Opinião| Deus e o fumante

“Como alguém que fumou por quase dez anos, posso afirmar que vício é para sempre. Não tem cura. É uma constante resistência ao desejo de fumar, mesmo diante das mínimas adversidades da vida, situações de estresse e ansiedade, coisas cotidianas.”

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Foto: USP imagens

 

Todo dia, quando eu acordo e abro celular, tem alguém me pedindo alguma coisa: dinheiro emprestado, conselho, ajuda para uma outra pessoa, ajuda para a própria pessoa, ajuda técnica, filosófica, espiritual, sentimental, entre outras. E vão surgindo pedidos, de solteiros a casados, durante o dia todo e à noite. Sempre tento ajudar, aconselhar, orientar, baseado nos ensinamentos bíblicos. Dessa vez, aconselhei um fumante. Primeiro, de acordo com a minha crença; segundo, de acordo com minha a experiência de quase dez anos como fumante; e terceiro, como um que leu algumas coisas acerca do assunto.

Acho que as pessoas me vêem bem mais capaz do que realmente sou. Vejo isso como uma boa aparência. Por outro lado, vejo que há pessoas com uma vida bem pior que a minha, que já é bem difícil.

Tudo isso me desgasta bastante, pois não sou de dizer não a ninguém. Se não tenho respostas, conhecimento ou recursos no momento, vou atrás de arrumar, para poder ajudar de alguma forma. É um desgaste cuja recompensa é platônica: o simples desejo de servir.

O apóstolo Paulo nos ensina isso como um mandamento cristão, gastar-se e se deixar gastar, por amor a Deus e ao próximo. Religião seria isso…é bem mais que altruísmo.

Sou muito espontâneo, a vida é espontânea. Não tenho um discurso pronto para todas as situações possíveis. Isso pode nos levar a errar e a induzir ao erro, pois uma fala lógica, racional e cristã requer tempo para ser construída.

Porém, acredito muito nos dons espirituais, que Deus prometeu dar àqueles que lhe pedissem. O dom da sabedoria e da ciência são dois desse dons, assim como o dom de curar, de profecias, etc. Eu particularmente sempre pedi os dons de sabedoria e ciência.

Além disso, Jesus nos consolou acerca desses momentos, dizendo que o Espírito Santo nos faria lembrar de tudo que fosse necessário na hora de falarmos alguma coisa a alguém.

Esse conjunto de promessas divinas tiram o nosso medo, encorajam-nos a falar com quem quer que seja: uma autoridade, um douto, um leigo…um viciado.

Voltando ao fumante, ele me disse que não conseguiria parar de fumar, fumava mais de dez cigarros por dia. Eu disse a ele que parar não era era a única opção, que nada na vida deve ser uma bipolaridade: ou tudo ou nada, ou isso ou aquilo.

O próprio Aristóteles nos ensina muito bem isso. Pelo contrário, no mundo aristotélico, os dois extremos são os males, os quais ele chama de vícios, coincidentemente. Ele nos aconselha a buscarmos o meio termo, a mediana, o equilíbrio – a superar os vícios. A esse meio-termo ele chamou virtude.

É um pouco exata a linguagem, pois, na época dele, filosofia e matemática andavam juntas. Um bom filósofo era sempre um bom matemático. Mas o conceito é ideal; tão bem colocado que dura e é ensinado e aplicado até os dias de hoje. Não vou me aprofundar nisso, seria muito extenso.

O rei Salomão, o homem mais sábio de seu tempo, disse em seu livro ‘Eclesiastes’ (7:16): “Não sejas demasiadamente justo, nem demasiadamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo?”

“Não seja demasiadamente justo nem sábio” e “seja virtuoso, não extremista” são formas diferentes de falarem a mesma coisa.

Continuando, eu disse ao fumante que não precisava parar, mas que ele poderia reduzir, fumando um ou dois por dia. Essa quantidade seria facilmente suportada pelo corpo, que conseguiria fazer a limpeza diária dos pulmões (a priori). Ele provavelmente não perderia muitos anos de vida.

