A ineficiente ação repressiva do Estado na Cracolândia

“É preciso enfrentar esse Estado que utiliza a força como resolução de questões que apenas necessitam serem vistas como um problema de saúde pública, cobrando os direitos que são retirados da vida de cada indivíduo, antes mesmo que ele chegue a essa situação.”

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21/05/2017- São Paulo- SP, Brasil- Com o fim da megaoperação policial que cumpriu na madrugada e manhã deste domingo (21) 28 mandados judiciais contra traficantes que atuavam na região da cracolândia, a Prefeitura de São Paulo passou a ter condições de realizar os trabalhos de acolhimento e tratamento aos dependentes químicos, assistência às pessoas em situação de rua e reurbanização da região. Foto: EDUARDO OGATA/SECOM

Acabada a ação truculenta da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, ontem (21), eis que surge um vídeo do prefeito João Doria falando sobre suas intenções no local, utilizando como argumentos a reestruturação urbanística da região. No vídeo, ele também diz que a ação foi de acolhida aos “moradores e moradoras” do local, mas ao que parece não é nada disso que as imagens mostram; e sim mais uma ação desumana por parte de quem nunca fez nada eficaz para mudar a situação em que vive aquela gente, ou com real intenção disso.

É muito fácil fazer o que Doria faz e depois gravar um vídeo para tentar se promover. É fácil também para o Geraldo Alckmin ordenar que a sua polícia aja sempre com truculência em momentos como esse, afinal punir os pobres sempre foi a especialidade do Estado capitalista.

Quem trabalha, ou já trabalhou com dependentes químicos e/ou pessoas em situação de rua, conhece de perto as dificuldades existentes para que essas pessoas se tornem “limpas”. Os que trabalham na região da Cracolândia, centro de São Paulo, conhecem mais ainda essa dificuldade, visto que o local é convidativo ao uso e abuso de substâncias químicas, e de forma pejorativa é apresentado como a “cidade do crack”.

Mas a situação só chegou ao nível em que está devido aos problemas estruturais do nosso país, que segrega pobres nas favelas e lhes retira os direitos básicos que garantem vida digna a todo o povo, fazendo surgir, assim, regiões como a Cracolândia. Vale lembrar que esse ambiente, em São Paulo, não é o único no Brasil.

Um lugar frequentado majoritariamente por negros, pobres, vindos das periferias e que passou a chamar atenção, principalmente quando a mídia percebeu que o Estado perdeu o controle e não consegue agir sem ser da forma como agiu ontem (21).

Mas não foi só a mídia que voltou a sua atenção para aquele local, a igreja também fez isso. Destaco aqui os trabalhos realizados pela Cristolândia, missão ligada à Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira. Tanto esse quanto os demais trabalhos existentes na região merecem respeito. Mas aqui também quero expressar a minha crítica, pois, até o momento da escrita desse artigo, não achei nenhuma fala contundente e de enfrentamento ao que foi feito pela prefeitura e pelo estado de São Paulo. Espera-se, além do que já é feito por essa e as demais organizações missionárias, uma postura profética, tal qual a de Amós e de tantos outros profetas, que não se calavam diante da injustiça.

É preciso enfrentar esse Estado que utiliza a força como resolução de questões que apenas necessitam serem vistas como um problema de saúde pública, cobrando os direitos que são retirados da vida de cada indivíduo, antes mesmo que ele chegue a essa situação. Para isso precisamos chamar a atenção para o que está sendo feito com aquelas pessoas, homens e mulheres que também são filhos dessa pátria; por mais que os gestores (como gosta de ser chamado o prefeito de São Paulo) não enxerguem.

Estou cada vez mais convencido de que a imagem que foi reproduzida pela mídia, no dia de ontem, nos mostra que, se o Estado continuar agindo assim, estaremos cada vez mais distantes de ações eficazes que promovam mudanças. Uma política de saúde pública que serve de exemplo é o programa de redução de danos; entre outras discussões sérias sobre o uso de substâncias psicoativas no Brasil, principalmente ouvindo profissionais da área.

Na verdade, o que a dupla João Doria e Geraldo Alckmin fizeram, utilizando o único braço do estado que chega com eficácia aquele povo, foi mostrar mais uma vez que a guerra às drogas não é a solução. A pergunta que fica é: até quando ela continuará? Encerro fazendo uso das palavras do cantor baiano Edson Gomes, quando diz: “olha, doutor, podemos rever a situação, pare a polícia, ela não é a solução, não.”

Sobre o autor desse artigo:

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Alain Oliveira. Foto: Divulgação.

Alain Oliveira é casado com Wanessa; estudante de geografia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL); estudante de teologia no Seminário Teológico Batista de Alagoas (Setbal); membro da Primeira Igreja Batista em Tabuleiro (Maceió/AL) e seminarista pela mesma igreja. Trabalhou durante três anos com população de rua e conhece bem as injustiças cometidas com essas pessoas.

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