Chamada do povo evangélico brasileiro às ruas

“Faz-se necessário que o povo brasileiro ganhe as ruas e exija as eleições diretas, lute por isso. Além de fazer valer a vontade do povo, isso evitará que se concretize outra etapa do golpe, dessa vez com eleições indiretas, assumindo o poder alguém que não foi escolhido por maioria absoluta de votos.”

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28/04/2017 – Manifestações contra as reformas trabalhista e previdenciária – Largo da Batata/SP. Foto: Ativismo Protestante.

Bem que a nossa Escola Bíblica Dominical (EBD) poderia ser nas ruas. No próximo dia 21 de maio acontecerá em algumas capitais brasileiras atos organizados pelas frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, além de outras centrais sindicais que participarão ativamente desses atos. A intenção é de lutar por democracia, exigindo a saída imediata do “presidente” Michel Temer e a convocação de eleições diretas. Esse é um momento onde deve haver a união do povo brasileiro, fazendo valer a sua voz e insatisfação com a atual gestão, e numa só “cartada” poder derrubar todas as reformas que estão sendo impostas sobre a classe trabalhadora do país.

E nossas Igrejas, onde estarão? Qual será a posição tomada por nossas lideranças? Circulam nas redes sociais as imagens e matérias que mostram “pastores” orando e entregando presentes e cartas de apoio ao “presidente”. Tudo isso como forma de barganha, como fazem Marco Feliciano, Silas Malafaia, Samuel Câmara, Rodovalho, etc. Não será surpresa para muitos de nós se alguns desses forem citados em escândalos de corrupção. Na verdade isso até já aconteceu.

Mas os citados são alguns exemplos daqueles que estão na mídia, como, por exemplo, Silas Malafaia, que investe milhões para manter seu programa na Band. E os que não vivem na mídia o que poderiam fazer? Orar e somente isso? Oração, sem dúvidas, é fundamental, mas precisamos também agir. Uma das maiores lideranças protestantes do Brasil, o pastor Luiz Roberto Silvado, presidente da Convenção Batista Brasileira, conclamou “seus liderados” a estarem orando pelo Brasil, mas faltou uma chamada para uma ação nas ruas. Não só por parte dos Batistas, mas de todas as outras denominações que tenham líderes que sejam realmente comprometidos com o povo e com essa nação.

A oportunidade de fazer algo sempre nos é dada, e cabe a cada um escolher o que vai fazer, ou qual lado assumirá diante da causa. O antropólogo Darcy Ribeiro nos disse que: “só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar, e eu não vou me resignar nunca”. Acredito que cabem também as palavras do apóstolo Paulo, que em sua carta aos Romanos nos convida ao não conformismo. Se conformar com os padrões deste mundo é caminhar também com a injustiça, essa por sua vez é totalmente desagradável a Deus.

Será que o povo evangélico brasileiro vai se conformar com o que vivemos só pelo fato de que um dia iremos todos e todas morar no céu? Bem sabemos que esse discurso tem força no meio de alguns evangélicos e de suas lideranças. Lembro que, um dia antes da Greve Geral que os trabalhadores e trabalhadoras organizaram há poucos dias, enviei uma mensagem para alguns pastores amigos meus e um deles me respondeu com esse conteúdo. Embora lamentando muito aquela postura, respeitei como a sua posição.

Mas aprendi com Leonardo Boff, em seu livro ‘Igreja: Carisma e Poder’, que: “é possível sim ter vida boa ainda nesta terra”. Não é pecado buscar essa vida, não pecamos por busca-la para as minorias. Se servimos a um Deus justo, devemos lutar por justiça para que haja a libertação dos oprimidos.

Uma das coisas em comum que nós protestantes temos em nossas comunidades é a EBD. Como o próprio nome sugere, a EBD reúne aos domingos cristãos e cristãs com os intuitos de ensino e aprendizagem da Bíblia. E é justamente esse aprendizado que deve provocar em cada um de nós uma ligação Bíblia-vida, de tal forma que nos leve à práxis do evangelho libertador de Jesus de Nazaré. Sabemos que a mesma é tradicional, e ousar mexer com tradição é se arriscar no campo minado das críticas, as quais  muitas vezes não serão construtivas.

É até utópico pedir e esperar que isso aconteça. Nem que seja por um domingo apenas. Mas, como nos provocou o escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano: “Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” Seria motivo de muito orgulho ver isso acontecer; saber que o povo evangélico brasileiro descobriu o caminho das ruas, assim como Jesus fez em seu ministério. De tanto viver nas ruas, Jesus se tornou a cara do povo; a ponto do pastor Ed René Kivitz dizer, em uma de suas reflexões, que Judas precisou beijá-lo para que o soldado pudesse identifica-lo no meio de seus discípulos.

Faz-se necessário que o povo brasileiro ganhe as ruas e exija as eleições diretas, lute por isso. Além de fazer valer a vontade do povo, isso evitará que se concretize outra etapa do golpe, dessa vez com eleições indiretas, assumindo o poder alguém que não foi escolhido por maioria absoluta de votos.

Mas, quando se fala em tomar as ruas, percebe-se que isso vem acontecendo com mais intensidade, desde as jornadas de junho de 2013, passando pela belíssima demonstração de poder com a Greve Geral do dia 28 de abril deste ano. Porém é preocupante perceber que boa parte dos evangélicos, uma parcela significativa da sociedade, não pense que seja necessário ir à luta por direitos. Todos e todas, incluindo nossas lideranças, precisam muito aprender com Martin Luther King, pastor Batista o norte-americano, que no dia 28 de Agosto de 1963 liderou a “Marcha por Trabalhos e Liberdade’, conseguindo a aprovação da Lei dos Direitos Civis (1964) e Lei do Direito ao Voto (1965).

Descobri que aprender sobre isso era também aprender sobre a vida de “Embaixadores do Rei”. Penso que se nossas lideranças ensinarem isso ao povo não teremos massa de manobra, que elege qualquer um, principalmente os que compõem a ‘bancada evangélica’. Imagino, ainda que de maneira utópica, que nesse dia teríamos uma grande EBD, e o povo evangélico descobriria a força do diálogo, o prazer da luta e a prática do ser sal e luz.

Domingo sem luta, futuro de retrocessos. Vamos a EBD nas ruas.

Sobre o autor desse artigo:

alain oliveira
Alain Oliveira. Foto: Divulgação.

Alain Oliveira é estudante de geografia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL); estudante de teologia no Seminário Teológico Batista de Alagoas (Setbal); membro da Primeira Igreja Batista em Tabuleiro (Maceió/AL) e seminarista pela mesma igreja. Trabalhou durante três anos com população de rua e conhece bem as injustiças cometidas com essas pessoas.

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2 comentários

  1. Nossa Escola Bíblica deve manter-se na Igreja e ensinar o Evangelho. Essas proposta de vocês nada mais é do que panfletismo partidário, graças ao bom Senhor vocês estão sendo expostos e expurgados pelas próprias contradições.

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Comentários

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