Como alguém que fumou por quase dez anos, posso afirmar que vício é para sempre. Não tem cura. É uma constante resistência ao desejo de fumar, mesmo diante das mínimas adversidades da vida, situações de estresse e ansiedade, coisas cotidianas.

Depois disso, pesquisei em sites do governo e comprovei minha tese. O próprio Ministério da Saúde adota dois métodos de tratamento do fumante: (1) parar imediatamente, quando é marcada uma data para o fumante deixar de fumar; ou (2) parar gradualmente (ou redução de danos), quando o fumante vai reduzindo o número de cigarros fumados. (Leia aqui)

Veio a segunda pergunta: “E Deus?”

Lembrei-me de de uma matéria, que li há muitos anos atrás (Leia aqui), e que arrematava a primeira pergunta dele, sobre os males, e respondia a essa segunda.

De acordo com a matéria, quem mora no centro de São Paulo respira um ar poluído que equivale a fumar quatro cigarros por dia.

Logo, ele não seria mais fumante do que eu…nem eu seria mais digno do céu do que ele por isso…. tampouco há garantias que eu vá viver mais.

A postura radical de aconselhar com base em extremos (parar ou parar), muito utilizada por protestantes mais fervorosos, poderia incutir na mente do fumante um peso maior do que os males psicológicos causados pelo cigarro, afastando-o de Deus, ou impedindo que ele vivesse com uma consciência tranquila, sem culpa. A compreensão dos limites humanos, da misericórdia e da graça de Deus são fundamentais nessas horas, tanto para um sábio aconselhamento como para uma justa instrução. Não coloquemos nas costas dos humanos um fardo maior do aquele que ele já carrega, ou um que ele não possa suportar.

Busque ajuda, espiritual (funcionou comigo) e profissional

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabagismo é a principal causa de morte evitável no mundo; a estimativa é de que um terço da população mundial adulta (cerca de 1 bilhão e 200 milhões de pessoas) sejam fumantes. Pesquisas mostraram que aproximadamente 47% de toda a população masculina mundial e 12% da feminina fumam.

Segundo estudo do Instituto Nacional do Câncer (INCA), em 2015 o número de mortos no Brasil, por doenças advindas do tabaco, chegou a 256.216 (12,6% das mortes de pessoas com mais de 35 anos); 35 mil desse total foram vítimas de doenças cardíacas e 31 mil de  doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC);  23.762 pessoas morreram por câncer de pulmão, o quarto motivo que mais mata; 17.972 pessoas morreram por serem fumantes passivos, ou seja, pelo simples fato de respirar a fumaça dos cigarros dos fumantes.

Segundo o Ministério da Saúde, a simples fumaça do cigarro contem mais de 4,7 mil substâncias tóxica; o alcatrão é composto de mais de 40 compostos cancerígenos; o tabagismo é responsável por 30% das mortes por câncer de boca, por 90% das mortes por câncer de pulmão, por 25% das mortes por doença do coração, por 85% das mortes por bronquite e enfisema e por 25% das mortes por derrame cerebral. Além disso, está relacionado a mais de 50 doenças (OMS). Todo ano, cinco milhões de pessoas morrem no mundo, vítimas do cigarro; em 20 anos, esse número chegará a 10 milhões, se for mantido o crescimento do consumo de cigarros, charutos e cachimbos.

O ideal é procurar ajuda. Espiritual? Sim, mas também profissional, pois tanto as mortes quanto os males físicos e psicológicos, causados pelo cigarro, são devastadores. As Unidades Básicas de Saúde oferecem tratamento gratuito para quem deseja parar de fumar (Saiba onde procurar ajuda).

O seguidor da página do Ativismo Protestante no Facebook, Osmar Carvalho, colaborou com esse artigo para o site. O mesmo é membro da Assembleia de Deus Ministério do Belém, em São Paulo.

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