que tenho aversão a velórios, sempre fujo deles. O assunto que eu estudava por acaso naquela noite, seria o tema do discurso fúnebre: Liberdade.

Não imaginava que você fosse tão querido. Quantas pessoas no velório, rostos desconhecidos, senhores, jovens e adolescentes – vindos de várias partes da cidade. Precisamos arrumar um ônibus em pleno domingo, para carregar tanta gente. Aproximei-me de alguns, para entender o porquê de estarem ali, por horas, varando a madrugada sem dormir, velando aquele corpo até o enterro no outro dia. Várias histórias contadas com sobre o e com o Felipe.

Alguns risos em meio à dor.

Enfim, vamos ao discurso…

“Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.
Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar.
E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também.
Mesmo vós sabeis para onde vou, e conheceis o caminho.
Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho?
Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.”
João 14:1-6

Essa passagem da bíblia nos mostra Jesus consolando seu discípulos, preparando seus corações para um momento de dor: sua própria morte.

Isso nos remete à ideia de liberdade. O que vem a ser liberdade? Fazer tudo o que queremos, agir instintivamente, sem regras, sem ordem, sem responsabilidade, parece ser um antônimo de liberdade, embora se confunda com ela.

Não temos a liberdade de escolher o que nos acontece (não me entenda como sendo calvinista), não podemos escolher entre morrer ou não morrer, ter uma enfermidade, uma fisionomia ideal. Mas podemos escolher como reagir diante dos acontecimentos da vida.

Além disso, temos liberdades convencionadas, para uma vida organizada em sociedade. Liberdade de ir e vir, liberdade política para votar, liberdade de expressão para falar (com responsabilidades), entre outras.

Mas como esse momento é de reflexão espiritual, quero dar ênfase à liberdade proposta por Jesus, chamei de liberdade religiosa:
“Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.”
João 8:36

Jesus fala dessa liberdade, em um plano espiritual, por isso, superior às demais. Ele nos convida a experimenta-la. E o que aprendemos com isso nesse momento tão difícil? Que a morte não é um fim em si, mas um momento de libertação da alma, em relação ao corpo. Para o cristão, é a liberdade maior, o momento de transição entre o terreno e o paraíso prometido, entre o materialismo e o desapego total. A morte, para Deus, é vida.

O Felipe perdeu suas liberdades aqui, mas ganhou o direito de conhecer o segredo da vida. Posso afirmar que está no céu? Quem me dera…ficaria milionário se pudesse dizer isso das pessoas, quem não pagaria para saber? Mas a fé é a certeza das coisas que não se vêem, por ela podemos acreditar, ir além do aqui e agora.

O Felipe não pôde escolher o que lhe aconteceu. Ninguém em sã consciência escolheria bater um carro e morrer. Mas ele pôde escolher estar naquele carro. Isso nos leva a outras reflexões: livro-arbítrio e maturidade.

Segundo Santo Agostinho, livre-arbítrio é algo dado por Deus ao homem, a fim de que ele se desenvolva e se aprimore. Livre-arbítrio nos torna seres morais, escolhemos nossos hábitos em sociedade. Nos torna autônomos, tomamos decisões. Porém, devemos usar isso para as boas escolhas. Livre-arbítrio é o bom uso da liberdade.

Fala-se sobre tipos de maturidade, a biológica e a intelectual são desses tipos. Parecem ser limites dados ao homem. Nosso corpo não acompanha uma quebra violenta dessas fases da vida. Não se ensina Cálculo a uma criança, pois sua mente não acompanharia isso. De igual modo, não podemos dar a uma criança o trabalho de um adulto, pois seu corpo não tem essa maturidade.

Quando uma criança, por alguma razão, intenta quebrar esse processo, o resultado pode ser extremo. O Felipe não podia tomar as melhores decisões nesse contexto, pois ele quis viver como um adulto, desde criança. Tomar a decisão de um adulto, sendo criança, pode levar a atos extremos. Não são raros esses casos, jovens tentam isso a todo momento.

O Felipe teve todas as suas liberdade respeitadas, pois nossa família sempre prezou por isso. Ele viveu como quis, tomou suas decisões, viveu intensamente, como é entre os jovens.

O Felipe não pôde tomar as melhores decisões, pois lhe faltavam as vivências, as experiências de vida necessárias para isso. Houve uma quebra brusca no processo de amadurecimento biológico e intelectual. Um homem adulto dificilmente escolheria estar naquele carro. Que isso sirva para minimizar os julgamentos dados a ele.

Liberdade extrema pressupõe responsabilidade extrema.

Todas essas importantes observações nos ajudam a entender por que estamos aqui nesse momento, vivendo essa inversão dolorosa da vida, o enterro de uma criança.

No plano terreno é difícil entender e aceitar isso, mas no plano espiritual temos a convicção de que a vida do Felipe foi uma obra consumada de Deus. A obra de Deus é perfeita.

Os discípulos de Jesus agora estavam preocupados com o próprio destino. “Para onde vamos? Qual o caminho?”
Jesus responde: “Não se preocupem, Eu sou o caminho, e tenho muitas moradas.”

Tenho certeza que há uma morada para cada um de nós no céu. A vida não termina aqui, ela continua em outro lugar.

E Deus não quer que fiquemos reféns desses sentimentos negativos que vêm nesse momento, inevitavelmente. Sentimentos que podem nos impedir de voltar a sorrir amanhã, de retomar o trabalho, de sonhar novamente.

Mas sentiremos saudades para sempre. Saudades são lembranças de coisas boas que se passaram. E o Felipe deixou muitas saudades, muitas coisas boas.

Não tivemos a liberdade escolher estar ou não estar aqui, mas teremos a liberdade de escolher como reagiremos a isso.


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é formado em engenharia, membro da Assembleia de Deus Ministério do Belém.


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