Pedro Almeida| “Olhe para Jesus!”: O dia em que eu não consegui gozar


“Orgasmos múltiplos! ‘Dá o seu tudo! Dá o seu tudo! Permaneçam com os olhos fixos em Jesus! Olhem pra Jesus!'”

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Imagem: Reprodução da internet editada.

Cheguei 10 minutos antes do horário programado, o local já estava lotado. Um pouco assustado, fui orientado por um jovem educado, bem vestido, receptivo. Aos poucos fui me acalmando, auxiliado por um leve som instrumental. De repente, um homem pomposo, altivo — lembrou-me a imagem de um Sumo Sacerdote que vi certa ocasião em uma revista de escola dominical – se dirige ao altar. O olhar da multidão se dirige ao tal Sumo Sacerdote (não encontrei um título mais apropriado). Ele toma a palavra: “Olhe pra Jesus!”. Em seguida inicia uma suave pregação. Uma atmosfera estranha inunda o ambiente. Observo que há muita gente anestesiada, enfeitiçada, fiel à advertência do Sumo Pontífice gospel: “Fechem os olhos! Olhem pra Jesus!”. Segue a entrega.

Os mais tímidos, ressabiados, virgens, vão se abrindo ao discurso fálico, sendo suavemente penetrados. Começam os orgasmos múltiplos. Eu permaneço resistente, frio, feito mulher frígida. Segue a penetração verbal com um leve som instrumental. “Olhe pra Jesus! Olhe pra Jesus!”. A advertência é dirigida aos poucos observadores, resistentes ao bacanal gospel.

Um jovem do meu lado fecha os olhos, mas paradoxalmente enxerga algo. Ele grita, solta um urro orgástico: “É Jesus! Eu vejo Jesus!”. E se entrega de corpo e alma no altar do sacrifício. Como dizia o Sumo sacerdote: “Sem sacrifício não haverá orgasmo (bênçãos)!”

Permaneço assustado!

Gemidos, lágrimas, euforias, frenesi, algo indescritível toma conta do ambiente. É fantástico! Um obreiro do bacanal-gospel tentou me seduzir. Mas a fidelidade ilustrada impossibilitou-me de deitar na cama celestial. Permaneci impenetrável! Miseravelmente virgem.

Olho para o relógio. Já se passaram 40 minutos. O Sumo Sacerdote prepara o desfecho: “É preciso entregar tudo!”. A multidão, em um ato de entrega absoluta, irrestrita, levanta as mãos, fecha os olhos e se entrega ao desfecho retumbante. Orgasmos múltiplos! “Dá o seu tudo! Dá o seu tudo! Permaneçam com os olhos fixos em Jesus! Olhem pra Jesus!”

Eu fiquei estupefato! Perplexo! Homens, mulheres, jovens, todos, sem resistir aos discursos fálicos, se abrem à penetração coletiva, a uma espécie de priapus verbal.

Foram 20 minutos de gozo coletivo.

Mas é preciso voltar para a Terra, para a realidade, para a rotina, para a prosa diária, para o prozac.

O Sumo – Gigolô se despede; alguns ainda tentam tocá-lo, mas são contidos. Porém, no olhar do Sacerdote-mor havia um recado esperançoso: amanhã tem mais! No encerramento percebo sorrisos estampados. Mas permaneço incomodado. O garoto que me recepcionou me pergunta: “Você gostou!?”. Eu entendi: “Você gozou!?”. Esbocei algumas críticas. Ele me repreendeu: “Olhe pra Jesus!”

Fui para casa! Virgem e frustrado!


Sobre o autor do artigo

Pedro Almeida é formado em História e professor estadual da rede pública, em São Paulo.

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