Opinião| Libertem Rafael Braga!

Um preto, um pobre, assim é Rafael Braga. Não o conheço pessoalmente, mas tenho acompanhado pelas redes sociais a sua história. Quem eu conheço é a (in) justiça do Brasil. Essa não é cega como acreditei quando me contaram. Descobri que ela tem visão parcial e só enxerga gente como o Rafael, que é preto e pobre. Esses ela enxerga, condena e mata todos os dias.

Iguais ao Rafael Braga, existem muitos Rafaeis e Rafaelas pelo Brasil. Devemos lembrar desses sempre. Mas quero agora lembrar de um Rafael específico, que não possuía um coquetel molotov e não é traficante. Seu caso se tornou o nosso e se faz necessário lutar por sua liberdade. Para isso precisamos seguir as palavras de Wellington Santos, Pastor da Igreja Batista do Pinheiro em Maceió, quando sobre o caso disse: “resistência e pé na porta até ela cair”.

Talvez você não saiba de quem eu estou falando. Mas isso é de se esperar. Rafael não ganhou delação premiada e saiu nos jornais. Mais um motivo para que os que lutam por sua liberdade mostem seu nome ao mundo. Seu nome deve ganhar cada vez mais espaços nas redes sociais, mas principalmente nas nossas lutas, pois a sociedade brasileira não se importa com gente pobre e preta. A grande mídia não abre espaços para que as pessoas saibam a injustiça que estão cometendo desde 2013. Mas nós vamos fazer diferente.

Não se importar com o caso de Rafael é compactuar com injustiça que põe na prisão um ex-catador de latinhas, que portava um ‘pinho sol’ e uma garrafa de água sanitária no meio de um milhão de manifestantes durante protesto no dia 20 de junho de 2013, tornando-se o único condenado daquela onda de protestos, sob a acusação de estar portando coquetel molotov.

Não se importar é também compactuar com a injustiça que tempos depois “liberta” Rafael a partir do regime semi-aberto, mas não consegue libertar Rafael do racismo institucional. A consequência disso é que no dia 12 de janeiro de 2016 Rafael teve o desprazer de se deparar com policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Vila Cruzeiro, Rio de Janeiro, e esses supostamente forjaram um flagrante com apenas 0,6g de maconha, 9,3g de cocaína e um rojão. Mesmo sob a negação de Rafael de que o material era seu.

Vídeo 1: Deputado Marcelo Freixo (PSOL/RJ) fala sobre visita a Rafael Braga


Para quem se lembra da história de Fernando Ramos da Silva (do personagem Pixote), ou é negro e periférico no Brasil, sabe que perseguição por parte da polícia não é novidade. E essa mesma (in) justiça, que nunca prendeu Thor Batista, no dia 20 de abril de 2017 condenou Rafael a 11 anos e 3 meses de prisão e o pagamento de R$ 1.687,00, usando como base apenas os depoimentos dos policiais que participaram da prisão e negando o depoimento de sua vizinha, que diz ter visto Rafael sem nada nas mãos e sendo agredido por esses mesmos policiais.

Mais um caso que exemplifica o destaque dado a cor do indivíduo pela justiça brasileira. Se for negra merece cadeia. Penso que se não fossem os esforços de anônimos e conhecidos nas redes sociais, das páginas e blogs e da mídia alternativa, a hastag que pede a liberdade de Rafael e consequentemente dá visibilidade ao caso não tomaria conta das linhas do tempo de muita gente. Já houve também uma vigília pela liberdade de Rafael Braga, a fé como ferramenta de luta. Assim como outros atos já realizados e alguns que ainda irão acontecer.

Tudo isso tem sua importância simbólica. Irmãos e irmãs que Rafael ganhou mesmo sem conhecê-los mostram que se importam e estão lutando de alguma forma a sua luta, combatendo o racismo e suas raízes históricas, tão presentes em nossa sociedade.

Contudo, percebo que se faz necessário continuar nessa luta, nos unindo e abrindo a nossa boca em favor de Rafael. “Não permitindo que a nossa boca nos faça pecar” (PV. 30: 32) com o nosso silêncio. Vamos juntos e juntas gritar, incomodar e lutar para que libertem Rafael Braga.

Sobre o autor desse artigo:

Alain Oliveira é estudante de geografia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), estudante de teologia no Seminário Teológico Batista de Alagoas (Setbal), membro da Primeira Igreja Batista em Tabuleiro (Maceió/AL) e seminarista pela mesma igreja. Trabalhou durante três anos com população de rua e conhece bem as injustiças cometidas com essas pessoas.

Acompanhe nossa Coluna Opinião!

Vídeo 2: Veja a entrevista de Rafael Braga ao deputado Marcelo Freixo

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