A política “pós-verdade” das igrejas evangélicas

“Enfim, tomar partido na política parece levar ao seu jogo de vale-tudo pelo poder, no qual mais importa convencer pessoas do que conduzi-las à verdade.”

A política pós-verdade das igrejas evangélicas
Foto por DodgertonSkillhause, em Morguefile.com

Com a adoção da política, nasce a igreja “pós verdade” (post-truth). Interessante notar como as igrejas evangélicas vêm praticando a “pós-verdade” indiscriminadamente pelo mundo, lançando mão desse fenômeno mundial como uma ferramenta para influenciar os meios social e político, ao mesmo tempo que são influenciadas por eles.

Segundo definição do Dicionário de Oxford, “pós-verdade” é “algo que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência para definir a opinião pública do que o apelo à emoção ou crenças pessoais”. Ou seja, a verdade ficou em segundo plano, preferimos nos guiar pelo que acreditamos, em detrimento dos fatos.

O Dicionário da renomada Universidade de Oxford – Inglaterra – elegeu a expressão “pós-verdade” como a palavra de 2016. Esse adjetivo não é uma nova palavra, pois a mesma já existe  há alguns anos. Porém, essa expressão passou a ser muito utilizada para resumir os intensos acontecimentos de 2016, principalmente no campo da política, que gerou incontáveis brigas acaloradas e propagação de notícias falsas nas redes sociais.

Na Colômbia, igrejas evangélicas pregaram contra o fim de uma guerra civil de décadas, entre governo e as FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. A paz viria através de um acordo de paz, proposto pelo presidente daquele país. Propagaram notícias de que tal acordo afetaria as famílias e seus filhos negativamente, inclusive estimulando a homossexualidade. O presidente da Colômbia – Juan Manuel Santos – recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2016, em reconhecimento a seus esforços para por fim a esse conflito que já deixou milhares de mortos.

Aqui no Brasil, agiram explicitamente a favor do impeachment de Dilma e abraçaram Temer como um santo homem de Deus. Pastores deputados da bancada evangélica votaram a favor, justificando seu voto em nome de Deus, da família, da honra, etc. Onde estavam os fatos concretos de uma coisa e de outra? Após a queda de Dilma, pastores líderes das principais denominações evangélicas se reuniram para abençoar o agora presidente, Michel Temer. Um deles chegou a profetizar que Deus o tinha escolhido para guiar a nação, citando versículos bíblicos.

Vídeo: Pastores orando pelo Presidente Michel Temer.

Já nos EUA, grande parte dos evangélicos apoiou Trump, apesar de seus discursos inflamados e preconceituosos, e de ter sido casado várias vezes. As eleições americanas foram marcadas pelo grande número de notícias falsas espalhadas pelas redes sociais Segundo pesquisa da BuzzFeed News, essas falsas notícias superaram as de renomados jornais, como “New York Times”, “Washington Post” e NBC News. De 20 notícias falsas com melhor desempenho no Facebook, apenas três não eram pró-Donald Trump ou contra Hillary Clinton.

As convicções políticas das igrejas não deveriam estar acima dos fatos. Mas o que se vê nos

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Deputados evangélicos, partidos e simpatizantes comemoram aliança. Foto: Reprodução

últimos anos é que as igrejas evangélicas têm adotado posições políticas, até mesmo posições partidárias. Não são raras – ao menos aqui no Brasil – aparições de políticos nos púlpitos de algumas denominações evangélicas, em períodos eleitorais.

Enfim, tomar partido na política parece levar ao seu jogo de vale-tudo pelo poder, no qual mais importa convencer pessoas do que conduzi-las à verdade. Esse pode ser um mal irreversível às igrejas e criar uma nova denominação, a igreja “pós-verdade”.


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é engenheiro eletricista, membro da Igreja Assembleia de Deus Ministério do Belém, em São Paulo.

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